Capítulo Quatro

Safira

Eu volto para a mansão, o peso do dia ainda pesando em meus ombros. A casa é grande e imponente, uma fortaleza de pedra e vidro. Mas para mim, é mais uma prisão do que um lar.

Samuel está sentado no sofá, assistindo televisão. Ele parece tão à vontade, tão relaxado, como se não tivesse uma preocupação no mundo. Eu tento passar pela sala sem ser percebida, mas então ouço

-Safira-Eu respiro fundo, me virando para encará-lo.

-Sim, pai?- Eu pergunto, tentando manter minha voz calma. Eu não quero brigar. Não hoje.

-Amanhã sua mãe e eu iremos a um evento. Você irá junto. Deixei um vestido em cima da sua cama- ele diz, sem tirar os olhos da televisão.

Eu engulo em seco, uma sensação de pânico se instalando em meu estômago. Eu odeio esses eventos. Eles são apenas uma desculpa para os ricos e poderosos se exibirem, para fingirem que se importam com os menos afortunados.

Eu sinto uma onda de confusão me atingir. Meus pais nunca me levaram a um desses eventos antes. Na verdade, eles sempre me esconderam, como se eu fosse uma vergonha que precisava ser mantida longe dos olhos do mundo.

-Por que querem me levar dessa vez?- Eu pergunto, minha voz tremendo.

-No evento terá muitos homens bem-sucedidos e solteiros. Será uma boa oportunidade para fazermos negócios... Você completou vinte anos semana passada e ainda está solteira. Está na hora de encontrar um marido- Samuel diz, finalmente olhando para mim.

Eu sinto como se tivesse levado um soco no estômago.

-Então é isso, você quer me vender? Eu não sou um produto- eu digo, a raiva borbulhando dentro de mim.

Samuel olha furioso para mim e se levanta do sofá

 -Você é o que eu quiser que você seja. Te tirei daquele maldito orfanato, então seja grata -ele diz, se aproximando de mim.

Eu recuo, sentindo o medo se espalhar por meu corpo. Eu me sinto pequena, indefesa. Como a menina que eu era quando ele me trouxe para essa casa.

-Eu era muito mais feliz naquele orfanato do que nessa casa- eu digo, a raiva fervendo em minhas veias. As palavras saem antes que eu possa impedi-las, mas eu não me arrependo.

Samuel parece surpreso por um momento, mas então sua expressão se endurece. Ele acerta um tapa no meu rosto, tão forte que eu caio no chão pelo impacto. Eu sinto o gosto de sangue na minha boca, minha bochecha ardendo onde ele me atingiu.

-Escute bem... você irá a esse maldito evento como eu estou mandando, ou te jogo na rua- ele rosna, olhando para mim com desdém.

Eu olho para ele, sentindo as lágrimas encherem meus olhos.

-Não está feliz com o que tem? Por que você quer sempre mais? Por que me odeia tanto?-Eu pergunto, minha voz tremendo.

Ele não responde, apenas me olha com aqueles olhos frios. Eu me sinto pequena, insignificante. Como se eu fosse nada mais do que um objeto para ele.

Eu me levanto, limpando as lágrimas do meu rosto. Eu não vou deixar que ele me veja chorar. Eu não vou dar a ele essa satisfação.

 Então, sem aviso, ele me agarra pelo braço e começa a me arrastar pela mansão. Eu tropeço nos meus próprios pés, tentando acompanhar seu ritmo. Eu tento me soltar, mas o aperto dele é forte demais.

Ele me leva até o porão, a porta de madeira pesada se abrindo com um rangido. Ele me joga lá dentro, meu corpo batendo contra o chão frio de concreto.

-Você ficará aqui até a hora de ir ao evento, como castigo por seu comportamento-ele diz, trancando a porta atrás de si. Eu ouço o som da chave girando na fechadura, o som ecoando no silêncio do porão.

Eu olho ao redor, tentando me acostumar com a escuridão. O porão é frio e úmido, o cheiro de mofo enchendo o ar. As paredes são de pedra, ásperas e frias ao toque. Há uma única lâmpada pendurada no teto, mas está quebrada, deixando o porão na penumbra.

Eu me encolho no canto, abraçando meus joelhos. Eu posso sentir o frio do concreto se infiltrando em minhas roupas, fazendo meu corpo tremer. Eu fecho os olhos, tentando bloquear a realidade.

Mas não importa o quanto eu tente, não consigo esquecer a expressão no rosto de Samuel. A frieza em seus olhos. A crueldade de suas palavras.

Eu estou sozinha. Presa em um porão, esperando o momento de ser exibida como um objeto em um evento cheio de estranhos.

As lágrimas começam a cair, quentes e salgadas, descendo pelo meu rosto. Eu tento segurá-las, mas é inútil. Elas caem, uma após a outra, como uma chuva incessante.

Eu choro. Choro pela menina que eu era, pela mulher que eu poderia ter sido. Choro pela vida que eu poderia ter tido, pela liberdade que foi roubada de mim. Choro pela dor, pela raiva, pela impotência.

