Capítulo Quinze

Dante

Estou na portaria da escola, encostado contra o carro, esperando por Emily. A brisa fresca da tarde balança levemente as folhas das árvores ao redor, e o som distante das crianças brincando no pátio me traz uma sensação de calma que não sinto há muito tempo. É estranho, mas a rotina de buscar Emily na escola tem se tornado um dos melhores momentos do meu dia. Algo sobre ver o sorriso dela quando corre para os meus braços faz todo o inferno em que estou mergulhado valer a pena.

Na máfia me conhecem como um advogado implacável, alguém que não hesita em fazer o necessário para proteger os interesses da família. Mas aqui, esperando por minha filha, sou apenas um pai. É uma versão de mim mesmo que raramente tenho a chance de explorar, e a verdade é que gosto disso. Emily me dá um propósito, algo puro e inabalável, em meio ao caos que minha vida se tornou.

Observo as outras crianças saindo pelo portão, rindo e conversando com seus pais. Finalmente, vejo Emily, e como sempre, ela vem correndo, os cabelos loiros balançando com cada passo, o sorriso largo iluminando seu rostinho. E ao lado dela, segurando sua mão, está Safira.

Emily se joga nos meus braços, e eu a abraço com força, sentindo a pequena forma dela contra o meu peito. Esse momento, essa conexão, é tudo para mim.

— Papai! — ela grita com alegria, e eu sorrio, beijando o topo de sua cabeça.

— Oi, minha pequena. Como foi seu dia? — pergunto, mas meus olhos já se voltaram para Safira, que permanece um pouco atrás, observando a cena com um sorriso tímido, mas algo está errado. Há uma sombra em seus olhos, algo que me incomoda.

Quando Emily finalmente se separa de mim, eu me aproximo de Safira, que até agora evitou meu olhar.

— Bom dia, Safira — digo, minha voz calma, mas com uma ponta de preocupação. Ela parece tão abatida.

Safira finalmente me olha, e o que vejo me surpreende. Seus olhos estão inchados, com olheiras escuras marcando a pele ao redor. O sorriso que ela oferece a Emily é forçado, quase doloroso de se ver.

— Bom dia, Dante — ela responde simplesmente, sua voz firme, mas sem a usual energia que eu esperava.

Algo está errado. Muito errado.

Não posso ignorar o estado dela, mas há algo que preciso resolver primeiro. Preciso saber a resposta que ela tem para mim, embora eu possa já imaginar qual seja. Tento manter minha voz neutra, sem mostrar a preocupação que cresce dentro de mim.

— Acredito que não seja um bom momento, mas preciso saber agora, se já pensou sobre minha proposta — digo, observando cada pequena mudança em sua expressão. Ela parece tão cansada, tão perdida.

Safira respira fundo, e por um momento, acho que ela vai se recusar, mas então ela levanta o olhar e diz:

— Sim... Eu aceito.

Um sorriso torto se forma nos meus lábios, um reflexo do alívio e da curiosidade que sinto.

— É por isso que está tão abatida? — pergunto, erguendo uma sobrancelha em uma tentativa de aliviar a tensão.

 — É tão ruim a ideia de trabalhar para mim?

Ela ri, mas é uma risada sem vontade, sem a mínima alegria. Não há resposta além disso, e isso só me faz querer saber mais.

Antes que eu possa continuar, a voz de Emily corta o ar, carregada de surpresa e alegria:

— Papai, do que você está falando?

Sorrio, olhando para minha filha enquanto faço um carinho em seus cabelos, sentindo a suavidade dos fios entre meus dedos.

— Minha pequena, esqueci de te falar. Safira vai ser sua nova babá.

O rosto de Emily se ilumina instantaneamente, e antes que eu possa dizer qualquer outra coisa, ela começa a pular e bater palmas, cheia de entusiasmo. Essa reação aquece meu coração de uma maneira que poucas coisas conseguem.

— Sério, papai? Safira vai ser minha babá? — Emily exclama, correndo de volta para os braços de Safira.

E então eu vejo. Pela primeira vez desde que a conheci, vejo um sorriso genuíno no rosto de Safira. É como se, por um momento, toda a dor, toda a tristeza que ela carrega, tivesse sido varrida pelo simples gesto de carinho de Emily. É um sorriso tímido, mas está lá, e ilumina seu rosto de uma forma que eu não esperava.

Safira se abaixa, abraçando Emily com um cuidado quase reverente, como se a felicidade da menina fosse um presente frágil que ela não sabe bem como segurar. Vejo uma emoção pura em seus olhos, uma surpresa com a intensidade do afeto que Emily demonstra.

— Ah, minha querida, eu também estou feliz — ela murmura para Emily, sua voz suave, cheia de ternura.

Enquanto as observo juntas, algo dentro de mim se mexe. Há algo em Safira que me toca de uma maneira que não consigo explicar. Ela parece tão acostumada a não receber nada em troca, tão perdida em seu próprio mundo , que essa pequena demonstração de carinho parece quase... inusitada para ela. E ver isso mexe comigo.

O sorriso que vejo no rosto de Safira ao abraçar Emily me faz perceber que, talvez, eu esteja fazendo algo bom aqui, algo que vai além do que eu planejava. Mas isso não muda o fato de que preciso descobrir o que está por trás daquela tristeza nos olhos dela. E enquanto Emily pula de alegria entre nós, prometo a mim mesmo que vou descobrir.

