Capítulo Dois

Safira Rossete

O frio cortante da manhã me envolve enquanto atravesso a rua apressada, meu coração batendo acelerado com a pressa da vida urbana. Não esperava que um dia tranquilo se transformasse em um turbilhão de emoções ao quase ser atropelada por um homem arrogante, um verdadeiro cavalheiro moderno.Senti o calor do motor em minha pele enquanto recuava rapidamente, escapando do impacto iminente. Minha respiração se transformou em um suspiro aliviado, mas meus olhos capturaram o rosto do homem responsável por fazer meu coração bater descompassado.

 Como ousa quase atropelar uma dama? Mas meu orgulho ferido foi momentaneamente obscurecido pela realidade: ele não me atingiu, e meus pés encontraram o chão firme, fortalecendo minha postura enquanto o encarava.

A expressão no rosto dele ao sair do carro não era de preocupação, mas sim de uma desdém quase palpável, como se eu fosse apenas um obstáculo a ser contornado e esquecido. Se não fosse pela leve inclinação de cabeça, eu teria pensado que ele sequer notou o susto que me causou. Seu olhar frio e indiferente se encontrou com o meu, marcando o início de um duelo silencioso.

Não houve oferta de ajuda imediata, mas, antes que pudesse expressar meu descontentamento, ele percebeu que eu não estava prestes a sair de seu caminho tão facilmente. Isso foi o suficiente para que ele se decidisse a cooperar, ainda que sua gentileza parecesse um fardo incômodo. Cada gesto dele era um lembrete de sua relutância em admitir que sua condução imprudente quase causou um acidente. No entanto, mesmo envolta na frustração do momento, não pude deixar de notar o quão absurdamente bonito ele era. Seus traços fortes e decididos, misturados com uma aura de confiança, o destacavam como uma escultura viva de arrogância e charme. Um pensamento audacioso, mas inegavelmente verdade

A poeira assentou-se, e a rua retomou sua serenidade, mas meu coração continuava sua dança frenética, ainda ecoando o susto que aquele encontro inusitado me causara. Era quase como se, no momento em que nossos olhares se encontraram, algo inexplicável tivesse sido desencadeado.

Finalmente cheguei àquela mansão imponente, uma fachada de esplendor que ocultava uma realidade sombria. Cada passo que eu dava em direção à entrada parecia ecoar com a dança frenética do meu coração, uma trilha sonora de contrastes entre o exterior majestoso e a prisão oculta que aquelas paredes representavam para mim.

A porta maciça se abriu com um rangido, saudando-me com uma visão familiar do hall grandioso, cujo mármore frio e os candelabros suntuosos contrastavam com a atmosfera gélida que permeava a casa.

 Não era um lar; era uma gaiola dourada na qual eu estava aprisionada desde que fui retirada do orfanato.

Dorothy e Samuel, meus pais adotivos de título apenas, governavam essa mansão com rigidez. A promessa de uma família amorosa desvaneceu-se rapidamente quando percebi que a adoção era apenas um disfarce, uma artimanha cruel para me manter cativa em seus caprichos.

Meu uniforme doméstico já estava desgastado, uma vestimenta que simbolizava minha posição naquela casa. Eu, a empregada oculta por trás da fachada de filha adotiva. A cozinha, meu domínio de labuta, sempre ressoava com os sons da escravidão disfarçada de dever filial.

Deixei as compras em cima da mesa e fui para meu quarto

Cada canto daquela mansão era testemunha silenciosa das minhas lágrimas derramadas, uma poesia de sofrimento escrita nas paredes. Os quartos, os salões, todos refletiam uma beleza inalcançável, enquanto eu, a sombra que varria os vestígios de uma vida que nunca poderia ser minha, observava de longe.

A porta pesada se fechou atrás de mim, selando meu destino até a próxima aurora. O aroma de riqueza misturava-se com o perfume doce da opressão enquanto eu subia a escadaria, cada degrau um eco das minhas esperanças desvanecidas. À medida que avançava pelos corredores silenciosos, podia sentir os olhares julgadores dos retratos pendurados nas paredes, uma galeria de testemunhas mudas da minha subjugação.

O quarto que eu chamava de meu era uma cela decorada, um esconderijo de ilusões onde a beleza superficial desafiava a realidade. O dossel da cama era como um refúgio imaginário, uma cortina que separava o sonho da vigília. Ao longo dos anos, transformei esse espaço aparentemente meu em um refúgio mental, um santuário de pensamentos que ousavam sonhar com liberdade.

O relógio na parede anunciava a hora de me preparar para o segundo turno de escravidão, o emprego na escola que, ironicamente, proporcionava-me uma pausa da servidão na mansão. Vestindo meu uniforme escolar, que tinha mais dignidade do que o doméstico

Desci as escadas, cada degrau um eco do meu passado e um presságio do futuro incerto. A casa estava silenciosa, uma trégua momentânea na qual eu podia quase imaginar uma liberdade que estava além do meu alcance. As cortinas fechadas escondiam o mundo exterior, um lembrete de que, para mim, as ruas eram trilhas apenas percorridas entre a mansão e a escola.A cozinha era meu ponto de abastecimento antes de enfrentar a segunda metade do dia.

