Capítulo Dezesseis

Safira

Dante dirige o carro com uma facilidade que contrasta com a tensão silenciosa que paira no ar. Estamos voltando da escola, e é o meu primeiro dia como babá de Emily. Mesmo que a manhã tenha corrido bem, não posso evitar o nó no estômago enquanto o carro avança em direção à mansão de Dante. Tento me concentrar na paisagem do lado de fora, mas é inútil. Cada detalhe da manhã, cada interação com Dante, parece gravado na minha mente.

Finalmente, o carro vira em uma entrada que parece se estender por quilômetros. À medida que avançamos, as linhas modernas da mansão começam a surgir no horizonte. Quando a construção finalmente se revela completamente, sinto minha respiração se prender. A mansão de Dante é uma obra-prima de arquitetura moderna, mas há algo de sombrio nela. Os tons de cinza e preto que dominam a fachada lhe conferem uma aura fria e imponente, quase intimidadora.

As janelas de vidro escuro se estendem do chão ao teto, refletindo o céu e as nuvens que passam, tornando impossível ver o que se esconde lá dentro. As paredes externas são de concreto polido, contrastando com detalhes metálicos que brilham sob a luz do sol. Há algo de minimalista, mas também excessivamente luxuoso na estrutura, como se cada detalhe tivesse sido cuidadosamente escolhido para exalar poder e controle.

Dante estaciona o carro em uma área lateral onde estão alinhados vários outros veículos, todos igualmente luxuosos. Ferraris, Lamborghinis, Aston Martins… Cada carro parece ser mais caro e mais exclusivo do que o anterior. Meu coração dá um salto enquanto olho para a fileira interminável de máquinas que, sozinhas, poderiam custar fortunas.

Emily, animada, já está abrindo a porta e saindo correndo para a casa. Mas eu fico para trás por um momento, tentando absorver o que estou vendo. Eu sabia que Dante era rico, claro, mas isso… isso é algo completamente diferente. Eu cresci em uma mansão, mas a minha casa é uma sombra pálida em comparação a isso. Os Rossette sempre se orgulharam de sua riqueza, mas aqui, em frente à casa de Dante, percebo que tudo o que conheci até agora parece pequeno e sem importância.

Me pego pensando de onde veio toda essa riqueza. Dante é advogado, sim, mas mesmo que ele seja o melhor em sua área, construir algo assim em tão pouco tempo parece improvável. Ele é jovem, provavelmente na casa dos trinta, e já possui um império que deixa qualquer um sem palavras. Será que ele é herdeiro de uma fortuna? Ou será que há mais em sua vida do que ele deixa transparecer?

Eu me forço a desviar o olhar das marcas de riqueza ao meu redor e me concentro em seguir Emily. Ela já está na porta, aguardando ansiosa enquanto Dante a destranca com um toque suave no painel ao lado. A porta se abre automaticamente, revelando um interior tão impressionante quanto o exterior. Pisos de mármore preto, paredes revestidas em concreto exposto e obras de arte modernas que provavelmente valem mais do que minha vida toda.

Emily corre para dentro, sua risada ecoando pelo vasto espaço. Eu respiro fundo, tentando acalmar meu coração acelerado. O que estou fazendo aqui? Como me deixei ser arrastada para esse mundo? Mas, ao mesmo tempo, há uma parte de mim que é irremediavelmente atraída por esse lugar, por esse homem que parece esconder tanto.

Quando finalmente entro, sou recebida por um silêncio quase ensurdecedor. Dante caminha à frente, seus passos firmes no chão de mármore polido. Cada movimento dele parece calculado, controlado, como se ele fosse o dono não apenas dessa mansão, mas de tudo o que existe ao redor dela.

Ele olha para trás, percebe que fiquei para trás, e me dá um sorriso ligeiro, mas há algo naquele sorriso que me faz sentir um frio na espinha. Ele parece estar sempre no controle, sempre um passo à frente. E eu, por outro lado, me sinto perdida, lutando para entender onde me encaixo em tudo isso.

