Termino de lavar a roupa e começo a recolher os cacos do vaso que Dorvan quebrou. Ontem à noite ele apareceu de novo, socando a porta com tanta insistência que pensei que fosse derrubá-la. Não consigo entender o que fiz para atrair esse homem. Ele nunca desiste, é como uma sombra que se recusa a desaparecer.
Enquanto estou de joelhos, tentando limpar a bagunça, vejo Bryan saindo de casa, e minha mente se divide entre a preocupação com o Dorvan e o desejo de saber o que meu filho está fazendo.
— Onde você vai, senhor? — pergunto, tentando soar casual ao vê-lo já perto da porta.
— Vou encontrar o Tio e o Bruce — responde ele com aquele tom doce, que parece fazer qualquer mãe esquecer as preocupações.
— Não tínhamos combinado de passar no café? — tento lembrar, mas ele simplesmente não responde. Em vez disso, começa a correr pela porta.
— Beijo, mãe! — diz de forma apressada, mal me dando tempo de responder.
Eu suspiro. Sei que ele está evitando encontrar o Dylan. Não posso culpá-lo. A situação está longe de ser fácil.
●
Depois de ajeitar as plantas e protegê-las da próxima visita de Dorvan — pois parece que ele sempre arranja um jeito de causar danos — ouço uma voz familiar atrás de mim.
— Por que sua casa parece que passou por um terremoto? — diz Dylan. Viro-me para ele, observando-o enquanto ele se aproxima. Seu cabelo loiro cai sobre a testa de um jeito um pouco desarrumado, a barba está mais cheia e bagunçada do que me lembro, e suas roupas... bem, definitivamente não são o estilo dele.
— Não repara muito — ele comenta, percebendo meu olhar. — A Amanda arrumou essas roupas para mim num bazar.
— Ahhh, só estranhei o estilo — digo, tentando não parecer que estava julgando.
— É, nem parece comigo, né? — Dylan ri levemente, mas logo volta sua atenção para a confusão ao meu redor. — E esse terremoto aqui?
Pego um pedaço de cerâmica quebrada, tentando rapidamente pensar numa desculpa plausível.
— Ah, isso... foi os meninos jogando hóquei de grama. Estavam treinando uma nova jogada. — Digo, sem muita convicção.
Ele me encara, e aqueles olhos azuis intensos, que Bryan herdou, me analisam como se estivessem vendo através de mim. Dylan sempre teve esse efeito — como se pudesse enxergar diretamente minha alma.
— Ok — ele responde, mas o tom de voz diz que ele sabe que estou mentindo. Ele se abaixa ao meu lado e começa a mexer nas plantas comigo, seus dedos trabalhando na terra de forma distraída.
— Onde está ele? — ele pergunta, com a voz mais baixa.
— Saiu com o Alan — respondo, sem querer evitar a verdade.
— Ele está me evitando, né, Ally? — Dylan não precisa perguntar para saber a resposta, mas talvez ele só queira ouvir em voz alta.
— Bem... — olho para ele, e é impossível não ser puxada por aquele olhar, uma lembrança do passado. Dylan ainda tem aquele jeito, aquele charme meio desordenado, e apesar dos anos, há uma parte de mim que ainda o reconhece como o homem que um dia me fez sentir segura. — Sim, mas você entende que não vai ser nada fácil, né?
— Seria mais fácil se seu irmão não estivesse destruindo a minha imagem para o Bryan — ele comenta, com uma amargura velada.
— Como assim? — pergunto, surpresa com o tom dele.
— O Bruce contou para a Amanda que o Alan está me difamando, e também à minha família, para o Bryan — Dylan suspira, e a frustração é evidente.
— Meu irmão... — fecho os olhos por um instante, processando a informação. — Ele é muito protetor com a família, principalmente comigo e com o Bryan. Mas não acho que ele esteja te difamando, Dylan... pelo menos não de propósito.
— Ally, ele tem me pintado como o pior ser humano que já pisou nessa terra. Como você espera que eu me reconecte com meu filho se o Alan está constantemente destruindo qualquer chance de redenção que eu tenha? — Dylan balança a cabeça, claramente irritado.
— Eu sei que o Alan tem suas opiniões fortes sobre você — admito. — Ele não te perdoou pelo que aconteceu no passado, e, aos olhos dele, você nunca vai ser bom o suficiente para mim. Mas o que ele está fazendo... — respiro fundo, sentindo o peso dessa conversa. — Eu sei que ele só quer proteger o Bryan.
Dylan me encara por um momento, com um olhar mais suave.
— Eu não quero ser o inimigo do meu próprio filho, Ally. Eu só... quero uma chance. Uma chance.
