Acordei antes da minha mãe, o que é raro — talvez porque estou ansioso para o jogo de hoje ou porque fui para cama mais cedo do que o normal. Desço as escadas em silêncio, e lá está ela, dormindo no sofá, o corpo curvado em uma posição que, certamente, vai deixar suas costas doloridas mais tarde. Nunca entendi como ela consegue descansar de verdade dormindo ali, mas parece ser um hábito que ela adotou.
Olho pela janela e noto que os cacos do vaso que Dorvan quebrou ontem foram recolhidos. Provavelmente minha mãe ou o Dylan fizeram isso. Eles ficaram conversando por um longo tempo, mas não vi quando ele foi embora. O que me surpreendeu mesmo foi como o meu treinador, o durão Mark Dorvan, tremeu ao ver Dylan. Dorvan nunca temeu ninguém, nem mesmo o meu tio Alan, que é uma verdadeira montanha de homem, mas bastou um olhar de Dylan para ele perder o controle.
Uma frase que Dorvan gritou ontem não sai da minha cabeça:
"Eu sabia que você ia aparecer... sempre aparecendo pra salvar a sua princesinha, hein?"
"A sua princesinha."
Será que era isso que minha mãe era para o Dylan? Será que ele a tratava como alguém preciosa, protegida? Isso significava que ele a respeitava e cuidava dela como deveria? Não consigo deixar de me perguntar. Eu nunca tive uma visão clara do que eles tiveram no passado, e até agora, tudo parece mais complexo do que eu imaginava.
— Acordou cedo, meu amor. — A voz da minha mãe me tira dos meus pensamentos. Ela se senta no sofá, os olhos ainda pesados de sono, mas o sorriso suave em seu rosto mostra que está feliz em me ver.
— Sim, acho que estou ansioso para o jogo. — Respondo, tentando soar convincente. A verdade é que parte da minha ansiedade tem mais a ver com o Dylan e tudo que aconteceu do que com o jogo em si.
— Tudo bem. Vai tomar um banho. Depois vamos tomar café com sua tia, e aí você aproveita para repassar as jogadas com o Bruce, como sempre fazem. — Ela sugere, levantando-se devagar e se alongando, tentando aliviar a tensão das costas.
Assinto e subo para me preparar. Hoje vai ser um dia longo, e eu tenho a sensação de que o jogo é apenas uma pequena parte do que realmente vai acontecer.
...●...
Chegamos à casa da minha tia, e a cena já está bem familiar. O Bruce está no meio da sala, simulando uma jogada com meu tio, que parece concentrado em cada movimento. Do outro lado, Dylan está sentado no sofá, completamente imerso no celular, sem dar muita atenção ao que acontece ao redor.
— Bom dia, Dylan. — Minha mãe diz com um sorriso leve, enquanto ele ergue os olhos devagar, mas quando vê quem falou, um sorriso relaxado aparece em seu rosto.
— Bom dia, Ally. — Ele responde, e o olhar que ele lança à minha mãe é quase casual demais, mas há algo ali, como se só os dois entendessem.
Minha mãe devolve o sorriso, e eu noto meu tio Alan, que está ao lado do Bruce, revirando os olhos, claramente irritado, mas controlando-se para não falar nada. Ele é teimoso, isso já sabemos, mas dessa vez parece que está tentando não deixar isso atrapalhar o clima.
— Ansioso para o jogo, Bryan? — Meu primo pergunta, ainda respirando pesado da simulação que estava fazendo.
— Não! Vai ser tranquilo. — Respondo sem hesitar, tentando parecer confiante, principalmente com o Dylan ali, observando tudo de canto de olho. Não vou demonstrar fraqueza na frente dele, nunca. Se ele está aqui, eu tenho que mostrar que dou conta.
— Legal. — Bruce responde, visivelmente mais animado. — Acordei pilhado, vamos amassar os Mezzos!
— Bruce! — Minha tia Amanda repreende o filho, lançando um olhar de advertência. — É só um amistoso, você não vai jogar para amassar ninguém, vai jogar para se divertir.
— E daí que é amistoso? — Meu tio Alan intervém, com o tom de sempre, autoritário e sem paciência. — Jogo é jogo.
Dylan levanta os olhos do celular, finalmente parecendo prestar atenção. Seu olhar vai direto para o meu tio, e por um segundo, sinto uma tensão no ar, como se estivesse esperando ele falar algo mais.
