Safira
A sala de eventos se enche com murmúrios e risos contidos enquanto meus pais engajam em uma conversa com um empresário de semblante duvidoso. Sinto meu estômago roncar suavemente, uma traição sonora que ameaça revelar minha verdadeira batalha interna.
-Sim, essa é minha filha, ela é linda não?-anuncia Samuel, meu pai, enquanto me apresenta a um homem baixinho e barrigudo. Meu olhar se cruza com o dele, e vejo o brilho calculista que acompanha suas palavras. Há mais nessa apresentação do que uma mera formalidade.
Enquanto o homem inicia uma série de elogios, suas palavras se tornam um zumbido incessante em meus ouvidos. Sinto-me como uma peça de leilão, avaliada por características que vão além da superfície. Meu estômago ronca novamente, desta vez de maneira mais audível, e vejo meus pais trocarem olhares repreensivos.
-Você é uma linda jóia -diz o homem, com um sorriso que revela intenções
Forço um sorriso enquanto meus olhos vagam para a mesa de comida.
Enquanto eles continuam a conversa sobre alianças e negócios, meu estômago ronca mais uma vez, uma traição involuntária que não passa despercebida. Sinto o olhar do homem sobre mim, e minha mãe me lança um olhar reprovador.
-Você deve se alimentar, querida. Não queremos que pense que é uma esfomeada- diz minha mãe, tentando manter as aparências.
-Claro, mãe, logo eu vou - respondo, com um suspiro contido. Minha atenção se divide entre a fachada social e a tentação irresistível da mesa de comida , mas sei que devo agir como uma dama e não pular na mesa de comida como uma morta de fome , então é melhor aguardar um pouco.
O empresário retoma seus elogios, mas agora sua atenção se torna mais intrusiva, suas palavras carregadas de intenções desagradáveis. Sinto-me enojada, mas mantenho a calma.
-Você deve ser uma dama elegante e submissa, Safira,imagine as vantagens de fazer parte de uma família como a nossa-sugere ele , insinua ele, seu olhar lascivo me envolvendo.
Engulo em seco, resistindo ao impulso de responder com sarcasmo
Irritada, desvio o olhar, tentando disfarçar minha aversão. No entanto, o olhar dele persiste, como garras afiadas penetrando minha reserva. Uma onda de náusea se mistura à indignação enquanto ele continua suas insinuações desagradáveis.
Nesse instante de desconforto, meu olhar desviado se depara com algo inesperado. Surge no horizonte do salão o pai de Emily, um gigante imponente com seus quase dois metros de altura. Seus olhos, profundos como poços de mistério, encontram os meus em um instante que parece ecoar além do tempo.
Um silêncio tenso preenche o espaço ao nosso redor, e, por um momento, parece que o mundo exterior desaparece. A presença imponente do pai de Emily rouba a cena, sua figura majestosa destacada contra o cenário de luxo.
Sem a presença de Emily, a atmosfera torna-se ainda mais carregada. Seus olhos, como faróis em meio à escuridão, capturam a intensidade do momento. O coração bate descompassado, e a energia entre nós se torna palpável, carregada de uma tensão que transcende as palavras.
O pai de Emily avança com passos firmes em minha direção, como se fosse atraído por uma força invisível. Cada movimento dele é calculado, e seus olhos continuam a me sondar, buscando respostas em meio à confusão que se desenha.
Os olhares dos meus se voltam para o pai de Emily, e até mesmo o empresário, cujo nome mal me recordo, direciona sua atenção para a cena que se desenrola. Meu coração bate descompassado, enquanto a imprevisibilidade deste encontro imprevisto me deixa perplexa.
O pai de Emily se aproxima com um sorriso estranho nos lábios quando olha para mim, e então seus olhos se voltam para meus pais.
-Desculpe interromper a conversa. Fiquei empolgado quando vi os famosos Rossetti; sempre quis conhecê-los pessoalmente- ele diz com a voz grave, e sinto um arrepio percorrer minha espinha.
