Dante
A fumaça ainda enche meus pulmões, mesmo depois de todos esses anos. O cheiro de cinzas e medo é tão real quanto o couro da cadeira em que estou sentado. Eu olho para o cliente à minha frente, mas minha mente está em outro lugar. Em um lugar onde o fogo dançava e a morte espreitava.
-Obrigado, Sr. Draven- o cliente se levanta, estendendo a mão para um aperto final. Eu o encontro com um sorriso polido, mas meus olhos estão vazios. Ele não percebe. Eles nunca percebem.
Assim que a porta se fecha atrás dele, eu me permito mergulhar de volta naquele dia. O dia em que perdi tudo. O dia em que o mundo meu mundo foi reduzido a cinzas. Minha mãe e minha irmã, ambas vítimas de um incêndio que nunca deveria ter acontecido. Ambas vítimas de uma asma que se tornou fatal naquela noite fatídica.
Eu sobrevivi, mas a que custo? A culpa me consome, corroendo-me por dentro. Eu deveria ter feito mais. Eu deveria ter salvado minha família. Mas como?
Eu sacudo a cabeça, tentando afastar os pensamentos sombrios. Eu tenho trabalho a fazer. A investigação. A busca por justiça. A busca pela verdade. Eu nunca acreditei que o incêndio fosse acidental. Tudo apontava para o contrário. E recentemente, eu descobri uma ligação. Uma ligação que poderia explicar tudo.
Os Rossete.
Uma família rica, mas com uma reputação sombria. Rumores de riqueza construída em meios ilícitos. Rumores de que eles exterminavam qualquer um que chegasse perto demais da verdade. Meu pai, também advogado, estava investigando-os. Ele deixou para trás documentos, provas de atividades criminais. E agora, esses documentos estão em minhas mãos.
Eu me levanto, caminhando até a janela. O sol está se pondo, banhando a cidade em um brilho dourado. Mas tudo que vejo são sombras. Sombras do passado. Sombras de uma vingança que está por vir.
Eu pego os documentos que meu pai deixou, espalhando-os sobre a mesa de mogno. As palavras dançam diante dos meus olhos, mas eu as forço a ficar quietas. Eu preciso entender. Eu preciso saber a verdade.
Os Rossete. Dorothy e Samuel. E sua filha, Safira. Eu não sei muito sobre ela, apenas que ela existe.
Eu pego meu laptop, abrindo uma nova aba de pesquisa. Eu digito o nome dela, mas a internet é surpreendentemente escassa em informações. Não há fotos, não há perfis de mídia social, não há nada. Como se ela fosse um fantasma.
Mas eu não vou desistir tão facilmente. Eu começo a cavar mais fundo, procurando qualquer menção a ela. Qualquer coisa que possa me dar uma ideia de quem ela é. De quem os Rossete realmente são.
Horas passam. Meus olhos estão cansados, minha cabeça lateja. Mas eu não posso parar. Não agora. Não quando estou tão perto.
Finalmente, eu encontro algo. Uma foto antiga, escondida em um artigo de jornal esquecido. Safira Rossete, uma criança de aproximadamente uns dois anos de olhos brilhantes e sorriso tímido. Ela parece inocente.
Eu olho para a foto por um longo tempo, tentando decifrar os segredos que ela pode conter. Eu preciso me aproximar dela. Eu preciso me aproximar dos Rossete. Mas como?
Eu penso em todas as possibilidades. Eu poderia me infiltrar em um de seus eventos de caridade. Eu poderia tentar me aproximar deles através de um amigo em comum. Eu poderia até mesmo tentar me passar por um investidor interessado em seus negócios.
Os Rossete são poderosos, e eu preciso de provas concretas contra eles. Provas que possam resistir ao escrutínio.
Eu olho para o relógio na parede, seu tique-taque constante é um lembrete cruel do tempo que não para, do tempo que não espera. Já são quase três da tarde. Hora de buscar Emily na escola. Eu havia prometido a ela. Promessas são sagradas, especialmente para uma criança que já perdeu muito.
Suspiro, fechando a pasta de documentos que estava examinando.
Eu me levanto, ajustando o nó da minha gravata. Meu reflexo no espelho de corpo inteiro do escritório me encara de volta. O homem no espelho é um estranho, um fantasma do passado vestido com o traje de um advogado bem-sucedido. Eu mal o reconheço.
Eu saio do escritório, deixando minha secretária com instruções claras.
-Se algum cliente aparecer sem ter marcado horário, diga que não estou mais atendendo hoje.- Ela acena, entendendo a urgência em minha voz.
O estacionamento está quase vazio quando chego lá. Meu Aston Martin DB11 brilha sob o sol da tarde, uma fera de aço esperando para ser solta. Eu entro no carro, sentindo o couro frio contra minha pele. A chave gira no ignição, e o motor ronrona em resposta.
Eu dirijo pelas ruas da cidade, cada esquina, cada luz de trânsito é um lembrete da vida que eu costumava ter. A vida antes do incêndio.
A vida antes dos Rossete.
A escola de Emily surge à vista, um oásis de inocência em um mundo que perdeu sua pureza. Eu estaciono o carro, olhando para o prédio. Crianças correndo, rindo, vivendo. Uma visão que aquece meu coração e ao mesmo tempo, traz uma pontada de tristeza. Emily merece uma vida normal, uma vida sem a sombra do passado pairando sobre ela.
Eu caminho em direção à escola, meus passos ecoando na calçada vazia.
Uma das cuidadoras, uma mulher de meia-idade com um sorriso gentil, me vê e acena.
