Safira
Estou sentada no sofá da sala, ao lado de Emily, enquanto ela assiste ao segundo filme da noite. Preparei um lanche rápido para ela, algo simples, mas que trouxe um sorriso enorme ao seu rosto: pipoca e suco de laranja. Agora, as tigelas estão quase vazias, e eu percebo que o tempo passou muito mais rápido do que eu havia imaginado. Estamos tão absortas no filme que quase não percebo a hora.
Ouço passos firmes e pesados se aproximando, e meu coração dá um salto involuntário. Eu já sei quem é, e o efeito que ele tem sobre mim, mesmo sem querer admitir, é inevitável. Levanto o olhar e vejo Dante entrar na sala, sua presença enchendo o espaço com uma força que parece dominar tudo ao redor.
Caramba, já são oito horas da noite?
Emily, ao ver o pai, sorri de orelha a orelha e corre para ele. Dante se abaixa para recebê-la em seus braços, e o sorriso que ele lhe dá é... desarmante. É um sorriso diferente do que ele me deu mais cedo, quando discutimos sobre o trabalho. É um sorriso genuíno, carregado de afeto e ternura. Algo que, por um momento, me faz esquecer de tudo ao meu redor.
— Papai! — Emily exclama, segurando-o com força, como se o mundo dela estivesse completo apenas com sua presença.
Eu me levanto do sofá, tentando manter a compostura, mas sei que minha voz sai um pouco mais baixa, quase hesitante, quando o cumprimento.
— Boa noite, Dante — digo, meus olhos tentando evitar os dele, mas falhando miseravelmente.
— Boa noite, Safira — ele responde, sua voz grave e firme. Há algo no tom dele que faz minha pele se arrepiar, como se cada palavra estivesse impregnada de uma energia que eu não consigo identificar, mas que certamente sinto.
Enquanto Emily se aninha em seu braço, Dante me observa por um breve momento, seus olhos negros fixos em mim de uma maneira que faz o tempo parecer parar. Há uma intensidade ali, algo que me faz sentir pequena, mas ao mesmo tempo, incapaz de desviar o olhar. É como se ele estivesse vendo algo que nem eu mesma consigo enxergar.
Finalmente, Emily se afasta e volta ao sofá, ainda sorrindo. É minha deixa para me despedir, sabendo que minha presença aqui não é mais necessária. Tento manter a voz firme e profissional, mesmo que algo dentro de mim esteja em tumulto.
— Acho que já vou indo — digo, forçando um sorriso enquanto olho para Emily.
— Amanhã nos vemos de novo, certo?
Emily acena, um pouco triste por eu estar indo embora, mas ainda assim, com aquele brilho inocente nos olhos.
— . Vou esperar por você.
Dante, que até então estava observando a interação, finalmente fala.
— Vou chamar um motorista para te levar para casa — ele diz, não como uma sugestão, mas como uma ordem . Ele sempre tem esse ar de comando, como se cada palavra fosse uma declaração inquestionável.
Assinto, percebendo que não há muito o que discutir. Sigo Dante até a porta, com ele ao meu lado, sua presença tão próxima que posso sentir o calor que emana de seu corpo. A cada passo, o silêncio entre nós se torna mais pesado, mais carregado de algo que não consigo definir.
Quando finalmente alcançamos a porta, Dante se vira para mim, e nossos olhares se encontram de uma maneira que faz meu coração disparar. Ele está mais perto do que deveria estar, e o espaço entre nós parece diminuir a cada segundo que passa.
— Boa noite, Safira — ele diz, mas há algo na sua voz que me faz tremer. Não é apenas um desejo de boa noite, há algo mais. Algo que me deixa inquieta, como se houvesse uma corrente elétrica no ar.
Eu deveria simplesmente responder e ir embora. Mas algo me impede. Talvez seja a intensidade de seu olhar, ou a maneira como ele está me observando, como se estivesse vendo além da minha fachada. Como se quisesse desvendar algo que nem eu mesma sei.