— E eu acredito que você pode ser, Dylan — digo com sinceridade. — Mas vai levar tempo.
...●...
Dylan ficou comigo por um tempo, ajudando com as plantas de forma meio distraída, mas eu conseguia sentir sua inquietação. Logo depois, o telefone dele tocou e, após uma rápida conversa, ele teve que sair às pressas. Fiquei ali, sozinha, ouvindo o som de seus passos se afastando, enquanto minha mente vagava entre o passado e o presente, ainda lidando com a confusão que sua volta trouxe.
Mais decidi vir ao café, como ja havia combinado, a Amanda está fazendo uma limpeza, limpeza pesada. O lugar esta silencioso, e eu sei que ela não esta no seu melhor humor. Amanda esta claramente chateada com o Alan, o que não era uma surpresa. Meu irmão é teimoso até o último fio de cabelo e, quando se irrita, se recusa a ouvir qualquer pessoa, não importa o quão certa ela esteja. O resultado? Ele acabou dormindo na casa do nosso pai. Mais uma vez.
Enquanto esfrego o balcão, Amanda limpa as janelas, com força, certeza ta querendo matar o meu irmão.
— Como estão as coisas com o Dylan? - Ela pergunta do mais absoluto nada.
Mas me pegou super desprevenida. Eu parei por um momento, tentando interpretar o que ela quer dizer com isso. Claro, ela sabr de tudo. Conhecia nossa história melhor do que ninguém.
— Como assim? — pergunto, tentando soar desinteressada, mas ela me conhece bem demais para cair nessa. — Ele não consegue falar com o Bryan, e o Alan parece que está dificultando as coisas a cada passo.
Amanda revirou os olhos, impaciente.
— Esquece o Alan por um minuto. Ele já me irrita o suficiente — ela respondeu com um tom irritado, limpando uma mesa com força. — Você sabe do que estou falando, Ally. Ainda sente algo pelo Dylan?
Eu congelei. Aquela pergunta era um soco no estômago. Meu coração acelerou de imediato, e o peso da verdade se fez sentir no fundo do peito. Respirei fundo, tentando disfarçar a ansiedade que de repente me dominava.
— Amanda... — comecei, mas minha voz saiu baixa, quase como um suspiro.
Ela parou o que estava fazendo e me olhou de forma direta, com aquele olhar que só ela tinha, penetrante e impaciente. Amanda sempre foi assim, sem rodeios.
— Não me enrola, Ally. Eu vejo como você fica quando fala dele. Quando ele está por perto, você muda. Você fica mais... não sei, nostálgica, talvez até esperançosa. Não adianta esconder de mim.
Eu tentei sorrir, mas foi em vão. As palavras dela acertaram em cheio. É verdade. Toda vez que Dylan está por perto, algo dentro de mim mexe. É como se um velho fantasma retornasse, trazendo consigo sentimentos que eu tentei enterrar por anos. Mas nunca consegui.
— Ele foi uma parte importante da minha vida, Amanda. É difícil ignorar isso — admito finalmente, sentindo o peso das minhas palavras enquanto elas saíam. — Mas isso não significa que eu queira reviver o que tivemos. Já passou tanto tempo...
Amanda cruzou os braços, me encarando como se estivesse esperando por mais, sabendo que eu não estava sendo completamente honesta nem comigo mesma.
— Mas você ainda se importa, não é? — Ela insistiu. — É por isso que nunca teve ninguém além dele, por isso nunca cogitou um padrasto para o Bryan.
Eu não tinha resposta imediata. Passei um pano na mesa, mais para ocupar minhas mãos do que por qualquer outra razão.
— Talvez uma parte de mim nunca tenha deixado de se importar — confessei, com a voz mais suave. — Mas isso não significa que eu possa simplesmente esquecer tudo o que aconteceu. O Dylan... Eu.. eu o machuquei, falei coisas, que nunca irei me perdoar, Amanda. E agora, com o Bryan no meio disso, as coisas são muito mais complicadas.
Amanda assentiu, finalmente suavizando o tom.
— Eu sei que é complicado, mas você precisa pensar no que realmente quer. Se há algo entre vocês dois, talvez seja hora de enfrentar isso de uma vez por todas. Para o bem de todos — ela disse, colocando uma mão gentil no meu ombro.
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Atualizado até capítulo 40
Comments
Angela S Silva
me dá uma raiva disso , não sei porque as pessoas não falam a verdade doa a quem doer
2024-11-25
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Angela S Silva
não sei porque ela deixa o Alan ficar fazendo a cabeça do filho dela, porque não conta a verdade para o menino e deixa ele mesmo tirar as suas próprias conclusões, pois o Dylan não teve culpa do afastamento dos dois e sim ela
2024-11-25
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