Safira
Estou sentada no tapete macio da sala de estar, observando Emily enquanto ela brinca com suas bonecas. A pequena coleção está espalhada ao nosso redor, cada boneca vestida com um traje diferente, refletindo a imaginação vibrante de Emily. Ela fala suavemente para elas, criando um mundo que é muito mais doce e inocente do que o que eu conheço. Tento me concentrar, sorrir e participar da brincadeira, mas meu coração está pesado demais. Cada gesto meu é uma luta para não desmoronar, para não deixar que Emily perceba o turbilhão de emoções que me consome por dentro.
Eu pego uma das bonecas, a que Emily me entregou, e faço a voz que sempre a faz rir, tentando manter o tom leve.
- Ah, olhe para mim, sou a boneca mais elegante de todas! Vamos ao baile, meninas! - Emily ri, seus olhos brilhando de alegria, e por um breve momento, meu coração se aquece. Ela é uma criança tão doce, tão inocente. O tipo de pureza que me faz querer protegê-la de todas as dores que o mundo pode infligir.
Mas enquanto ela continua a brincar, minha mente divaga para a realidade cruel que me aguarda fora dessas quatro paredes. A notícia do noivado forçado com aquele nojento do Barbosa... A simples ideia me destrói por dentro. Tudo o que eu sempre temi, tudo o que eu sempre quis evitar, está prestes a acontecer, e eu estou impotente para impedir.
Tento me concentrar no presente, em Emily, mas a dor é avassaladora. Como posso sorrir e brincar quando sei que minha vida está prestes a ser roubada novamente de mim?
O tempo parece passar em câmera lenta, cada minuto uma batalha para manter a compostura. Finalmente, a cozinheira aparece na porta da sala, interrompendo nossos risos.
— O jantar está pronto, senhorita Safira. — A voz dela é gentil, e ela sorri para Emily antes de continuar.
— O Sr. Dante avisou que chegará um pouco mais tarde, mas ele pediu que você jantasse com Emily.
Assinto, me levantando do tapete com Emily ao meu lado. Seguro sua pequena mão na minha, e nós caminhamos juntas para a sala de jantar. A mesa está posta de maneira impecável, como sempre, e o aroma do jantar preenche o ar, mas o simples ato de me sentar e comer parece uma tarefa monumental. Sento-me ao lado de Emily, ajudando-a a se servir.
Enquanto ela fala sobre sua brincadeira e me conta pequenas histórias da escola, eu tento sorrir, tento acompanhar a conversa, mas cada palavra é um esforço. Emily, sempre tão atenta, percebe que estou diferente.
— Você está bem, Safira? — ela pergunta, sua voz cheia de preocupação infantil.
Eu sorrio para ela, forçando-me a parecer tranquila.
— Estou sim, querida. Só estou um pouco cansada, mas estou muito feliz de estar com você.
Ela sorri, satisfeita com a resposta, e continua comendo. Mas por dentro, me sinto sufocada. A realidade que me espera fora daqui, a escuridão que se aproxima... Tudo parece tão iminente, tão inevitável.
Quando terminamos de jantar, já é hora de Emily se preparar para dormir. Levo-a até o banheiro, ajudando-a a escovar os dentes e a tomar um banho. Ela se diverte com a espuma, rindo enquanto faz barquinhos de sabão flutuarem na água. Eu assisto, tentando gravar esses momentos na minha mente, como uma espécie de refúgio para o que está por vir.
Depois que ela está seca e vestida com seu pijama favorito, um conjunto rosa com pequenos unicórnios brilhantes, nós caminhamos de mãos dadas até o quarto dela. Emily sobe na cama com um pequeno salto e, com seus olhos brilhantes, me entrega um livro de histórias.
— Você pode ler para mim? — ela pede, sua voz suave e cheia de expectativa.
Sorrio para ela, tentando esconder a dor que me consome.
— Claro, querida. Qual história você quer ouvir?
Ela aponta para uma das histórias do livro, uma sobre uma princesa corajosa que enfrenta dragões para salvar seu reino. Abro o livro e começo a ler, deixando que minha voz suavize cada palavra, cada frase. A cada página virada, vejo Emily relaxar, seus olhos lentamente se fechando enquanto se entrega ao sono.
Enquanto leio, sinto uma pontada de culpa. Emily é uma criança tão maravilhosa, e aqui estou eu, usando-a como um escape para a minha própria dor. Mas não posso evitar. Ela é a única coisa boa na minha vida agora, o único raio de luz que me impede de afundar completamente.
Quando termino a história, Emily já está dormindo profundamente. Fico observando-a por alguns minutos, seu pequeno peito subindo e descendo em um ritmo tranquilo. Eu me inclino, plantando um beijo suave em sua testa, e sussurro:
— Boa noite, meu anjo.
Levanto-me, apagando a luz do quarto e fechando a porta com cuidado. Ao sair do quarto, sou novamente engolida pela realidade. O tempo com Emily me deu um breve momento de paz, mas agora estou de volta ao mundo real, onde meu futuro está sendo decidido por mãos que não são as minhas.
