Safira
Estou sentada ao lado de Dante, tentando me manter firme, mas minha mente não para de me torturar com a lembrança de como fui ingênua. Por que, em algum momento, pensei que ele poderia ser diferente? Que talvez houvesse uma faísca de gentileza por trás daquele olhar frio e calculista? A realidade é dura: Dante não é diferente de ninguém que já conheci. Ele só quer me usar como todos os outros.
Por que deveria ser diferente?
Sinto raiva, não só dele, mas de mim mesma por ter me permitido fantasiar com algo impossível. Como se fosse uma completa tola. E isso só torna a antipatia que sinto por ele ainda mais intensa. Claro, há algo mais nessa irritação... uma frustração que não quero admitir, algo que me incomoda toda vez que nossos olhares se cruzam. Eu odeio a forma como ele me faz sentir, como se meu próprio corpo estivesse em conflito comigo.
Respiro fundo, tentando acalmar a onda de emoções. Preciso manter a compostura. Afinal, meus pais – embora não de sangue – estão aqui, observando cada movimento meu como predadores à espera de um deslize.
A única coisa que realmente me traz paz, a única vez em que sinto que posso ser eu mesma, é quando estou com as crianças na escola. Lá, entre risadas inocentes e histórias simples, consigo me esquecer das correntes invisíveis que me prendem.
— Eu gosto do meu trabalho na escola, gostaria de me dedicar somente a isso e mais nada — digo, minha voz sai firme, mas sei que há uma nota de incerteza ali. E então, vejo o olhar que meus pais me lançam. É o suficiente para fazer meu coração acelerar de ansiedade. Um olhar severo e cheio de expectativas. Não preciso de palavras para saber o que eles pensam: estou me opondo, e isso não vai acabar bem para mim.
Eu estremeço por dentro, sabendo que estou em terreno perigoso.
Deveria simplesmente acenar e aceitar a proposta, como eles querem. Ser submissa, fazer o que é esperado de mim. Mas algo dentro de mim resiste. Talvez seja o fato de que trabalhar para Dante seria um inferno. Ou talvez seja a forma como ele me irrita, essa presença dominante e arrogante que me faz querer fugir na mesma medida em que me deixa... desconcertada.
Dante não parece nem um pouco surpreso com minha resposta. Seu rosto mantém aquela expressão calma e controlada que me tira do sério. Ele me observa com um olhar que parece examinar cada nuance do meu desconforto, como se estivesse analisando uma peça de xadrez antes de mover a próxima.
— Safira, querida — Dorothy começa, adotando aquele tom doce e persuasivo que ela usa quando quer me dobrar à vontade dela.
— Sabemos que você gosta das crianças, mas essa oportunidade é única, além disso você só trabalha meio período, poderia trabalhar de manhã na escola como sempre fez e a tarde na casa de Dante como babá. Trabalhar com Dante ... poderia abrir tantas portas para você. Não acha?
Samuel se inclina para frente, sua expressão séria como sempre.
— Seria bom para todos nós, Safira. Sem contar que você ainda estaria perto de Emily, que você tanto gosta.
Eu fico em silêncio, tentando não deixar transparecer a angústia. Eles já decidiram o que é "melhor" para mim, como sempre fazem. A expectativa paira no ar, esperando que eu ceda. Mas eu simplesmente não consigo. Não consigo dizer as palavras que eles querem ouvir.
— Eu entendo que isso pode ser uma decisão difícil — a voz de Dante corta o silêncio, sua calma quase irritante.
— Por isso, vou te dar um tempo para pensar. Amanhã, podemos conversar de novo e você me diz o que decidiu.
Eu olho para ele, surpresa pela consideração que parece genuína, mas não deixo de sentir que há uma segunda intenção por trás disso.
Dorothy força um sorriso, tentando dissipar o clima tenso.
— Que gentileza da sua parte, Dante. E já que vai ficar mais um pouco, que tal jantar conosco? Seria um prazer.
Ele aceita com um aceno educado.
— Claro, Dorothy. Enquanto jantamos, podemos discutir mais alguns detalhes sobre o caso o que irei defende-los Tenho certeza de que algumas coisas precisam ser esclarecidas.
Eu me mantenho em silêncio, engolindo o nó que se formou na minha garganta. O jantar vai ser longo, e estar tão perto de Dante durante todo esse tempo só vai aumentar a pressão que já sinto. Mas não tenho escolha. Como sempre, sou uma prisioneira em minha própria vida.
Eu me levanto da poltrona com certa hesitação e sigo Dante e meus pais até a sala de jantar. O som dos nossos passos ecoa no piso de mármore, e posso sentir o peso de cada segundo que passa. Tento manter minha expressão neutra, mas por dentro, estou uma mistura de inquietação e curiosidade. Quando entramos na sala, sou pega de surpresa.