— Boa noite, Dante, até amanhã— digo, finalmente, minha voz mais suave do que eu gostaria. Tento dar um passo para trás, mas ele não se move. Pelo contrário, ele parece se inclinar ainda mais para perto, como se quisesse dizer algo, mas estivesse se segurando.
O ar ao meu redor fica mais denso, e por um momento, não sei o que fazer. Ele está tão perto que posso sentir sua respiração, e o mundo ao meu redor parece se desfazer, restando apenas nós dois, nesse momento carregado de tensão.
Seus olhos, tão negros e profundos, me prendem, me hipnotizam. Ele levanta uma mão, como se fosse tocar meu rosto, mas para no meio do caminho. Um gesto hesitante, que só aumenta a tensão entre nós.
— Você realmente é um mistério, Safira — ele murmura, com uma voz rouca que quase me faz perder o equilíbrio.
Ele se inclina ainda mais, e por um segundo, acho que ele vai quebrar a distância entre nós. Mas então, Dante Sorri aquele sorriso provocador que tanto odeio. Um sorriso que me desarma completamente.
— Até amanhã, Safira — ele diz, com sua voz carregada de algo que não consigo entender.
Eu não consigo responder. Só consigo assentir, meu coração batendo descontroladamente no peito, enquanto ele finalmente se afasta, me dando espaço para sair.
Enquanto caminho até o carro que ele chamou para mim, sinto minhas pernas quase trêmulas. Droga, o que foi isso? Tento recuperar o controle, mas o momento ainda está gravado na minha mente, e sei que não vou esquecer tão cedo.
Dante é perigoso.
Ele é perigoso porque me faz sentir algo que eu não quero sentir, algo que me faz questionar tudo o que acho que sei sobre mim mesma. E isso... me assusta. Mas ao mesmo tempo, é impossível não querer saber mais.
O carro para suavemente em frente à mansão, minha prisão dourada. A luxuosa fachada de pedra fria, que reluz à luz da lua, sempre me causa um calafrio. Despeço-me do motorista com um leve sorriso, mesmo que por dentro eu esteja despedaçada, e agradeço.
— Obrigada— digo
Ele apenas acena, seu olhar rápido e profissional. Abro a porta do carro e saio, sentindo o vento frio da noite acariciar meu rosto. Cada passo em direção à mansão parece um fardo mais pesado que o anterior. Subo os degraus da entrada com as pernas tremendo, minha mente ainda presa ao que aconteceu com Dante momentos antes. Mas, assim que coloco o pé na soleira da porta, uma sensação familiar de desespero me envolve.
Abro a porta da mansão, a opulência me engolindo mais uma vez. O silêncio me recebe, mas há algo perturbador no ar. E então, vejo a luz da sala acessa, o brilho amarelado derramando-se pelo corredor escuro. Eu hesito, mas continuo andando. Ao entrar na sala, encontro Samuel sentado no sofá, sua expressão séria e cheia de uma frieza que nunca deixa de me fazer estremecer.
— Safira — ele me chama, sua voz baixa, mas carregada de autoridade. Paro no mesmo instante, o sangue gelando nas minhas veias. Sei que quando ele me chama assim, nunca é coisa boa.
Lentamente, viro-me para ele, tentando esconder o medo que começa a tomar conta de mim.
— Sim? — respondo, a voz saindo mais fraca do que eu gostaria.
Samuel se inclina para frente, os olhos fixos em mim, penetrantes como se tentassem decifrar cada um dos meus pensamentos. Sua presença, sempre imponente, me faz sentir pequena, insignificante.
— Barbosa esteve aqui — ele começa, a calma em sua voz apenas acentuando a gravidade do que está prestes a dizer. Meu estômago se contrai instantaneamente, uma náusea se espalhando dentro de mim.
— Ele veio acertar os detalhes do noivado — Samuel continua, sem hesitar.
— Já marcamos a data para o casamento.
Minha mente parece entrar em um vórtice, girando em um turbilhão de emoções e pensamentos que se entrelaçam em puro desespero. Não pode ser verdade. Isso deve ser algum tipo de pesadelo. Mas, ao olhar para o rosto impassível de Samuel, percebo que não há escapatória. Ele está sério, como sempre.