Safira

Emily está pulando nos meus braços, suas pequenas mãos segurando-me com uma força surpreendente para alguém de sua idade. Seu rosto está iluminado, os olhos brilham com uma alegria tão pura que eu mal consigo acreditar que sou a causa disso. Sinto o calor de seu abraço e, por um momento, todo o cansaço, todo o peso que carreguei até agora parece desaparecer. Ela não sabe o que esse gesto significa para mim, mas isso não importa. Para Emily, é apenas uma expressão simples de felicidade; para mim, é um gesto que derrete o gelo que há muito envolveu meu coração.

Eu sabia que Emily gostava de mim. Sempre soube. Mas ver essa alegria em seus olhos, sentir a sinceridade em seu abraço… isso é algo novo para mim. Algo que eu não sabia que precisava até agora. Ninguém nunca me olhou assim, com tanto carinho, com tanto afeto desinteressado. Eu sou uma estranha nesse mundo de sentimentos, e isso me deixa um pouco assustada, mas também… tocada.

Enquanto Emily continua a saltar em meus braços, sinto algo começar a mudar dentro de mim. De repente, todas as minhas dúvidas, todos os receios que tive em aceitar esse trabalho parecem tão… pequenos. Quase irrelevantes. O medo de ser usada novamente, de ser apenas uma peça no jogo de interesses dos outros, começa a perder força diante da alegria genuína dessa criança.

Sim, esse trabalho pode ser mais uma forma de exploração, mais uma maneira de me manter presa a uma vida que nunca escolhi. E sim, será mais cansativo ter dois trabalhos, dividir meu tempo entre a escola e cuidar de Emily. Mas ao menos estarei longe da mansão, longe dos olhares críticos e das palavras cortantes e da violência de Samuel e Dorothy. Talvez isso seja um alívio, um escape que eu nunca soube que precisava. E mesmo que eu tenha que lidar com Dante, o homem que tanto odeio, o homem que me confunde com sua presença dominante e sua beleza irritantemente perturbadora, talvez… talvez isso valha a pena.

Quando finalmente me afasto um pouco de Emily, sinto o olhar de Dante sobre mim. Relutantemente, levanto o olhar para ele, esperando ver aquele sorriso irritante e irônico que ele costuma dar, o sorriso que me tira do sério e que faz meu sangue ferver. Mas o que vejo é diferente. Dante está sorrindo para Emily, um sorriso tão cheio de ternura e amor que me pega desprevenida. Não é o Dante que conheci até agora, não é o advogado frio e calculista que enfrentei tantas vezes. Esse Dante é… humano.

E então ele faz algo que me deixa completamente sem palavras. Ele olha para mim e, por um breve momento, aquele mesmo sorriso que ele deu para Emily é direcionado a mim. É um sorriso sincero, quase… carinhoso. Eu não estava preparada para isso. Meu coração acelera de repente, batendo descompassado no peito, e sinto o sangue subir para o rosto. Eu mal sei como reagir.

Céus, ele é um homem perfeito. O mais lindo que já vi. Não é justo que alguém como ele possa ter um lado tão doce, tão capaz de sorrir assim, de um jeito que me faz questionar tudo o que achei que sabia sobre ele. E enquanto fico ali, imóvel, lutando para controlar as emoções que surgem de repente dentro de mim, percebo que talvez… talvez Dante seja mais do que eu imaginava. Talvez, por trás daquela fachada implacável, haja um homem que eu ainda não conheço.

Mas o que isso significa para mim? Será que posso confiar nele? Ou estou apenas sendo ingênua, permitindo que esse lado de Dante me engane, me desarme?

Emily puxa minha mão, distraindo-me de meus pensamentos confusos, e eu me abaixo para ficar na altura dela.

— Safira, você vai cuidar de mim todos os dias? — ela pergunta com os olhos brilhando de expectativa.

Eu forço um sorriso, tentando acalmar o turbilhão dentro de mim, e passo a mão pelos cachos dourados de Emily.

— Vou, minha querida. Vou cuidar de você todos os dias — respondo, minha voz mais firme do que me sinto.

Emily dá um gritinho de alegria e me abraça novamente, e por um momento, o mundo ao meu redor se dissolve. Não há mais preocupações, nem dúvidas, nem o sorriso perturbador de Dante. Só há essa criança, essa pequena luz que, de alguma forma, conseguiu acender algo em mim que pensei estar apagado há muito tempo.

Combinamos de eu começar o trabalho amanhã e Dante me passa o endereço da casa e seu telefone

Quando finalmente nos despedimos, sinto que algo mudou. Algo dentro de mim se moveu, e não sei exatamente o que fazer com isso. Mas, ao menos por enquanto, decido guardar essa sensação para mim, carregá-la comigo enquanto volto para a mansão.

E quanto a Dante… bem, ele continua a ser um enigma. Um enigma que talvez eu não deva tentar resolver. Mas é difícil afastar a imagem daquele sorriso de minha mente, é difícil ignorar o jeito como ele me fez sentir. Por mais que eu tente me convencer de que tudo isso é perigoso, uma parte de mim quer descobrir mais, quer entender quem ele realmente é.

E isso, mais do que qualquer outra coisa, é o que mais me assusta.

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Comments

Mininha

Mininha

Safira precisa se libertar dessa família diabólica que a adotou...

2024-09-08

1

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