Rivalidade

Termino de cozinhar as batatas e, ao me virar, dou de cara com Bruce, aquele tampinha com olhos verdes e cabelo castanho, uma mistura perfeita da Amanda com o imbecil do Alan. Ele me encara curioso, como se estivesse avaliando cada movimento meu.

— Bom dia, Bruce — digo, tentando soar casual enquanto mexo nas batatas.

— O que você está fazendo? Tem um cheiro muito, muito bom — ele pergunta, olhando para a mesa que montei com a mesma intensidade que estava me analisando.

— Fiz panquecas, suco de abacaxi, algumas frutas... E mais tarde vou preparar um escondidinho. Já cozinhei as batatas — explico, sentindo o olhar do garoto pesando sobre mim, como se ele estivesse tentando descobrir algo além da comida.

— Ah, entendi... Cadê minha mãe? — ele pergunta, franzindo a testa.

— Desceu para abrir o café — respondo, me sentando à mesa. Bruce me acompanha, ainda com a expressão curiosa.

Comemos em silêncio, mas eu sei que ele está me analisando, e não só por conta das batatas. Ele definitivamente está me estudando, talvez até para reportar algo ao Bryan ou ao pai. Não consigo evitar um pequeno sorriso ao perceber isso.

— São fãs dos Kings? — pergunto, tentando quebrar o gelo.

— Sim, é o time de coração do meu pai, ou pelo menos é o que ele diz. Minha mãe sempre fala que ele era torcedor dos Kraken — responde ele, dando de ombros.

— Ele era mesmo — confirmo, me lembrando de Alan, anos atrás, torcendo fervorosamente pelos Kraken.

Bruce sorri de forma travessa, e eu sei que ele está esperando a oportunidade de dizer algo que possa me cutucar.

— Acho que ele mudou de time... afinal, ele te odeia — diz Bruce com um sorriso malicioso, o tom leve, mas cheio de significado.

— E ele vai abandonar os Kings também? — pergunto, interessado na resposta, sabendo muito bem a onde essa conversa pode nos levar.

— Não... Meu pai tem uma tatuagem dos Kings. Agora, esse é o time dele — diz Bruce, claramente orgulhoso do pai. Mas a minha próxima resposta faz o garoto congelar.

— Então ele vai odiar saber que na próxima temporada serei o camisa 13 dos Kings — digo com um sorriso no rosto, observando o queixo de Bruce praticamente cair.

— Isso é mentira! — Ele reage, incrédulo. — Os Kings nunca contratariam você!

— E por quê? — pergunto, cruzando os braços, sabendo que toquei num nervo.

Bruce simplesmente se levanta e sai sem dizer mais nada, deixando-me sozinho na cozinha. Não demora muito até meu telefone vibrar. É uma mensagem da Amanda, pedindo para eu ir até o café dela.

Chego lá e, como esperado, o lugar está repleto de decorações dos Kings. Fotos, pôsteres e camisas autografadas cobrem as paredes. Penso em como seria hilário ver a cara de Alan quando descobrir que eu serei o novo rosto do time dele. A ironia disso quase me faz rir em voz alta.

Amanda me observa de trás do balcão, e não demora para ela perceber meu sorriso.

— O que você está aprontando, Dylan? — pergunta, estreitando os olhos enquanto coloca uma xícara de café na minha frente.

— Eu? Nada — respondo, tentando parecer inocente.

— Não me engana, não. Você está com esse sorriso vitorioso, como quem acabou de aprontar. Eu conheço essa cara... Tenho um filho e um sobrinho, e os dois fazem exatamente a mesma expressão quando estão tramando algo — ela diz, cruzando os braços.

Sorrio abertamente, mas não digo nada. O simples fato de imaginar Alan descobrindo a notícia já faz tudo valer a pena. Mas Amanda me conhece bem demais para deixar passar. Ela me encara com aquele olhar perspicaz de sempre, pronta para arrancar a verdade, não importa o que eu diga.

...●...

— Acha que a Alice falou com o Bryan? — pergunto, tentando manter a calma, mas já sabendo a resposta.

— Falou sim, e o Alan também. — Amanda responde, e eu reviro os olhos de imediato.

ㅡ Por que o Alan falaria com ele? - Questiono.

