Capítulo Dezessete

Dante

A imagem de Safira, com aquela expressão de dor quando a segurei, não sai da minha cabeça. Ela estava usando uma blusa branca de manga comprida, mas o tecido era levemente transparente, o suficiente para que eu percebesse a sombra de algo no braço dela. Uma marca roxa. Uma sombra que me deixou inquieto desde o momento em que a vi.

 É óbvio que Safira está machucada. Mas a questão que me corrói é como isso aconteceu. Ela gemeu de dor quando a toquei, e foi um som que eu não consigo tirar da cabeça. Não foi apenas um susto ou um desconforto momentâneo; foi dor genuína. A expressão dela era clara, mesmo que tentasse disfarçar. E o jeito que recuou, como se estivesse escondendo algo... Não, ela definitivamente está escondendo algo.

Bater em algum lugar? Talvez, mas não consigo acreditar nisso. Se fosse o caso, ela não teria se esforçado tanto para esconder a dor. Não teria mentido tão facilmente dizendo que era um "pequeno machucado". Não, Safira estava escondendo a verdade, e é essa mentira que me faz ficar ainda mais desconfiado.

E se... e se alguém fez isso com ela?

Essa possibilidade me atinge como um soco no estômago. Quem seria capaz de machucar alguém como Safira? Ela pode ser irritante às vezes, mas isso não justifica que alguém a machuque. E então, sem querer, minha mente começa a se lembrar dos pais dela. Samuel e Dorothy. Os Rossette.

Sempre houve algo estranho na forma como eles falam sobre Safira, ou melhor, na forma como evitam falar sobre ela. E quando o fazem, há sempre um desconforto subjacente, algo que eles tentam esconder sob um verniz de polidez. Como se Safira fosse um fardo, uma responsabilidade indesejada que eles prefeririam ignorar.

Começo a me lembrar de cada pequeno detalhe. As vezes em que Samuel mudava de assunto quando o nome dela surgia. O olhar irritado de Dorothy quando Safira cometia um "erro" trivial. Sempre achei que eles eram apenas pais controladores, mas agora... Agora, tudo parece diferente. Será que eles poderiam ser capazes de machucar a própria filha?

A ideia me enche de uma raiva que não sei de onde vem. Não sei por que isso me incomoda tanto, mas o fato é que me incomoda. Safira pode ser teimosa, pode ser irritante, mas a ideia de alguém levantar a mão contra ela é insuportável. E essa raiva começa a crescer dentro de mim, alimentada por cada lembrança, por cada pequeno detalhe que agora faz sentido.

Droga.

Levanto-me abruptamente, pegando as chaves do carro. Não posso ficar aqui, sentado, pensando nisso.

Caminho rapidamente pelo estacionamento, minha mente ainda presa àquela marca no braço dela. Eu queria acreditar que estou exagerando, que talvez seja apenas um mal-entendido, mas algo dentro de mim sabe que não é. Algo me diz que estou no caminho certo, e quanto mais penso nisso, mais claro fica.

Os Rossette. Não seria uma surpresa se estivessem envolvidos em algo assim. Eles têm uma fachada de perfeição, mas eu sei que, por trás disso, há algo podre. E se eles são capazes de fraude, lavagem de dinheiro , eles mataram minha família , por que não seriam capazes de machucar a própria filha?

Entro no carro e ligo o motor, o ronco baixo da máquina preenchendo o silêncio do estacionamento. Mas minha mente ainda está a mil.

Vou para o escritório, mas sei que não vou conseguir me concentrar em nada até resolver isso. Preciso saber a verdade. Preciso entender o que está acontecendo com Safira. Porque, de uma forma que ainda não entendo completamente, isso importa para mim. Mais do que deveria.

Acelero o carro, saindo do estacionamento e indo em direção ao escritório. Mas minha mente não está aqui, no caminho à minha frente. Está naquele momento em que vi a sombra roxa no braço de Safira, naquela expressão de dor que ela tentou esconder. E na raiva que senti ao perceber que alguém pode estar fazendo isso com ela.

Safira. O que está acontecendo com você? E por que eu me importo tanto?

...

No escritório, o silêncio é interrompido apenas pelo som das teclas do meu laptop, que preenche o espaço como um metrônomo sombrio. A fachada de defensor dos Rossette precisa ser mantida, então continuo a analisar cada detalhe do caso, avaliando as provas e buscando brechas que possam ser exploradas no tribunal. Mas minha mente está dividida, carregada de preocupações que vão além da simples defesa legal.

Os Rossette. Barbosa. Damien. E agora, Safira.

A lembrança daquela marca roxa no braço de Safira continua a me assombrar, interferindo na minha concentração. Tento me focar no trabalho, mas é impossível ignorar a sensação de que algo está profundamente errado. Safira não é apenas uma empregada ou uma babá temporária. Há algo mais acontecendo com ela, algo que não consigo ignorar. Mas, por agora, preciso continuar a jogar o jogo, manter as aparências.

Damien está de olho em mim, e eu sei que ele tem os meios para vigiar cada movimento que faço. É um controle que me irrita, mas que preciso tolerar. Não posso me dar ao luxo de cometer erros agora. Se eu tropeçar, Damien estará lá para me puxar para baixo. E isso não é algo que eu possa permitir.

Respiro fundo e volto a organizar o plano contra Barbosa. Ele passou dos limites ao mandar seus homens me seguirem, e eu não sou do tipo que perdoa esse tipo de afronta. Minha mente começa a desenhar o esquema com precisão cirúrgica, calculando cada passo, cada movimento que vou fazer para garantir que Barbosa receba o que merece.