-Sr. Draven -ela diz
-Vou chamar Emily para você.
Eu assinto.
-Papai!-Emily corre em minha direção, seus cachos loiros saltando com cada passo. Mas ela não está sozinha. Ao seu lado, segurando sua mão pequena, está uma figura que faz meu coração parar.
A jovem do quase atropelamento.
Ela olha para mim, seus olhos azuis arregalados de surpresa. O choque é mútuo.
O que ela está fazendo aqui?
-Papai, já pode mandar a Rachel embora-Emily diz, seu sorriso inocente contrastando com a tensão que sinto.
-Achei minha nova babá.
Eu olho para a jovem, nossos olhos se encontrando em um silêncio desconfortável.
Eu olho para Emily, que me observa com olhos esperançosos.
-Filha, já conversamos sobre isso- digo, tentando manter minha voz firme.
-Mas... eu não gosto da Rachel, Safira é muito mais legal que ela- Emily murmura
Safira. O nome ecoa em minha mente. A filha dos Rossete se chama Safira. Mas não pode ser a mesma pessoa, certo? Safira é um nome comum nos Estados Unidos. Deve ser apenas uma coincidência.
-Então, seu nome é Safira, garota descuidada. Posso também saber seu sobrenome?- Pergunto, um sorriso sarcástico brincando em meus lábios. Safira me olha, seu cenho franzido em uma expressão de desafio. Ela é linda, tenho que admitir. E essa expressão de indignação só a torna ainda mais atraente.
-Não é da sua conta- Safira responde bruscamente, mas parece se arrepender imediatamente ao lembrar que Emily ainda está ali.
Eu dou um sorriso irônico, e Emily olha para Safira, confusa.
-Quero dizer... eu... não falo meu sobrenome para estranhos- Safira se corrige, sua resposta sem graça me fazendo rir.
Que garota petulante, penso comigo mesmo. Mas, de alguma forma, essa petulância só a torna ainda mais intrigante.
Safira
Ele me olha, seus olhos escuros fixos em mim. Então, ele se vira para Emily.
-Sinto muito, minha pequena, mas parece que Safira não é a melhor escolha para ser sua babá. Ela é muito mal-educada e também parece ser descuidada- ele diz, um sorriso sarcástico brincando em seus lábios. Eu posso dizer que ele está se lembrando do incidente mais cedo.
-Mas ela só está nervosa... a maioria das mulheres fica nervosa quando está perto de você. Foi a Rachel que me disse. Acho que é por causa do seu trabalho. Mas ela é legal, papai, eu juro- Emily tenta me defender, sua inocência brilhando em seus olhos.
Ele sorri para Emily, um sorriso que parece iluminar seu rosto sério. Então, ele se vira para mim novamente. Ele se aproxima, seus olhos escuros fixos em mim. Ele é alto, deve ter uns dois metros. Apesar do terno que veste, posso ver que seu corpo é musculoso. Ele tem um ar dominante, quase intimidante. Mas também é charmoso, de uma maneira estranha.
Meu coração dispara. Ele parece um anjo caído. Ele está tão perto que posso sentir o perfume de sua colônia. É uma mistura intoxicante de madeiras nobres e especiarias, com um toque de bergamota e âmbar. É um perfume masculino, dominante, assim como ele.
Eu me sinto minúscula diante dele. Por um instante, esqueço de respirar.
-É verdade, senhorita Safira? Eu te deixo nervosa?- Ele pergunta, tocando meu queixo com os dedos.
Eu engulo em seco, tentando encontrar minha voz. Mas tudo que consigo fazer é olhar para ele, perdida em seus olhos escuros.
Minhas pernas parecem bambas, como se fossem desmoronar a qualquer momento. Eu respiro fundo, tentando recuperar o controle.
-Não- consigo murmurar, minha voz mal audível.
Ele ri, um som profundo que parece ressoar em meu peito.
-Mentirosa-ele diz, se afastando de mim. Eu sinto a perda de seu calor imediatamente, como se um cobertor tivesse sido arrancado de mim em uma noite fria.
Ele se vira para Emily, seus olhos suavizando.
-Por favor, papai, deixa ela ser minha babá -Emily pede, seus olhos brilhando com esperança.
-Acredito que Safira não gostaria de deixar o trabalho na escola, não é Safira?- Ele pergunta, olhando para mim. Eu assinto, ainda impactada por sua presença. Ele é como um furacão, deixando um rastro de destruição em seu caminho.
Os olhos de Emily se enchem de lágrimas, e meu coração se aperta.
-Mas ela poderia cuidar de mim depois da escola, Safira também para de trabalhar nesse horário- Emily insiste, sua voz tremendo.
Ele suspira, passando a mão pelo cabelo.
-Vou pensar, está bem? Agora vamos, vou te levar para sua lanchonete preferida- ele diz, um sorriso aparecendo em seu rosto. Emily parece se animar imediatamente, suas lágrimas desaparecendo tão rápido quanto apareceram.
-Tudo bem, tchau Safira- Emily diz, acenando para mim. Eu aceno de volta, observando enquanto eles se afastam.
Eu fico ali, sozinha, o silêncio da escola vazia me envolvendo. Eu toco meu queixo, ainda sentindo o calor de seus dedos.
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Atualizado até capítulo 30
Comments
Euridice Neta
Se você vainusar a menina é imã vingança descabida ao menos se certifique dos fatos, pra depois não se arrepender e ser tarde demais...
2025-02-24
0
Sol Sousa
Oh advogado manda investigar a vida da moça 👧
2024-08-25
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