"O que está acontecendo comigo?", murmuro internamente, enquanto tento compreender a tensão que se desenha na sala.
-Sou Dante Draven , é um prazer conhecê-los- ele se apresenta estendendo a mão para meus pais , que sorriem aceitando o cumprimento.
-O prazer é nosso, Sr. Dante É sempre bom saber que temos admiradores- responde meu pai, Samuel, com um sorriso simpático.
Dante sorri e volta o olhar para mim.
-Essa é nossa filha, Safira. É a primeira vez que a apresentamos à alta sociedade-diz minha mãe, Dorothy, notando o olhar de Dante para mim.
Ele sorri e estende a mão para mim. Há um brilho diferente nos olhos dele, mas ele segue fingindo que nunca me viu na vida.
-Safira... É um prazer-Dante diz, e eu aceito o cumprimento, sentindo o desconforto crescer diante da encenação.
Ouço um limpar de garganta, e meu olhar se volta para o empresário, cujo nome sequer lembro. Seria Luke? Julian? Ah, tanto faz.
-Vou comer algo, gostaria de me acompanhar, Senhorita Safira?- ele pergunta. Eu queria gritar um sonoro não, mas minha mãe responde por mim.
-Mas é claro que sim, você deve esta faminta já que não comeu nada quando saiu de casa, não é, querida?- Dorothy pergunta com um sorriso, mas posso perceber o cinismo em suas palavras.
-Sim... Eu te acompanho- respondo ao homem sem vontade. Ele estende o braço, e eu o acompanho. Lanço um último olhar a Dante antes de me afastar e posso notar que ele também me observa com uma expressão indecifrável.
Dante
Observo Safira sair acompanhada do homem , e um desconforto crescente se instala em mim. Sinto uma mistura de repulsa e pena ao vê-la ser praticamente empurrada pelos próprios pais para aquele sujeito. É sério isso? Os pais dela estão tentando empurrá-la para aquele homem?
Mas preciso disfarçar. Tenho um plano a seguir, e não posso deixar que minhas emoções interfiram. Com um sorriso controlado, me aproximo de Dorothy e Samuel.
— É muito bom conhece-los mas , devo dizer, fiquei surpreso ao saber que estão enfrentando algumas dificuldades legais. Acusações de lavagem de dinheiro e outras coisas, se não me engano.
O sorriso de Samuel vacila por um momento, antes de ele se recompor. Dorothy, por outro lado, mantém a expressão serena, mas seus olhos revelam uma preocupação velada.
— Sim, infelizmente, essas acusações surgiram do nada. — Samuel diz, com uma leve tensão na voz. — Estamos trabalhando para resolver tudo isso.
— Entendo. — Eu digo, franzindo a testa em uma expressão de compreensão.
— Acontece que sou advogado e tenho interesse em ajudá-los. Tenho experiência com casos complexos e acredito que poderia ser útil.
Dorothy e Samuel trocam um olhar rápido, claramente intrigados pela oferta.
— Isso é realmente generoso da sua parte, Sr. Draven — Diz Dorothy.
— Pode nos contar um pouco mais sobre sua experiência?
— Claro. — Respondo, aproveitando a oportunidade para estabelecer minha credibilidade
— Trabalhei em alguns casos notórios. Fui o principal advogado no caso "Fischer vs. Estado", onde conseguimos provar a inocência de um empresário injustamente acusado de fraude. Também atuei no caso "Henderson vs. CorpTech", onde desmantelamos uma rede de corrupção corporativa. Meu foco sempre foi garantir justiça e proteger a reputação de meus clientes.
Vejo a curiosidade e o interesse crescerem nos olhos de Samuel e Dorothy.
— Impressionante, Sr. Draven — Samuel diz, com um tom de admiração.
— Parece que você tem uma carreira respeitável.
— E o mais importante, parece que tem a experiência que precisamos. — Acrescenta Dorothy, com um sorriso mais sincero desta vez.