Primeiro, vou atingi-lo onde dói mais: suas finanças. Já tenho informações suficientes sobre os negócios sujos dele, então a primeira etapa será orquestrar uma série de golpes financeiros que o deixarão vulnerável. Contratos desfeitos, contas congeladas, parceiros comerciais que desaparecem misteriosamente. Vou desestabilizar tudo o que ele construiu, deixando-o sem chão.

Depois, a parte mais delicada: as ameaças sutis. Nada que possa ser diretamente ligado a mim, é claro. Para isso, vou usar intermediários, pessoas que podem agir nas sombras, sem deixar rastros. Uma palavra aqui, um aviso ali, o suficiente para deixar Barbosa paranóico, fazendo-o questionar cada movimento. Ele vai começar a ver inimigos em todos os lugares, e isso vai destruí-lo de dentro para fora.

Finalmente, quando ele estiver no limite, vou dar o golpe final. Algo que deixe claro que ele cruzou a linha, algo que mostre que eu não sou alguém com quem ele pode brincar. Um "acidente" cuidadosamente planejado, algo que pareça uma coincidência, mas que deixe uma mensagem clara: eu estou no controle.

Satisfeito com o plano, fecho a pasta mentalmente e volto minha atenção para os Rossette. Preciso continuar construindo o dossiê contra eles, preparando-me para o momento em que a verdade será revelada. Mas agora, essa verdade está começando a se complicar de formas que eu não havia previsto.

Começo a revisar documentos e arquivos antigos, buscando qualquer pista que possa me dar uma vantagem. Estou à procura de inconsistências, de algo que os ligue a atividades ilícitas. E então, em meio a tudo isso, algo chama minha atenção: um detalhe no registro da entrada de Dorothy na maternidade, na época em que Safira teria nascido.

Algo não bate.

O documento parece legítimo à primeira vista, mas ao analisá-lo mais de perto, percebo pequenas inconsistências. A assinatura do médico é diferente das outras em arquivos semelhantes. A data parece ter sido alterada. É sutil, mas para alguém com meu olhar atento, é impossível ignorar.

— Max, preciso que verifique isso — digo, entregando o documento a ele.

— Algo está errado com o registro de nascimento de Safira.

Max pega o papel, seus olhos se estreitando enquanto examina o documento

. — Isso é... interessante. Parece que o registro foi falsificado.

Assinto, minha mente trabalhando rápido. Se o registro é falso, então há uma grande chance de que Safira não seja filha biológica dos Rossette. Mas por quê? O que eles estão escondendo?

Enquanto Max continua a examinar o documento, decido seguir outra linha de investigação. Pego o envelope com as fotos que Max conseguiu para mim. Fotos antigas, que até agora não pareciam relevantes, mas que agora podem ser a chave para entender o que está acontecendo.

Abro o envelope e começo a analisar as imagens. A primeira é de um casal jovem, ambos sorrindo enquanto seguram um bebê nos braços. O bebê é Safira, sem dúvida. Mas o casal não é Dorothy e Samuel. São duas pessoas desconhecidas para mim, mas a felicidade em seus rostos é inegável. Eles saem da maternidade, radiantes. A mulher segura Safira com um cuidado quase reverente, como se fosse seu maior tesouro.

Passo para a próxima foto. O mesmo casal, agora em uma pose mais formal, ao lado de Dorothy e Samuel. A mulher está grávida, claramente em um estágio avançado da gestação. Os quatro parecem felizes, mas há algo desconcertante na imagem. Uma proximidade forçada, talvez?

E então, a última foto: Safira, um pouco mais velha, agora nos braços de Dorothy. O casal jovem está ausente, e o sorriso de Dorothy é um pouco mais... calculado. Como se ela estivesse tentando esconder algo.

— Max, quem são essas pessoas? — pergunto, sem tirar os olhos das fotos.

Max dá de ombros.

 — Ainda estou investigando, mas parece que o casal tinha alguma ligação com os Rossette antes de desaparecerem. Depois disso, Safira foi colocada no orfanato onde depois foi adotada por Dorothy e Samuel.

— E você disse que eles desapareceram? — minha voz é mais tensa do que eu pretendia.

— Sim, nada nos registros recentes. É como se tivessem sido apagados.

Olho para as fotos novamente, sentindo uma onda de raiva crescer dentro de mim. Se Dorothy e Samuel tomaram Safira desses dois, então há muito mais em jogo do que simples mentiras. Há uma história sombria aqui, e eu estou apenas começando a desvendá-la.

Max continua a falar, mas minha mente já está a mil. Não só preciso proteger Safira dos Rossette, mas agora, mais do que nunca, preciso descobrir a verdade. E quando eu descobrir, nada vai me impedir de usar essa informação contra eles.

Porque agora, não é só sobre vingança. É sobre justiça para Safira, uma justiça que ela nem sabe que merece.

Fecho as fotos e guardo tudo em um lugar seguro. Minha mente já começa a traçar os próximos passos. E, no fundo, sei que não posso parar até que essa história esteja completamente exposta.

Não importa o que seja preciso.

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Comments

Silvia Moraes

Silvia Moraes

O dinheiro dos Rossete é da Safira, os pais dela foram roubados

2025-03-20

0

Mininha

Mininha

Que enredo maravilhoso essa história tem!!!

2024-09-08

1

Any

Any

👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽🫙

2024-08-22

0

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