— Amanda tem razão. — Dylan finalmente diz, se recostando no sofá. — Claro que tem que jogar com raça, mas divertir-se também faz parte, não é só sobre ganhar ou perder.
O comentário do Dylan é casual, mas não deixa de provocar uma reação no meu tio, que parece conter a vontade de responder algo mais agressivo. Amanda, por sua vez, esboça um sorriso discreto, como se finalmente alguém tivesse falado algo sensato na sala.
— Viu só? Até o Dylan concorda comigo. — Minha tia diz, aproveitando o momento.
— Vamos ver como vai ser no gelo, então. — Meu tio resmunga, voltando a atenção para o Bruce, claramente tentando mudar de assunto.
...●...
Deslizo pelo gelo com uma sensação de calma que contrasta com a tensão crescente ao meu redor. O jogo está empatado, e cada movimento parece carregar o peso de uma decisão crucial. Bruce, ao meu lado, está inquieto, quase obcecado com a ideia de tentar a jogada especial.
— Vamos! Vamos! — Meu tio Alan grita da lateral, impaciente como sempre, ao lado do professor Dorvan, que observa com os olhos fixos em cada detalhe.
Eu olho rapidamente para a arquibancada. Dylan está lá, sentado ao lado da minha mãe, ambos com expressões sérias. Não parecem felizes, e, para ser sincero, há uma tensão evidente entre eles. Minha tia Nanda também está com uma expressão fechada, como se estivesse esperando algo ruim acontecer a qualquer momento.
— Bruce! — Chamo meu primo, trazendo-o de volta ao jogo. — Vamos! — O sinal de que é hora de tentarmos o "Super B", a jogada que tanto ensaiamos.
Bruce me olha com um brilho nos olhos, claramente animado pela oportunidade. Sabemos que essa jogada pode mudar o rumo do jogo, mas ela exige sincronia e precisão, algo que só conseguimos depois de semanas de prática.
Começo a patinar mais rápido, ajustando meus movimentos ao dele, sentindo a adrenalina subir à medida que nos aproximamos da zona de ataque. O barulho ao redor do rinque desaparece, e o som abafado dos patins sobre o gelo é tudo que consigo ouvir por alguns segundos.
Fixo meus olhos em Bruce, e é como se todo o resto do rinque desaparecesse. Estamos completamente sincronizados, movendo-nos como uma extensão um do outro, avançando com uma determinação feroz. O puck desliza rápido pelo gelo, mas não deixamos que nada nos distraia — nem os adversários que tentam interceptar, nem os gritos da torcida que ecoam ao redor.
Inclino minha cabeça levemente, um sinal sutil que só Bruce entenderia. Ele responde de imediato, imitando meu movimento, e juntos avançamos como dois predadores em caça. A jogada que ensaiamos tantas vezes, o "Super B", está prestes a acontecer. Não nos importamos com quem está à nossa frente, com as defesas que se erguem ou com o caos ao redor. Estamos focados no objetivo, e nada mais.
Patinamos com toda a intensidade que tínhamos, ignorando o som das lâminas cortando o gelo e a pressão crescente dos adversários. O mundo parece desacelerar enquanto nos aproximamos da linha de ataque, a adrenalina correndo nas veias, cada movimento calculado para alcançar o objetivo final. Mas, de repente, tudo sai do controle.
O impacto acontece rápido demais para reagir. O choque violento me lança ao chão, junto com Bruce e um garoto do time adversário. Tudo ao meu redor parece girar, e o som da torcida e dos treinadores se mistura em um ruído distante. Tento levantar, mas uma dor aguda atravessa meu corpo, e antes que consiga processar o que está acontecendo, sinto uma mão firme me impedindo de me mover.
— Fica no chão! — A voz de Dylan ecoa, grave e urgente, enquanto ele me segura no lugar. Seu rosto, sempre tão seguro, agora está marcado pela preocupação. Olho em volta e vejo o juiz gesticulando para afastar os outros jogadores.
— Tirem todos daqui, agora! — Dylan ordena com firmeza, sua voz dominando o rinque. — Não se mexam!
Minha respiração está acelerada, e então sinto algo estranho, algo úmido em minha mão. Olho para baixo, confuso, e vejo o que parece ser uma poça de sangue se espalhando no gelo. Meu coração dispara. O sangue é meu, e é muito.
Ouço o Bruce gemendo de dor tambem, o menino do outro time, também está chorando, seja lá o que aconteceu foi bem ruim.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Meire Garcia
,amando a história mais capitulos urgente por favor autora
2024-10-27
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