Bem eu o Alan, não temos uma relação, ódio sempre pareceu forte demais para descrever o que sinto, mas, honestamente, depois de todos esses anos, não sei se há outra palavra que se encaixe melhor. Desde o começo, nós dois nunca nos demos bem, mesmo sem uma razão clara. Eu nunca fiz nada diretamente a ele, mas o cara me odeia como se eu tivesse pessoalmente destruído sua vida. Ele simplesmente não suporta a ideia de estar no mesmo ambiente que eu.

— Como sabe? — pergunto, sabendo que Amanda sempre tem suas fontes.

— Bruce me contou. Ele é uma "maria fifi" de carteirinha. — Amanda dá um sorriso leve. — Ele disse que o pai dele passou horas destruindo sua reputação e a da sua família para o Bryan e o Bruce.

Meu sangue começa a ferver instantaneamente. A ideia de Alan, de novo, envenenando meu filho contra mim... é quase demais para aguentar.

— Ótimo! — digo, levantando-me de repente. — Maravilhoso, na verdade! Esse filho da mãe está virando meu próprio filho contra mim!

— Calma, Dylan — Amanda tenta acalmar, mas a frustração está começando a sair por todos os poros.

— Como é que eu posso ficar calmo? Meu filho já não gaota de mim, para melhorar tem o tio dele que me odeia! Alan tá moldando o Bryan para ver o mundo da mesma forma torta e cheia de amargura que ele! — Ando de um lado para o outro na cozinha, tentando processar tudo.- Tem alguma chance de o Bryan não acreditar no Alan? — pergunto, com uma pontinha de esperança.

Amanda me olha com uma mistura de compreensão e preocupação. Ela respira fundo antes de responder.

— Honestamente, não. O Bryan idolatra o tio. Esse instinto protetor que ele tem em relação à sua mãe vem de observar o Alan. Ele se espelha nele, Dylan. Para o Bryan, o Alan é como um pai.

Essas palavras atingem como um soco no estômago. Meu filho, o garoto que eu mal tive a chance de conhecer de verdade, tem como ídolo o homem que mais me odeia. O homem que não perde uma chance de jogar meus erros na cara de todos.

— Ótimo. Perfeito. — Sinto a raiva crescendo de novo. — Meu filho admira o ser que mais me despreza. Ele acha que o Alan é um exemplo de pai, enquanto eu sou o grande vilão da história.

Amanda fica quieta por um momento, observando minha reação.

— O que você vai fazer? — ela pergunta, genuinamente preocupada.

Respiro fundo e paro de andar, encarando Amanda. A raiva ainda borbulha dentro de mim, mas sei que preciso pensar com clareza.

...●...

Eu solto um suspiro pesado, tentando absorver o impacto das palavras da Amanda. O Alan sempre foi um obstáculo na minha vida, um crítico feroz, mas agora saber que ele está moldando a visão do Bryan sobre mim é algo que me corrói por dentro. Caminho pela cozinha, passando a mão pelos cabelos, irritado. Como foi que deixei isso acontecer?

— Então, além de tudo, meu próprio filho me vê através dos olhos do Alan... — murmuro, frustrado, enquanto encaro o chão. — Fantástico. Meu filho tem como herói o cara que não me suporta, que faz questão de me ver como o vilão da história.

ㅡ Ainda está pensando nisso? - Ela pergunta.

ㅡ Óbvio, seu marido só me lasca.

Amanda me observa em silêncio, claramente ponderando se deve ou não intervir. Ela sempre teve esse jeito de esperar o momento certo para falar, como se estivesse calculando o impacto de cada palavra.

— O Bryan é inteligente, Dylan — ela finalmente diz, em um tom que tenta ser consolador. — Mas o Alan sempre foi aquela figura firme, presente. Ele estava lá quando você não estava. Isso não significa que o Bryan não possa mudar de ideia... mas, no momento, o Alan é o modelo que ele tem. É natural que o Bryan o admire.

— Natural... — repito com amargura. — Claro, é natural admirar alguém que se dedica a destruir a imagem do pai do garoto. O Alan nunca perdeu uma oportunidade de me difamar. Agora, está fazendo a cabeça do Bryan contra mim.

Sento-me à mesa e esfrego o rosto com as mãos, sentindo o peso da situação. Sei que, para o Bryan, o Alan é mais do que apenas o tio protetor. Ele é o cara que sempre esteve ao lado da Alice, o homem que a ajudou a criar nosso filho enquanto eu estava fora, vivendo minha vida nos ringues e fugindo da responsabilidade.