— Estaríamos muito interessados em discutir mais sobre como você pode nos ajudar.
— Fico feliz em ouvir isso. — Respondo, mantendo o tom profissional, mas com um toque de empatia.
— Podemos marcar uma reunião para discutir os detalhes? Quero entender melhor a situação de vocês e ver como podemos proceder.
— Claro, vamos agendar isso o quanto antes. — Samuel confirma, parecendo aliviado por ter encontrado uma possível solução para seus problemas.
Enquanto continuamos a conversar, minha mente trabalha incessantemente. Cada palavra, cada gesto, é calculado. Sei que preciso ganhar a confiança deles para poder executar meu plano de vingança. Os Rossetti destruíram minha família, e agora, é minha vez de retribuir o favor.
Enquanto conversamos, minha mente continua a girar, planejando cada movimento. No entanto, um pensamento me ocorre, e decido explorar um pouco mais sobre a família Rossetti.
— A propósito, — começo, com um tom casual,
— Vi Safira na Bright Horizons School onde minha filha estuda.
Samuel e Dorothy trocam olhares antes de responderem. Há uma leve hesitação, mas Samuel é o primeiro a falar.
— Ah, sim, Safira trabalha na escola. — Sua voz tem um ligeiro tom de desdém que não passa despercebido para mim.
— Ela sempre quis ter sua independência, então nunca a impedimos de trabalhar.
Dorothy assente, mas há algo em seu olhar que não consigo decifrar completamente.
— Entendo. — Digo, mantendo minha voz neutra.
— Safira parece ter um dom para cuidar de crianças. Emily gosta muito dela.
Os sorrisos nos rostos deles são instantâneos, mas algo neles parece falso, forçado. Há uma tensão sutil no ar, como se o simples fato de mencionar Safira tivesse mudado a dinâmica da conversa.
— Isso é bom de ouvir. — Dorothy responde, mas seu sorriso não chega aos olhos.
— Safira sempre teve jeito com crianças.
— Sim, ela é muito dedicada. — Acrescenta Samuel, mas seu tom é quase indiferente, como se estivesse apenas cumprindo uma formalidade.
Continuo a observá-los cuidadosamente, notando cada pequena mudança em suas expressões e comportamentos. Algo mudou desde que comecei a falar sobre Safira. Eles parecem desconfortáveis, como se preferissem evitar o assunto.
Será que estão apenas sendo superprotetores ou há algo mais por trás disso?
— É ótimo ver jovens com desejo de independência. — Digo, tentando sondar mais.
— E Safira parece ser muito boa no que faz. Emily sempre fala dela com muito carinho.
— Sim, Safira é... especial. — Dorothy diz, mas há uma nota de hesitação em sua voz, algo que me faz suspeitar ainda mais.
Decido mudar o assunto, mas guardo essa informação valiosa. Algo sobre a relação entre Safira e seus pais não parece certo, e isso pode ser útil para mim mais tarde.
— Bem, foi um prazer conhecê-los e discutir essas questões. — Digo, finalizando a conversa.
— Vamos marcar nossa reunião para resolver os detalhes legais.
— Claro,Sr. Draven — Samuel responde, parecendo aliviado por mudar o foco da conversa. — Será um prazer trabalhar com você.
Nos despedimos e enquanto me afasto, sinto que dei um passo importante no meu plano. A desconfiança que notei em Samuel e Dorothy sobre Safira é uma peça do quebra-cabeça que pode ser crucial. Agora, preciso juntar todas as informações e continuar jogando minhas cartas com cuidado. A vingança é um prato que se come frio, e estou determinado a fazer os Rossetti pagarem por tudo o que fizeram à minha família.
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Atualizado até capítulo 30
Comments
Euridice Neta
Cuidado Sante a vingança tem dois lados e nem sempre é bom e Safira não merece ser usada por você dessa forma...
2025-02-24
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Erika Kinha
Querida autora, estou amando ler a sua estória!! Estou ansiosa para ler mais!🤭😁❤️
2024-08-17
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