Uma mesa longa, ornamentada com talheres de prata, pratos de porcelana e taças de cristal, se estende à minha frente. Velas acesas no centro lançam uma luz suave, dando à sala um ar quase solene. O aroma de carne assada, temperos frescos e pães recém-saídos do forno enche o ambiente, me deixando atordoada por um momento. Estou acostumada a ver banquetes assim apenas de longe, normalmente após as visitas, quando eu fico com os restos frios e esquecidos. Mas hoje, com Dante presente, sou "convidada" a me sentar à mesa e compartilhar dessa extravagância. Tudo faz parte do show, claro.
Manter as aparências é a especialidade deles.
Dorothy sorri satisfeita, visivelmente orgulhosa de sua encenação.
— Espero que goste do jantar, Dante. Eu mesma preparei tudo. — Ela diz isso com uma doçura falsa, mas há uma ponta de arrogância em sua voz, como se quisesse impressioná-lo.
Dante acena com um sorriso educado, e eu simplesmente me sento, tentando desaparecer na cadeira. O silêncio entre nós é carregado enquanto começamos a nos servir, mas logo a conversa se volta para o assunto que, aparentemente, é o motivo real para essa reunião.
— Dante, estamos muito confiantes no seu trabalho — Samuel começa, sua voz firme e controlada, como se estivesse fazendo uma transação. — Sabemos que essas acusações são completamente infundadas. É uma armação para prejudicar nossa imagem e nossos negócios.
Armação? Levanto os olhos para eles, mas mantenho minha expressão inalterada. De que acusações eles estão falando? Tento não demonstrar minha surpresa, mas meu coração martela no peito. Fraude fiscal e lavagem de dinheiro... as palavras ecoam na minha mente. Eu nunca havia escutado nada sobre isso antes, mas não me surpreende. Dado o caráter deles, não duvido nem por um segundo que possam estar envolvidos em algo assim. Na verdade, sempre soube que havia podridão por baixo da fachada elegante e respeitável que eles mantêm.
— Vamos lidar com isso da melhor forma possível, Samuel — responde Dante, com um tom de voz tão controlado que parece estar recitando um manual. — O que precisamos agora é garantir que todas as provas sejam devidamente desqualificadas. Algumas testemunhas podem ser problemáticas, mas estou cuidando para que não sejam uma ameaça.
Eu continuo a mastigar em silêncio, como se não estivesse ouvindo. Cada garfada parece perder o sabor à medida que mais detalhes emergem. Testemunhas problemáticas? Desqualificar provas? Tudo isso soa tão frio e calculado que um arrepio percorre minha espinha. Dante fala com uma calma assustadora, como se o que estivesse descrevendo fosse apenas parte da rotina.
— O importante é que ninguém, especialmente a mídia, suspeite de nada — Dorothy acrescenta, sua voz carregada de preocupação mascarada por aquele tom meloso. — Nossa reputação deve ser preservada a todo custo.
Reputação. Isso sempre foi tudo para eles. O que as pessoas pensam, o status social. Mas ouvir tudo isso tão explicitamente, saber que estou sentada à mesa com três pessoas que falam de manipulação e crimes como se discutissem o tempo, só reforça o quão pouco significo para eles. Sou apenas mais uma peça nesse teatro de mentiras.
Enquanto a conversa continua, mantenho os olhos fixos no meu prato, mal tocando a comida. Estou tentando processar tudo, mas ao mesmo tempo, quero fugir. Sei que, se fizer alguma pergunta ou mostrar qualquer sinal de surpresa, só vou chamar atenção indesejada. Então me escondo em meu silêncio, enquanto eles discutem estratégias legais como se estivessem jogando xadrez, sem nenhum vestígio de remorso ou dúvida.
No fundo, só consigo pensar em como estou presa nessa teia de falsidade. Quanto mais ouço, mais percebo que não importa o que eu faça ou diga, sempre serei arrastada por eles para esse jogo doentio. E Dante, com toda a sua eficiência fria, é só mais uma peça essencial nesse quebra-cabeça sombrio.
O jantar finalmente chega ao fim, e mal consigo disfarçar o alívio. Mas esse alívio dura pouco. Quando estamos prestes a nos levantar, Dante vira-se para mim com aquele olhar penetrante.
— Gostaria de conversar com Safira em particular, se não se importam — ele diz com a voz firme, mas polida.
Dorothy e Samuel trocam olhares rápidos. Sei que eles nunca gostaram da ideia de eu ter qualquer tipo de conversa privada, especialmente com alguém como Dante, que controla o ambiente com tanta naturalidade. Mesmo assim, eles assentem, tentando manter a fachada de anfitriões compreensivos.