— E o Bruce? Ele também está na mesma? — pergunto, olhando para Amanda com ceticismo.

— Acho que por ser filho, o Bruce não tem a mesma devoção ao Alan. Ele não toma tudo pelo valor de face como o Bryan. Acho que ele está mais aberto a formar suas próprias opiniões... — Amanda hesita, escolhendo bem suas próximas palavras. — Mas o Alan tem uma presença muito forte. E, com ele jogando sujo, você vai ter que trabalhar o dobro para mudar essa visão que os meninos têm de você.

Eu reviro os olhos, mas não posso negar que ela tem razão. Alan sempre soube manipular as situações a seu favor, sempre soube como jogar as cartas para me pintar como o irresponsável, o egoísta. Agora, ele está fazendo isso com o Bryan, usando cada pedaço da nossa história para me manter à distância.

— Isso não vai ser fácil, Dylan — Amanda continua, com um tom mais sério. — O Alan não está apenas criticando suas decisões passadas. Ele está usando o peso da família Keer para distorcer a forma como os meninos veem você.

— O peso da família Keer... — digo, meio irritado. — Ah, o glorioso império do vinho e da reputação que eu nunca pedi para carregar.

— Exatamente — Amanda diz, inclinando-se sobre a mesa. — O Alan está se aproveitando disso. Ele está explicando para o Bryan que ser um Keer não é só sobre carregar um nome. É sobre carregar expectativas, responsabilidades... e, claro, todas as falhas do passado. Ele vai lembrar o Bryan todos os dias que você deixou a Ally, como preferiu o hóquei a ficar aqui, e de como deixou sua família para trás. Ele vai usar isso para justificar a ideia de que você é incapaz de ser um pai presente.

— Esse Neanthertal não entende, que eu não abandonei ninguém? Cara chato do caralhø — digo, rangendo os dentes. — Como se ele fosse o perfeito defensor da moral e dos bons costumes, o paladino na verdade.

ㅡDylan, o Alan não é um homem mal, só um homem que quer proteger a família.

ㅡ Proteger de quem? - Questiono. - De mim? - A encaro. - Eu não faço mal nem pra uma mosca.

— Dylan — Amanda suspira, tentando ser o mais sincera possível. — O Alan tem questões com sua família e você sabe disso. - Ela diz olhando no fundo dos meus olhos. - Ele vai falar sobre como vocês são uma das famílias mais poderosas da cidade, como seu pai controla tudo, e que, de uma forma ou de outra, você faz parte desse legado. Mesmo que você não goste, o Bryan está sendo ensinado a ver esse lado de você. Ele está sendo levado a acreditar que você, com todo seu status e sucesso, é uma pessoa distante, que nunca entenderá o que é realmente importante. E você muito bem que o Alan não está errado sobre sua família.

ㅡ Mas está sobre mim.

Eu aperto os punhos, sentindo a frustração crescer. Alan sempre soube como me atingir, como transformar meus sucessos em motivos de culpa. E agora ele está plantando essas ideias na cabeça do meu filho.

— Ele está basicamente transformando o Bryan em outra versão dele — digo, incrédulo. — O Alan está se certificando de que meu próprio filho me veja como o vilão da história, alguém que só se importa com fama e poder.

Amanda coloca uma mão no meu ombro, tentando me acalmar.

— Dylan, você pode mudar isso. Mas vai precisar de tempo, paciência e, principalmente, honestidade. Bryan precisa ouvir sua versão da história. Ele precisa ver o que você realmente é, e não o que o Alan está dizendo.

— Eu sei — respondo, sentindo o peso da responsabilidade se acumular. — Mas não vai ser fácil.

— Não vai — Amanda concorda. — Mas, pelo menos, agora você sabe o que está enfrentando. O Alan pode ter uma vantagem agora, mas isso não significa que você perdeu.

ㅡ Fico feliz de você não estar do lado do maluco do seu marido.

ㅡ Como ficar do lado dele, sabendo que você é uma pessoa simultaneamente incrível. - Ela me abraça.

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Comments

Maria Madalena Figueredo

Maria Madalena Figueredo

vamos explica esse ressentimento do Alan o cara é chato demais.

2024-11-07

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