— Impressionante, não é? — Dante pergunta, como se pudesse ler meus pensamentos. Sua voz é calma, mas há um tom de arrogância ali.

Eu me forço a sorrir, tentando esconder o desconforto.

— Sim, é… muito impressionante — respondo, minha voz soando mais fraca do que gostaria.

Ele apenas acena, como se esperasse essa resposta, e continua caminhando. Eu o sigo, minhas pernas um pouco trêmulas. Tudo aqui é um lembrete constante de que Dante não é apenas um homem rico. Ele é alguém com poder, alguém que não se incomoda em exibir esse poder em cada aspecto de sua vida.

Quando finalmente chegamos à sala de estar, Emily já está lá, sentada em um dos sofás enormes e confortáveis, segurando um controle remoto e explorando as opções de filmes e desenhos disponíveis. Ela me olha com um sorriso, e por um momento, toda a opulência ao meu redor desaparece. Tudo o que importa é a felicidade dela, a simplicidade de sua alegria.

Emily sorri para mim, com os olhos brilhando enquanto me mostra as opções na tela. Ela parece animada com todas as possibilidades, e meu coração se aquece ao ver como algo tão simples pode trazer tanta alegria a uma criança. Me sinto grata por estar aqui, por ter a chance de passar esses momentos com ela, mesmo que a situação toda ainda me deixe um pouco nervosa.

Dante se aproxima, com uma expressão mais suave no rosto. É um lado dele que raramente vejo — o Dante pai, aquele que se importa genuinamente com a felicidade da filha. Ele se agacha ao lado de Emily, acariciando suavemente os cabelos dela antes de perguntar:

— E então, minha pequena? O que você quer assistir hoje?

Emily olha para ele com um sorriso que poderia iluminar a sala inteira.

— Quero assistir "Frozen", papai! A Safira ainda não viu!

Dante ri levemente, assentindo.

— "Frozen" então. — Ele pega o controle remoto da mão dela e seleciona o filme. Quando a música de abertura começa, Emily se ajeita no sofá, completamente absorvida pela tela.

Aproveitando que Emily está distraída, Dante se levanta e me lança um olhar, fazendo um sinal com a cabeça para que eu o siga. Sinto uma leve tensão no ar, mas sigo-o em silêncio, deixando a sala de estar para trás. Ele me guia por um corredor, passando por mais algumas portas antes de parar em frente a uma delas.

Dante abre a porta e entra primeiro, me dando espaço para segui-lo. Quando entro, percebo que estamos em um escritório — o escritório dele, suponho. As paredes são revestidas com estantes cheias de livros, todos organizados de maneira impecável. A mesa de madeira escura no centro do cômodo é grande e imponente, com uma cadeira de couro atrás dela que parece tão confortável quanto cara. As janelas permitem a entrada de uma luz suave, iluminando o espaço de forma quase perfeita. Tudo aqui exala poder e controle, refletindo perfeitamente a personalidade de Dante.

Ele se aproxima da mesa e pega alguns papéis antes de se virar para mim.

— Vamos falar sobre os detalhes do seu novo trabalho — ele começa, com a voz firme, mas sem aquela ironia irritante que ele costuma usar.

— Aqui estão os horários que preciso que você cumpra.

Ele me entrega uma folha, onde está listado tudo o que preciso saber. Horários de escola, atividades extracurriculares, e o tempo que passaremos em casa. A rotina de Emily parece bem estruturada, o que não me surpreende, vindo de Dante.

— Isso tudo é flexível — ele continua

— mas quero que saiba que, enquanto estiver com Emily, sua principal responsabilidade será garantir que ela esteja feliz e segura. Vou confiar em você para isso.

Assinto, ainda um pouco nervosa. É muito para absorver, mas o que mais me surpreende é quando ele começa a falar sobre o salário.