— Claro, Dante — Dorothy diz, forçando um sorriso. — Vocês podem ir para a sala de estar.
Samuel só dá um breve aceno, mas posso ver a tensão em seus olhos. Eles não estão satisfeitos com isso, mas sabem que não podem demonstrar. Dante agradece e me conduz até a sala ao lado, onde a luz das velas ainda projeta sombras suaves nas paredes. O silêncio entre nós é denso e desconfortável, e a cada passo, sinto o ar ficar mais pesado.
Assim que chegamos, Dante se vira para mim, cruzando os braços. Ele não perde tempo com rodeios, o que, admito, é uma qualidade que prefiro à hipocrisia e aos jogos de palavras.
— Vamos ser diretos — ele começa, seu tom sem rodeios, como esperado.
— Eu sei que você não gosta de mim. E, para ser honesto, eu também acho você um pé no saco. Mas...
— Ele faz uma pausa, avaliando minha reação. — Emily gosta muito de você, e isso é algo que não posso ignorar.
Suas palavras me pegam de surpresa. Dante admitindo que me acha insuportável?
Isso deveria me deixar aliviada, mas há algo na sinceridade dele que me desarma. Tento manter minha expressão neutra, mas sei que ele percebe minha curiosidade
- Você não parecia muito disposto a aceitar a ideia de eu trabalhar como babá da sua filha, quando ela propôs isso na escola , o que te fez mudar de ideia?
— Emily é uma criança carente — ele suspira, sua voz mais suave agora.
— Ela tem poucos laços verdadeiros. E, por algum motivo, você conseguiu criar uma conexão com ela. — Ele dá de ombros, como se não conseguisse entender como ou por que isso aconteceu, mas não pudesse negar.
— Eu sei que você tem suas razões para não querer trabalhar comigo . E, honestamente, não ligo para o que você pensa de mim. Mas gostaria que você realmente pensasse sobre o que isso significa para Emily. Ela precisa de alguém com o seu jeito especial com crianças.
Suas palavras ressoam em mim de um jeito que eu não esperava. A imagem de Emily, com seus olhos brilhantes e sorriso inocente, aparece na minha mente, e por um momento, sinto meu coração apertar. Sei o quanto ela gosta de mim, e isso mexe comigo mais do que gostaria de admitir. Respiro fundo e olho para Dante, tentando encontrar alguma mentira ou manipulação em suas palavras, mas tudo o que vejo é sinceridade, ainda que ele a expresse com sua usual frieza.
— Eu vou pensar sobre isso — digo, mantendo minha voz o mais controlada possível. Não quero que ele perceba a batalha interna que estou travando.
Dante assente, satisfeito com minha resposta.
— Espero que pense com cuidado. — Ele me encara por um longo momento, e pela primeira vez, sinto que talvez ele esteja falando mais do que apenas sobre a oferta de trabalho. Há algo a mais nas palavras dele, algo que não consigo decifrar.
Depois de um silêncio carregado, ele se vira e sai da sala, voltando para a sala de jantar. Eu o sigo, mantendo uma distância segura. Ao se despedir de meus pais, ele mantém a compostura impecável de sempre, trocando formalidades e garantindo a eles que entrarão em contato em breve para discutir os próximos passos.
Mas antes de sair, Dante volta a atenção para mim. Ele me dá um sorriso que me faz querer arrancá-lo à força. É aquele sorriso provocador que ele exibe com tanta naturalidade, um sorriso que parece saber exatamente como mexer comigo. É irritante e, ao mesmo tempo, impossível de ignorar. Meu coração dá um salto, uma reação que me enfurece ainda mais.
— Estarei esperando a sua resposta, Safira — ele diz, sua voz com um toque quase brincalhão, como se soubesse que me deixou mais confusa do que nunca. Ele se afasta, ainda com aquele sorriso que parece ecoar na minha mente.
Fico parada, observando-o sair pela porta. Meu corpo inteiro está tenso, e um turbilhão de pensamentos me consome. Como alguém pode ser tão irritante e, ao mesmo tempo, despertar uma curiosidade que eu preferia não ter?
Quando a porta se fecha, sinto um peso cair sobre mim. Sei que essa decisão não é tão simples quanto parece. Há muito mais em jogo do que apenas aceitar ou não um trabalho. Se eu entrar nesse mundo, estarei me aproximando cada vez mais de tudo o que sempre quis evitar. Mas, ao mesmo tempo, não posso deixar de pensar em Emily, em como ela se sentiria se eu dissesse não.
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Atualizado até capítulo 30
Comments
Euridice Neta
Eita que decisão difícil em Safira?
2025-02-24
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