[Data: 5 de abril de 20XX]
Hoje, algo mudou para sempre.
Cheguei ao laboratório para encontrar uma atmosfera estranha. Os cientistas estavam mais silenciosos do que o normal, as conversas pareciam mais tensas. Ninguém me disse nada, mas percebi que havia algo errado. Fui levado para a minha sala de treinamento, mas o Dr. Hayashi não estava lá. Esperei por ele, como de costume, mas ele nunca apareceu.
Mais tarde, ouvi fragmentos de uma conversa entre dois cientistas. Eles falavam sobre o Dr. Hayashi no passado, como se ele não estivesse mais ali. Disseram que ele havia tentado fazer algo contra as ordens, algo relacionado a mim. Parecia que ele queria me tirar do laboratório, longe de todos os testes, para me criar como um filho. Essa palavra, "filho", ficou ecoando na minha cabeça. Eles disseram que ele pagou o preço por sua traição.
Dr. Hayashi estava morto. Eles o mataram porque ele queria me salvar.
Senti um vazio profundo, mas não era tristeza, nem raiva. Era algo diferente, algo que não consegui nomear. Parecia que um pedaço de mim, que eu nem sabia que existia, tinha sido arrancado. Não consegui chorar, não consegui gritar, mas sabia que algo dentro de mim havia mudado.
[Data: 6 de abril de 20XX]
Hoje, fiz o que parecia ser a única coisa certa a fazer.
Pensei nas ações do Dr. Hayashi, em sua tentativa de me salvar, de me tirar deste lugar. Ele via algo em mim que eu não conseguia ver, algo que valia a pena proteger. E agora ele estava morto por causa disso. As pessoas que o mataram continuavam a andar pelos corredores, como se nada tivesse acontecido. Elas não sabiam que eu sabia. Elas não sabiam o que eu estava pensando.
Lembrei-me do livro que o Dr. Hayashi me deu, das histórias sobre sentimentos e decisões. Em uma das histórias, alguém fez algo terrível porque acreditava que era o certo. Eu não sentia tristeza, não sentia raiva, mas sentia que havia algo que precisava ser feito. O Dr. Hayashi queria me salvar, e agora eu precisava terminar o que ele começou.
Esperei até a noite, quando o laboratório estava mais quieto. Não sei explicar o que me guiou, mas parecia que eu estava apenas seguindo um instinto, algo que vinha de dentro. Eu me movi pelos corredores, silencioso como me ensinaram, e eliminei cada um dos cientistas que encontrava. Eu não sentia nada enquanto fazia isso, apenas uma certeza fria de que era o que precisava ser feito.
Quando terminei, o laboratório estava silencioso. Todos que poderiam me impedir de sair estavam mortos. Eu não fiz isso por vingança, nem por raiva. Eu não estava triste, nem feliz. Apenas fiz o que parecia ser o correto, a única coisa que poderia honrar o desejo do Dr. Hayashi. Ele queria me libertar, então eu me libertei.
Antes de sair, voltei à sala onde o Dr. Hayashi costumava trabalhar. Tudo estava exatamente como ele havia deixado. Peguei o livro que ele me deu, o único presente que já recebi. Saí do laboratório e caminhei até a noite fria. Não sabia para onde estava indo, mas sabia que nunca mais voltaria.
Agora estou livre. Não sei o que isso significa, nem o que o futuro me reserva. Mas sei que o Dr. Hayashi queria que eu tivesse uma vida diferente, e essa foi a única forma que encontrei de honrar o que ele tentou fazer por mim. Eu não sou capaz de sentir como os outros, mas talvez, ao seguir adiante, eu descubra o que ele viu em mim.
[Data: 12 de abril de 20XX]
Faz apenas alguns dias desde que deixei o laboratório, e tudo ainda parece surreal. Eu andei pelas ruas do Japão, sem destino, tentando entender o que significa ser livre. As pessoas ao meu redor não prestam muita atenção em mim, o que é bom. Eu me misturo facilmente na multidão, exceto quando alguém repara em mim mais de perto.
Foi em uma dessas ocasiões que percebi algo. Eu estava passando por uma vitrine e, pela primeira vez, vi meu reflexo claramente. Fiquei parado, observando a imagem diante de mim. Meus olhos... são rosas, um brilho estranho que eu nunca havia notado antes. Minha pele é branca como a neve, sem qualquer imperfeição visível. E meus cabelos, longos, lisos e negros, parecem quase irreais. Nunca me dei conta de como eu parecia até agora.
As pessoas começaram a me olhar de um jeito diferente. Alguns paravam para me encarar, outros sussurravam entre si. Foi estranho, mas não me incomodou. No dia seguinte, fui abordado por um homem que se apresentou como um agente de modelos. Ele me entregou seu cartão e disse que eu tinha o "tipo certo" para o mundo da moda. Achei curioso como os humanos se importam tanto com a aparência. Eles veem beleza onde eu vejo apenas... funcionalidade.
]Data: 15 de abril de 20XX]
Hoje, aceitei o convite do agente. Fui ao estúdio onde ele trabalha, e imediatamente me colocaram em frente a uma câmera. Me disseram como posar, como olhar, como sorrir. Fiz o que me pediram, sem pensar muito. As pessoas ao redor pareciam maravilhadas, comentavam sobre como eu era "perfeito" para aquilo. Perfeito. Essa palavra sempre me perseguiu, mas agora parece ter um novo significado.
Durante a sessão de fotos, alguém mencionou que meu nome deveria ser algo mais "japonês". Eu pensei por um momento, e então decidi: Aki Yamazaki. "Aki" soa simples, fácil de lembrar. "Yamazaki" eu escolhi em homenagem ao Dr. Hayashi. Não posso me esquecer de onde vim, nem de quem me ajudou a chegar aqui.