Eu choro até que meu peito dói, até que minha garganta está seca e arranhada. Eu choro até que não haja mais lágrimas, até que tudo que resta é um vazio frio e doloroso.

Eu me encolho ainda mais no canto, o frio do concreto se infiltrando em meus ossos. Eu fecho os olhos, tentando bloquear a escuridão ao meu redor. Mas não importa o quanto eu tente, não consigo escapar da realidade.

Eu estou sozinha. Presa em um porão, esperando o momento de ser exibida como um objeto em um evento cheio de estranhos.

Eu sinto meus olhos pesarem, o cansaço se infiltrando em cada parte do meu corpo. Eu luto contra ele, tentando permanecer acordada. Mas é inútil. A escuridão me envolve, me puxando para baixo.

Dante

Estou sentado com Emily em sua lanchonete preferida, observando-a enquanto ela devora suas batatas fritas favoritas. Ela parece tão feliz, tão despreocupada. Eu gostaria de poder protegê-la de tudo, de mantê-la nessa bolha de inocência por mais tempo.

-Papai, você já pensou?-Emily pergunta, seus olhos brilhando com esperança.

-Pensou no que, querida?- Eu pergunto, mesmo sabendo a resposta.

-Em trocar minha babá-Emily diz, ansiosa. Eu suspiro, sentindo a irritação borbulhar dentro de mim. Essa insistência dela está começando a me irritar.

-Ainda não, filha. Vou precisar de um pouco mais de tempo- eu digo, tentando manter minha voz calma. Emily sempre foi uma menina carente, sempre procurando uma figura materna em suas babás. Sua mãe a abandonou quando ela era apenas um bebê, deixando-a comigo e desaparecendo no mundo.

Rachel, apesar de ser uma boa babá, não é tão carinhosa com Emily. Ela faz seu trabalho, mas falta aquele toque maternal que Emily tanto deseja. E isso me deixa mal. Eu sei que minha filha sofre com a ausência de uma mãe.

Eu olho para Emily, vendo a esperança em seus olhos. Eu sei que ela quer que eu diga sim, que eu concorde em trocar Rachel por Safira. Mas eu não posso fazer isso.

Mas, por mais que eu tente, não consigo esquecer Safira. A maneira como ela olhou para mim, como se estivesse pronta para me desafiar a cada passo. Ela é intrigante, tenho que admitir.

Volto meu olhar para Emily, que ainda me observa com aqueles olhos cheios de esperança. Minha cabeça está cheia de problemas, de decisões que precisam ser tomadas. Eu já pensei em arrumar uma madrasta para Emily, um casamento por conveniência apenas para que ela tenha uma figura materna. Mas eu sei que isso é complicado. Nem toda madrasta é uma boa mãe.

E então, minha mente volta para Safira. Emily gosta muito dela. Ela é jovem, cheia de energia e linda , além disso parece gostar de Emily

"Maldição, por que não consigo parar de pensar nessa garota irritante?" Eu penso comigo mesmo. Eu tento afastar os pensamentos dela, mas eles continuam voltando, como um disco quebrado.

Eu olho para Emily novamente, vendo a esperança em seus olhos. Ela quer uma mãe. Ela precisa de uma mãe. E, por mais que doa admitir, eu não posso ser isso para ela.

Eu suspiro, passando a mão pelo cabelo. Eu tenho uma decisão a tomar. Uma decisão que pode mudar tudo.

Mas, por enquanto, eu apenas sorrio para Emily, tentando esconder minha preocupação.

-Vamos terminar essas batatas fritas, querida- eu digo, pegando uma batata e mordendo.

Emily sorri para mim, um sorriso que ilumina seu rosto e faz meu coração se aquecer.

-Ok, papai- ela diz, pegando outra batata frita e mordendo com entusiasmo.

Eu a observo, meu coração cheio de amor por essa pequena criatura que de alguma forma conseguiu se tornar o centro do meu universo. Ela é tão inocente, tão cheia de vida. Eu faria qualquer coisa para protegê-la, para mantê-la segura.

Eu pego outra batata frita, mastigando lentamente enquanto observo Emily. Ela está tão concentrada em sua comida, seus olhos brilhando de felicidade. É um momento simples, mas é um momento que eu vou guardar para sempre.

Eu olho ao redor da lanchonete, observando as outras pessoas. Famílias rindo juntas, casais compartilhando um momento íntimo, amigos se divertindo. É um vislumbre de normalidade, um vislumbre de uma vida que eu desejo para Emily.

Eu volto meu olhar para Emily, vendo-a terminar suas batatas fritas. Ela parece tão feliz, tão contente. E eu sei que, por mais complicada que minha vida possa ser, por mais decisões difíceis que eu tenha que tomar, tudo vale a pena por esse momento.

Porque, no final das contas, tudo o que eu quero é ver Emily feliz. E se isso significa que eu tenho que enfrentar alguns demônios, então que seja.

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Mônica Lourenço

Mônica Lourenço

estou gostando da história

2025-02-12

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