 Meu salário da escola , um trabalho que adquiri a algumas semanas, me proporcionava o luxo de comprar minha própria comida, uma liberdade limitada a algumas escolhas nas prateleiras empoeiradas da mercearia próxima. Peguei um pacote de bolachas e enchi um copo de água, uma refeição modesta para uma jornada marcada pela fome.

Devorei cada bolacha com uma urgência que vinha do conhecimento de que o tempo era um luxo que eu não poderia me dar. Meus pais adotivos não estavam em casa, uma bênção que me permitia saborear cada mordida sem o peso da vigilância constante.O silêncio na cozinha era uma sinfonia de solidão, e, por um breve momento, me permiti sonhar que poderia escapar da órbita daquelas paredes. Mas a realidade era implacável, e o último gole de água foi o despertar para a jornada que ainda estava por vir.

Terminei minha refeição apressada, lavando o copo

com um suspiro de resignação. As sombras da mansão pareciam esticar-se para me prender enquanto eu saía pela porta, com a determinação de enfrentar mais uma tarde de labuta.

A pé, seguia para a escola, os passos marcados pelo peso dos meus sonhos e pela dança incessante da minha mente. O arrogante charmoso que quase me atropelara ainda rondava meus pensamentos, uma figura indesejada que persistia, mesmo quando as ruas se desdobravam diante de mim.

...

O sol brilha no pátio da escola, criando pequenas poças de luz onde as crianças brincam alegremente. Minha função durante o intervalo é observar os pequenos, uma pausa na rotina que, por alguns momentos, me transporta para um mundo onde a leveza da infância é a protagonista.

-Toma, tia Safira trouxe para você.-A vozinha melodiosa de Emily ecoa, e ela estende um donut na minha direção. Seus olhos brilham com uma animação contagiante enquanto eu recebo o doce gesto.

-Obrigada, meu anjo.- A gratidão se mistura com um sorriso, e um beijo carinhoso no rosto da pequena é minha forma de retribuir.

-Percebi que você está animada hoje, aconteceu alguma coisa?-Pergunto, buscando puxar assunto e mergulhar nas histórias que florescem na mente infantil.

-Sim, papai vai vir me buscar para comermos fora, e vou poder ficar longe da bruxa chata.-Emily responde empolgada,

-Bruxa chata?-Indago, curiosa

-Minha babá, ela é muito chata, não me deixa fazer nada, e quando fala alguma coisa, é sobre meu pai. Já pedi para o papai arrumar outra babá pra mim, mas ele não me escuta... Eu queria uma babá legal igual você... Já sei, vou falar para meu pai que quero você como babá.-

Meu coração se aquece diante da ideia improvável e encantadora.

-Seria um grande alegria cuidar de você, mas eu gosto de passar esse tempo aqui, ajudando todos vocês durante o intervalo. E também seu pai pode não gostar da ideia - Respondo

O brilho nos olhos de Emily persiste, determinado, como se cada palavra que eu dissesse fosse uma nota em uma canção que ela ainda não desistiu de tocar.

-Mas eu vou falar com o meu papai, tenho certeza de que ele vai deixar, tia Safira. Você é tão legal, e eu não gosto daquela babá chata de jeito nenhum.- A convicção na voz dela é adorável, e eu me pego sorrindo diante da pureza de sua insistência.

-Ah, meu doce, eu aprecio muito o seu carinho, mas sei que seu pai toma decisões pensando sempre no seu bem-Tentando ser delicada, explico novamente, mas há algo encantador na persistência da pequena Emily.

O sinal toca, interrompendo nossa conversa e anunciando o retorno das crianças para a sala de aula.

-Vai ser nosso pequeno segredo, tia Safira. Eu vou falar com o papai mesmo assim!- Emily confidencia, com um olhar travesso e decidido. Ela me entrega um último sorriso antes de se juntar ao grupo de alunos que, como um cardume animado, se direcionam para as salas.

Observo Emily sumir pelo corredor, e meu coração se enche de ternura por essa pequena alma corajosa. É incrível como a esperança e a determinação podem residir em uma criança tão pequena.

Enquanto as crianças se dispersam e a escola retoma sua tranquilidade momentânea, eu me permito sorrir, absorvendo a energia vibrante do pátio. Por mais complexa que seja minha situação, esses momentos com as crianças proporcionam uma luz suave em meio às sombras da minha vida.

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Comments

Drika

Drika

hum... gostando 😘

2024-11-12

0

Sol Sousa

Sol Sousa

o enredo é maravilhoso mas muito poético.

2024-08-25

4

N😍S😍S😍 Minhas Pedras precio

N😍S😍S😍 Minhas Pedras precio

Essa personagem é do meu livro 😮‍💨😮‍💨😮‍💨😮‍💨

2024-08-24

0

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