Árvore

Ela me encara com aqueles lindos olhos azuis, fixos em mim, repletos de medo. Parece apavorada. Observo cada detalhe: suas mãos tremendo, os olhos confusos, a respiração frenética. É doloroso vê-la assim, tão vulnerável.

— Dylan... — Meu nome sai de seus lábios como um sussurro, quase um calmante. Mas logo ela se cala, engolindo em seco.

— Estamos ocupados — Nanda diz, colocando-se na frente de Alan, que ainda está se levantando, com sangue nos olhos, pronto para me atacar. Posso ver seus punhos cerrados, o corpo tensionado, e sei que ele está a um passo de explodir.

— Eles foram na minha casa em Seattle — digo, os meninos olham para mim, surpresos em me ver.— Esse rapazinho jogou um monte de informações na minha cara e foi embora. — Olho para Alice, que parece mais confusa do que nunca. Seus olhos se arregalam ligeiramente, a respiração fica ainda mais acelerada. — Alice, eu estou mais confuso do que gostaria — continuo.

Ela me puxa para fora da casa e caminhamos até a frente. A residência está diferente, mais velha. Os vasos estão quebrados, as flores amassadas. A árvore que há 15 anos estava cheia de neve agora tem folhas caindo ao chão. Essa árvore testemunhou o estilhaçar do meu coração. Cada passo que damos ecoa com lembranças de um passado distante, mas dolorosamente presente.

— Nós temos um filho? — pergunto, e seus olhos se enchem de lágrimas, quebrando-me ao meio mais uma vez. A dor em seu rosto é quase palpável.

— Não finja que não sabia! — A raiva em sua voz é cortante, quase desesperada.

— Eu descobri há três dias, quando aqueles meninos tocaram minha campainha e jogaram essa bomba na minha cabeça. — Minhas palavras saem com um peso que reflete o turbilhão dentro de mim.

— NÃO MINTA — ela grita, furiosa. — EU LIGUEI, MANDEI MENSAGENS, EMAILS. EU FIZ TUDO. — Sua voz ecoa no ar, carregada de anos de frustração e desespero.

— E eu só vi o email por conta deles — digo. Ela me encara, furiosa. — Por 14 anos, carreguei uma raiva mortal de você. Porque você amassou meu coração e jogou fora. — Minhas palavras são duras, refletindo a amargura acumulada.

— Dylan... — Seu semblante muda, agora mostrando culpa. As lágrimas escorrem livremente por seu rosto.

— Se você já sabia, por que não me contou? — As lágrimas escorrem pelo meu rosto também. — Se já sabia, por que me deixou ir embora? Por que me machucou? Por que mentiu para mim?

Ficamos em silêncio. O rosto angelical dela está vermelho, lágrimas escorrem por suas bochechas. Odeio ver Alice chorar, odeio com todas as minhas forças. Tenho que me segurar para não abraçá-la.

— Você estava tão feliz por conseguir a vaga em New Jersey — sua voz soa insegura, quase quebrada. — Eu não queria passar pelo que minha mãe passou calada.

— O que?

— Você conseguiu mais uma bolsa de hóquei, estava feliz fazendo planos. Lembrei-me do meu pai, que sempre jogava na cara da minha mãe que poderia ter sido um grande jogador de futebol, mas que ela estragou tudo quando ficou grávida do Alan — ela diz, o choro em sua voz como facas me cortando lentamente. — E se você fizesse isso comigo também?

— Alice... — Me aproximo, mas ela se afasta, um passo vacilante para trás.

— E se você tratasse nosso filho como meu pai trata o Alan? Eu não suportaria ver isso. Não aguentaria receber o mesmo olhar de desprezo que minha mãe recebeu por anos. — Sua voz é uma mistura de dor e medo, cada palavra uma punhalada.

— Ally... eu jamais — digo, engolindo seco. — Eu não faria isso, eu...

— Você era um playboy que sempre teve tudo, Dylan. Fazer você escolher entre seu sonho e uma família era burrice.

— ENTÃO VOCÊ ACHOU MELHOR ESCOLHER POR MIM? — grito, indignado, a frustração transbordando.

— Não! Eu escolhi pelo meu filho, para que ele crescesse em um lar onde fosse amado 100% do tempo — ela diz, a voz trêmula, mas firme, como se cada palavra fosse uma muralha que ela erguera ao redor de si.

Cada palavra dela me atinge como um soco, e percebo que o peso do passado ainda está sobre nós, uma sombra que não podemos ignorar.

ㅡ É melhor você ir! - Amanda diz puxando a Alice com ela. - Uma outra hora vocês dois conversam, está tarde e tem duas crianças assistindo vocês? - olho para o lado e os meninos estão na porta, da distância que estão com certeza não podem nos ouvir.

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Ana Maria Sá

Ana Maria Sá

A família culpando ele, quando na verdade a única culpada do filho não conhecer o pai, é ela.

2025-03-17

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