— Agora, sobre o pagamento — diz ele, como se fosse um detalhe menor.

— Este é o valor que você vai receber mensalmente.

Ele me passa outro papel, e quando vejo o número ali, quase engasgo. É muito mais do que eu esperava, mais do que eu jamais ganharia trabalhando na escola. Por um momento, fico em silêncio, tentando processar o que estou vendo. Para mim, isso é uma pequena fortuna. Mas, pela expressão de Dante, ele trata isso como se fosse uma gorjeta, um valor irrelevante.

— Isso é… — começo a dizer, mas ele me interrompe.

— É o mínimo que você merece por cuidar da minha filha. — Ele diz isso com tanta naturalidade que quase acredito que ele realmente acha isso. Mas, ao mesmo tempo, sinto que esse dinheiro não significa nada para ele. É como se estivesse comprando minha lealdade, minha atenção… e talvez esteja.

Guardo o papel com cuidado, tentando manter minha expressão neutra. Sei que estou mergulhando ainda mais fundo no mundo de Dante, e isso me assusta, mas também não posso ignorar o fato de que preciso desse trabalho. Além disso, há Emily. Ver a alegria dela é o que realmente importa para mim.

Dante me observa por um momento, como se estivesse avaliando minha reação. É difícil decifrar o que se passa na mente dele. Há algo em seus olhos, uma curiosidade que não consigo identificar. Mas ele não diz nada, apenas acena para a porta, indicando que a conversa terminou.

— Vou voltar para o trabalho agora, você tem meu telefone se precisar de alguma coisa é só me ligar — ele diz, a voz firme novamente.

Assinto e me viro para sair, mas ao dar o primeiro passo, meu pé escorrega levemente no tapete. Antes que eu possa me equilibrar, sinto a mão de Dante agarrar meu braço com firmeza, impedindo minha queda.

Mas, no instante em que ele me segura, sinto uma dor aguda atravessar meu braço. O lugar onde Samuel me apertou ainda está dolorido, e Dante acaba tocando exatamente nesse ponto. Solto um gemido alto, incapaz de contê-lo, e meu corpo se encolhe instintivamente.

Dante me solta imediatamente, mas o olhar dele muda. Ele percebeu que algo estava errado. Seus olhos, que geralmente são frios e calculistas, agora mostram uma preocupação que eu não esperava.

— O que houve? — Ele pergunta, a voz mais suave, quase... gentil.

Eu recuo um passo, tentando esconder a dor, mas é tarde demais. Ele já viu, já sabe que algo está errado. Mas o que posso dizer? Que meu "pai" me machucou? Que estou acostumada a isso, que é parte da minha vida? Não. Isso não é algo que posso compartilhar com ele. Não agora, não nunca.

— Não é nada — minto, tentando sorrir, mas falhando miseravelmente.

— Só um... um pequeno machucado. Está tudo bem.

Ele me observa por um longo momento, claramente não convencido, mas decide não insistir. Apenas assente lentamente, ainda com aquele olhar preocupado.

— Se precisar de algo, me avise — ele repete, mas desta vez, há um peso nas palavras. Ele quer saber mais, mas sabe que eu não vou dizer.

Assinto rapidamente e me viro para sair antes que ele possa perguntar mais alguma coisa. Meu coração está acelerado, e a dor no braço é um lembrete cruel do meu lugar no mundo. Mas, enquanto saio do escritório, ainda sinto a força do olhar de Dante sobre mim, como se ele estivesse tentando entender algo que nem eu mesma sei explicar.

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Comments

Euridice Neta

Euridice Neta

Mais ao retornar tudo vai estar exatamente usual e isso é um martírio...

2025-02-24

0

Mininha

Mininha

Pelo menos, enquanto Safira estiver cuidando de Emyli, ela estará longe dos falsos pais dela...

2024-09-08

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