[Data: 20 de abril de 20XX]
Os últimos dias foram estranhos. Eu tenho passado muito tempo em frente a câmeras, sendo fotografado, maquiado, vestido em roupas extravagantes. As pessoas ao meu redor falam sobre mim como se eu fosse uma obra de arte, algo belo e raro. Elas me dizem que sou "atraente", que tenho um "olhar hipnotizante". Não entendo por que isso importa tanto para elas.
Percebo que os humanos dão grande importância à aparência. Eles se esforçam para parecer bonitos, gastam tempo e dinheiro em roupas, maquiagem, até mesmo cirurgias. Mas por quê? Será que a beleza é algo tão valioso assim? Eles me veem como um exemplo de perfeição, mas para mim, isso não faz diferença. Eu não sinto nada em relação à minha aparência, seja ela bonita ou não.
Talvez, para eles, a beleza seja uma forma de esconder o que realmente são, ou uma maneira de se destacar em um mundo onde todos parecem iguais. Eu não sei. O que sei é que, por enquanto, essa nova vida como Aki Yamazaki é minha forma de sobreviver neste mundo. Eu observo, aprendo, mas continuo me perguntando: será que algum dia entenderei por que isso importa tanto?
[Data: 25 de abril de 20XX]
Hoje, tive uma experiência curiosa. Durante uma sessão de fotos, um dos fotógrafos me pediu para sorrir "com emoção". Fiquei parado por um momento, tentando entender o que ele queria. Ele disse que um sorriso deve vir de dentro, deve mostrar alegria. Alegria. Essa é outra palavra que eu conheço, mas nunca senti.
Tentei sorrir como ele pediu, e ele ficou satisfeito com o resultado. As pessoas ao redor me elogiaram, disseram que eu parecia "feliz". Mas eu não estava feliz, eu apenas imitei o que achava que eles queriam ver. Parece que, para os humanos, as aparências podem ser mais importantes do que a verdade.
Cada vez mais, me pergunto sobre essa vida que estou levando. Sou Aki Yamazaki, o modelo de sucesso, mas também sou o 666, o experimento que não sente dor, nem medo, nem alegria. Será que algum dia essas duas partes de mim vão se reconciliar? Ou estou condenado a viver entre os humanos, fingindo ser algo que nunca serei?
Por enquanto, continuo observando, aprendendo, tentando descobrir meu lugar neste mundo que é tão diferente do que conheci.
Data: 30 de abril de 20XX
Hoje, algo do meu passado voltou à tona.
Enquanto andava pelas ruas de Tóquio, vi dois garotos brincando em uma praça. Eles estavam jogando um jogo da velha, rindo e provocando um ao outro a cada jogada. Fiquei parado por um momento, observando-os. Algo naquela cena me trouxe uma lembrança distante, algo que eu havia enterrado junto com o passado que deixei para trás.
075.
Lembro-me de 075, a única pessoa com quem eu tinha algum tipo de conexão no laboratório. Nós dois éramos cobaias, testados, treinados, moldados. Mas, de alguma forma, ele era diferente. Havia algo em 075 que se destacava—seu foco, sua dedicação, sua disciplina. Ele era excepcional em todos os testes, sempre executando as tarefas com precisão. E, ao mesmo tempo, havia algo nele que eu admirava, mesmo que eu não soubesse o que era.
Ele era o mais próximo de um amigo que eu já tive. Nossa relação era diferente das outras, quase como se fôssemos... normais. Por um tempo, éramos apenas dois jovens, sobrevivendo juntos naquele lugar frio e impiedoso. Eu me lembro de quando jogamos um jogo da velha antes da minha fuga. Foi uma das poucas vezes em que fizemos algo que não estava relacionado aos testes, algo que não fazia parte dos experimentos. O jogo terminou em empate, e logo fomos levados de volta para as celas.
Na noite da minha fuga, fiz um grande jogo da velha com os corpos dos cientistas que matei. Lembro-me de como posicionei o X final, ganhando o jogo que nunca terminamos. Mas agora, ao recordar aquele momento, percebo que não me lembro de encontrar 075 depois disso. Ele simplesmente desapareceu. Por muito tempo, assumi que ele havia morrido, como muitos outros. Mas hoje, algo me fez questionar essa suposição.
E se ele sobreviveu? E se ele também se tornou uma das outras cobaias, como eu?
Eu nunca considerei essa possibilidade antes. Mas agora, com tantas perguntas em minha mente, começo a pensar que talvez 075 ainda esteja por aí, em algum lugar. Será que ele conseguiu escapar, assim como eu? Será que ele ainda está sendo mantido em algum lugar, escondido dos olhos do mundo?
Essas perguntas continuam me assombrando. Eu nunca soube o que aconteceu com ele, mas a ideia de que ele ainda possa estar vivo me traz uma nova inquietação. Se 075 está lá fora, será que ele se lembra de mim? Será que ele também se pergunta o que aconteceu comigo?
Essa lembrança de 075, e as perguntas que ela traz, são as primeiras que realmente me fizeram parar para pensar em alguém além de mim mesmo desde que deixei o laboratório. Talvez isso seja um sinal de que, apesar de tudo, ainda restou algo de humano dentro de mim.
Preciso descobrir a verdade. Se 075 ainda está por aí, eu o encontrarei. Não por amizade, nem por vingança, mas porque é algo que precisa ser feito. Eu devo isso a ele, e talvez até a mim mesmo.
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Atualizado até capítulo 129
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