Capítulo Onze

Safira

O sol mal nasce e eu já estou de pé. Domingo. Enquanto a maioria das pessoas da minha idade provavelmente está aproveitando o fim de semana, eu estou de joelhos no quintal, esfregando o enorme tapete da sala de estar, o qual Dorothy me fez trazer para cá para lavar .

As mãos estão ásperas de tanto limpar, e a água misturada com sabão escorre pelos dedos, formando pequenas poças ao redor do balde.

-Mais força, Safira! Não quero ver nenhuma mancha!- Dorothy grita da cozinha, onde o cheiro de café fresco contrasta ironicamente com a dureza de sua voz.

Respiro fundo e continuo esfregando, tentando ignorar a dor que começa a latejar nas costas. E eu sei que isso é apenas uma desculpa para me manter ocupada, uma forma de me lembrar constantemente do meu lugar.

A cada movimento do esfregão, minha mente vagueia, escapa para longe desse lugar. E, involuntariamente, eu penso nele. Dante. O homem que eu tanto tenho tentado evitar. Ele é um babaca, com certeza. Quem quase atropela alguém e depois é tão grosseiro? Mas... ontem, no evento, ele foi diferente.

Quando volto para a sala limpo as estantes de livros com um pano de microfibra, passando pelos volumes de histórias que jamais terei tempo de ler. Dante apareceu na minha mente novamente. Ele foi o único que fez algo por mim, me tirou de perto de Barbosa. Ele foi tão ... protetor?

Eu nunca me soube o que era ser protegida

-O que você está fazendo aí parada, menina? Ande logo!- Dorothy surge na porta, as mãos na cintura, os olhos faiscando. Eu aceno rapidamente e volto ao trabalho, limpando os peitoris das janelas.

Enquanto limpo a janela da sala, olho para fora. As crianças brincam na rua, as risadas ecoam pela vizinhança.

Pego o aspirador e começo a passar pela sala, o barulho monótono me ajudando a me perder em pensamentos. Como seria minha vida ao lado de Dante ? Ele não é um príncipe encantado, isso é certo. Mas será que ele poderia me tirar dessa vida deplorável? Poderia ele ser a pessoa que me salvaria?

"Pare com isso, Safira. Contos de fadas não existem na vida real," murmuro para mim mesma, desligando o aspirador para trocar de tomada. "Além disso, esse idiota quase te atropelou outro dia... Bem, eu estava errada, mas ele foi um bruto comigo... Ou será que eu só estou procurando um motivo para odiá-lo?"

Começo a arrumar os móveis, colocando cada coisa em seu devido lugar. As almofadas no sofá, os porta-retratos na estante. Meus pensamentos continuam voltando para Dante . A lembrança do seu rosto, a intensidade dos seus olhos quando me tirou de perto de Barbosa. Ele poderia ser diferente? Poderia ser alguém em quem confiar?

"Safira, você sonha demais," digo para mim mesma, tentando afastar esses pensamentos. Mas é difícil. Muito difícil.

Enquanto tiro o pó dos quadros na parede, penso na minha vida. Na rotina sufocante que Dorothy me impõe, no trabalho exaustivo que nunca parece ter fim. Dante representa uma brecha, uma possibilidade, uma faísca de esperança. Mas é real? Ou é apenas minha imaginação tentando encontrar uma saída?

"Acorde, Safira," digo, sentindo a frustração crescer. "Ele é só um homem. E homens como ele não salvam garotas como você."

Termino de limpar a sala e me dirijo à cozinha, onde Dorothy está sentada, tomando seu café.

-Acabei aqui. O que mais precisa ser feito?

Ela levanta os olhos da xícara e me olha com desdém.

-Vá lavar a roupa. E depois limpe o banheiro.

Assinto, sentindo o peso da rotina cair sobre mim novamente. Mas enquanto caminho em direção à lavanderia, não posso evitar a pequena chama de esperança que Dante acendeu dentro de mim. Por mais irracional que seja, por mais impossível que pareça, a ideia de que ele possa ser diferente, de que ele possa me ajudar a escapar, continua a queimar, mesmo que apenas um pouco.

"Safira, contos de fadas não existem," repito para mim mesma, mas no fundo, uma parte de mim não quer acreditar nisso.

O relógio marca seis da tarde quando finalmente termino todo o serviço. Dorothy finalmente permite que eu "almoce", que na verdade é também a minha janta. A fome me corrói enquanto eu devoro o que restou do almoço, uma porção miserável de um pedaço de carne já fria.Enquanto lavo a louça, ouço os passos pesados de Samuel entrando na cozinha. Ele não precisa dizer nada para eu sentir a tensão no ar.

-Vá tomar um banho e colocar uma roupa decente, vamos ter visita - ele diz áspero, e sai antes de eu poder responder. Foi uma ordem, não um pedido.

Suspiro, mas obedeço, indo para o meu quarto. O chuveiro é uma bênção, a água quente relaxa meus músculos cansados e leva embora a sujeira e o cansaço do dia. Quando termino, escolho um vestido simples, mas bonito, lilás com pequenos detalhes florais. Ele é um dos poucos que tenho e que considero apropriado para visitas. Nos pés, calço minhas sandálias de tiras brancas. Prendo o cabelo em um coque baixo, deixando apenas algumas mechas soltas.

Conhecendo os pais adotivos que tenho, imagino que eles tenham convidado o nojento do Barbosa para jantar. O mais impressionante é que, dessa vez, não me mandaram fazer a janta. Enquanto termino de me arrumar, ouço a campainha tocar. Apresso-me para descer as escadas e me preparar para o pior.Mas quando chego à sala de estar, tenho uma surpresa.

Não é Barbosa que está lá.

É Dante

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Comments

Euridice Neta

Euridice Neta

Dante ro a vingança a qualquer preço...

2025-02-24

0

Any

Any

👏🏽👏🏽👏🏽

2024-08-21

0

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