Desço as escadas, sentindo o peso da noite se aproximar. Dante ainda não voltou, e a casa está mergulhada em um silêncio que só amplifica a angústia dentro de mim. Estou à beira do precipício,
sem saber como evitar a queda que me aguarda.
Me sento no sofá da sala, tentando me concentrar em qualquer coisa que não seja o relógio na parede. Cada segundo que passa me aproxima do momento em que Dante chegará, e eu terei que voltar para a mansão... para aquela prisão. A simples ideia faz meu peito apertar, como se um peso invisível estivesse se instalando sobre mim, esmagando cada fio de esperança que ainda tento agarrar.
Não quero voltar. Não quero encarar Samuel e Dorothy, e muito menos a realidade do noivado que eles arranjaram para mim com aquele monstro do Barbosa. Meu estômago revira só de pensar em seu rosto asqueroso, no toque repulsivo que já imagino em meus piores pesadelos.
Meu coração começa a bater mais rápido, descompassado, e uma onda de calor sobe pelo meu corpo. Tento respirar fundo, mas o ar parece não entrar nos meus pulmões. As paredes ao meu redor parecem se fechar, se aproximando de mim, e uma sensação de pânico começa a tomar conta de mim, se espalhando como uma nuvem negra.
Minhas mãos começam a tremer, e eu as escondo no colo, tentando controlar o movimento involuntário. Mas é inútil. Os pensamentos ruins começam a invadir minha mente, um após o outro, como se uma barreira dentro de mim tivesse sido rompida, permitindo que todos os medos e inseguranças se derramassem de uma só vez.
"Eu não posso fazer isso. Não posso voltar para lá. Eu não posso me casar com ele."
Me levanto do sofá, sentindo as pernas vacilarem sob meu peso. Cada passo que dou é mais difícil do que o anterior, como se meus pés estivessem presos ao chão por correntes invisíveis. Meu peito dói, uma pressão crescente que torna impossível respirar. Tudo o que consigo pensar é em sair daqui, em encontrar um lugar onde possa respirar.
Vou em direção ao jardim, na esperança de que o ar fresco me ajude a aliviar essa sensação opressora, mas cada passo parece mais difícil do que o anterior. A distância até a porta parece infinita, e quando finalmente alcanço o jardim, sinto minhas pernas cederem.
Caio de joelhos na grama úmida, e a escuridão da noite ao meu redor parece me engolir. A respiração que já estava difícil agora é quase inexistente, ofegante e irregular. Sinto como se estivesse me afogando em terra firme, lutando por cada pequena porção de ar, mas nada parece suficiente. Minhas mãos tremem descontroladamente, e meus pensamentos se embaralham em um redemoinho de medo e desespero.
— Deus, por quê? — sussurro, minha voz quebrada.
— O que eu fiz para merecer isso? Por que estou tão sozinha, tão... desamparada?
As lágrimas começam a rolar pelo meu rosto, quentes e incontroláveis, enquanto tento agarrar qualquer fio de lógica que me ajude a entender essa dor que consome meu corpo e minha mente. Mas tudo é em vão. A dor só cresce, uma bola de angústia e terror que se instala no meu peito, esmagando qualquer tentativa de raciocínio.
— Eu não aguento mais... — murmuro, soluçando entre as palavras.
— Não posso... não posso continuar assim...
Sinto meu corpo tremendo incontrolavelmente, como se fosse desmoronar a qualquer momento. A dor em meu peito é tão intensa que mal consigo pensar em outra coisa. O mundo ao meu redor se dissolve em sombras e formas indistintas, e a única coisa que parece real é a dor que me consome. Tento me levantar, mas minhas pernas não me obedecem, como se estivessem feitas de chumbo.
Estou sozinha. Completamente sozinha nesse vazio que ameaça me engolir. O pânico se torna esmagador, e a única coisa que posso fazer é chorar, deixando que a dor se manifeste em ondas incontroláveis de desespero.
O jardim, que normalmente me acalma, agora parece um lugar de desespero. Cada planta, cada flor, se torna uma testemunha silenciosa do meu colapso. A escuridão parece se fechar ao meu redor, e tudo o que posso fazer é me entregar ao sofrimento, afundando na dor que não consigo controlar.
Aos prantos, caio com o rosto na grama, o peito subindo e descendo em solavancos desesperados. Sinto como se estivesse implorando por um alívio que nunca vem, por uma salvação que parece inalcançável. Não sei quanto tempo permaneço assim, de joelhos no chão, com o coração despedaçado e a mente em ruínas, mas cada segundo parece uma eternidade.
Não quero mais voltar. Não quero mais enfrentar essa dor. O peso é insuportável, e me pergunto quanto tempo mais conseguirei suportar antes que eu quebre completamente.
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Atualizado até capítulo 30
Comments
Euridice Neta
Coitada,Dante cadê você a menina tá tendo uma grave crise de pânico...
2025-02-24
0
Mininha
😣😪
2024-09-08
0