— Casamento...? — mal consigo formar a palavra, meus lábios tremem ao pronunciar cada sílaba.
— Com Barbosa?
Samuel assente, como se estivesse confirmando o óbvio.
— Sim, Safira. É o melhor para todos nós. Já está tudo decidido. Não há motivo para você relutar.
Relutar? Relutar seria uma palavra muito suave para o que estou sentindo. Uma mistura de pavor, repulsa e desespero toma conta de mim. Cada fibra do meu ser grita para fugir, para me afastar de tudo isso. Mas eu sei... Sei que não posso. Sei que, se me opuser, as consequências serão terríveis. Samuel não precisa dizer nada, seus olhos já me avisam.
Eu sinto uma vontade enorme de gritar, de dizer que odeio Barbosa, que o desprezo com todas as minhas forças. Que a ideia de me casar com ele me dá náuseas. Mas o medo... o medo de Samuel e do que ele pode fazer me paralisa. Eu já vi o que acontece quando alguém desafia a vontade dele. E sei que, no fim, sou apenas uma peça para ele, algo para ser usado e descartado quando não servir mais.
As palavras de Dante vêm à minha mente: "Você realmente é um mistério, Safira." Ele não faz ideia. Ninguém faz. Ninguém sabe do horror que é viver aqui, sob o domínio desses monstros.
— Você não está pensando em recusar, está? — Samuel pergunta, a voz baixa, mas o tom ameaçador. Ele levanta-se do sofá e se aproxima de mim, seus olhos fixos nos meus. Há uma raiva silenciosa ali, uma ameaça não dita que me faz recuar instintivamente.
— Não... eu... — balbucio, tentando desesperadamente encontrar uma saída.
— Só... é muito repentino.
Samuel para à minha frente, seu olhar fixo e cruel.
— Não me interessa o que você acha, Safira. Isso vai acontecer, e você vai colaborar. — Ele agarra meu braço, o mesmo que ele apertou mais cedo, e a dor aguda me faz soltar um gemido baixo.
Eu sinto o chão sumir sob meus pés. Não posso recusar. Não posso fugir. Mas não tenho dinheiro suficiente para escapar. Mesmo com o salário de Dante, não terei tempo para juntar o suficiente antes desse casamento maldito. Estou encurralada.
— E lembre-se... — Samuel solta meu braço com um empurrão, e eu cambaleio para trás.
— Há consequências para tudo. Se você tentar escapar ou arruinar isso, saberá do que sou capaz.
Fico ali, parada, tentando recuperar o fôlego e o controle sobre mim mesma. A dor no braço é intensa, mas não se compara ao desespero que sinto. Não posso deixar que ele veja minha fraqueza, minha vulnerabilidade. Respiro fundo, tentando reprimir as lágrimas que ameaçam cair.
Por que eles estão tão apressados? Por que querem me ver casada com aquele homem horrível tão rápido?
Isso não faz sentido. Nada disso faz.
— Vá para o seu quarto. E se prepare para o que está por vir. — Samuel dá as costas para mim, voltando ao sofá como se nada tivesse acontecido. Como se tivesse acabado de dar uma ordem qualquer.
Meus pés se movem, quase automaticamente, levando-me em direção à escada. Cada degrau parece mais pesado que o anterior. Quando finalmente entro no meu quarto, tranco a porta e desabo na cama, o desespero tomando conta de mim.
Como vou sair dessa? Como vou escapar desse destino que parece cada vez mais inevitável? Sinto meu corpo tremer, e a única coisa que me mantém ancorada à realidade é a pequena esperança de que o trabalho com Dante possa me dar uma chance, uma única chance de fugir antes que seja tarde demais.
Mas quanto tempo tenho? E, mais importante, será que conseguirei?
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 30
Comments
Euridice Neta
Tomara,que Dante consiga acabar logo com esse maldito Barbosa...
2025-02-24
0
Silvia Moraes
Casa com ela Dante!!
Vc é chato, mas o outro é pior!!
2025-03-20
0
Mininha
Coitada da Safira, é desesperador o sofrimento dela...
2024-09-08
1