Meu tio me fez voltar para o time de hóquei, algo que eu realmente não queria. Principalmente sabendo que o Dylan, o cara que parece estar sempre no centro das atenções, é um jogador fenomenal. Mas o time do colégio tem um jogo importante neste final de semana, e, para piorar, já fui escalado como titular. Agora não posso simplesmente arregar.
Eu e o Bruce estávamos no gelo há pelo menos duas horas, ensaiando uma jogada que vimos os Kings fazerem num jogo recente. Meu tio chama de "La Perfección", mas eu e o Bruce a apelidamos de "Super B". A ideia era aperfeiçoar a jogada até que ficasse tão boa quanto a dos profissionais. Só que, depois de tanto tempo de treino, nossos corpos já estavam sentindo o peso. O cansaço era visível, e o suor escorria pelo rosto, mesmo com o frio do rinque.
— Pai, eu já tô cansado — Bruce finalmente disse, a exaustão evidente na sua voz.
Alan, que estava à beira da pista, filmando tudo com uma determinação quase irritante, nem pensou duas vezes antes de gritar de volta:
— Só mais uma vez, Bruce! Vai ficar perfeito!
Eu podia sentir o peso da pressão que meu tio colocava sobre nós. Alan sempre foi assim — obcecado por perfeição, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. Para ele, não havia espaço para falhas, o que, às vezes, tornava o simples ato de jogar hóquei mais uma missão do que uma diversão. Era sufocante. De longe, vi minha mãe e a tia Nanda entrando no rinque. Elas se sentaram nas arquibancadas, e isso fez com que a tensão no ar diminuísse um pouco. Saber que minha mãe estava ali de alguma forma me dava mais força.
— Só mais uma, Bruce — eu disse, tentando soar motivado, apesar do cansaço. — Minha mãe está aqui, por favor.
Bruce me olhou com um sorriso cansado, mas sincero, e assentiu. Ele também queria impressionar, apesar de estar no limite.
Nós nos posicionamos para tentar a jogada novamente, dessa vez com ainda mais foco. A presença de minha mãe e da tia Nanda nas arquibancadas nos deu um impulso extra, algo que eu precisava para continuar, mesmo que meu corpo estivesse implorando por descanso.
Enquanto patinávamos em sincronia, senti o olhar atento do meu tio Alan nos analisando, registrando cada movimento com o celular. Para ele, cada detalhe importava. Essa pressão que ele colocq sobre nós não é só pelo jogo. É por conta do Dylan.
Bruce e eu acertamos a jogada, ainda não perfeita, mas boa o suficiente para arrancar um sorriso de aprovação de Alan. Ele baixou o celular, finalmente satisfeito por hora.
— Isso, meninos! É assim que se faz! — ele disse, com um orgulho que só aparecia em momentos como esse.
Olhei para minha mãe nas arquibancadas. Ela sorriu de volta para mim, e aquele pequeno gesto fez valer a pena o esforço.
Ainda assim, enquanto saíamos do gelo, não pude deixar de pensar em Dylan. Ele, que havia conquistado o mundo do hóquei, estarei sempre à sombra de qualquer coisa que eu fizesse. Mesmo que ele não estivesse presente fisicamente, sua figura pairava sobre cada movimento que eu fazia. O que quer que eu realizasse, sempre haveria uma comparação.
E, no fundo, isso também pesava.
...●...
Sentamos para comer todos juntos, e, apesar da tensão evidente entre minha tia e meu tio, o silêncio era quase confortável. O Bruce comentou que o motivo da briga era porque seu pai estava sendo muito teimoso, e embora eu confie no julgamento do Bruce, nesse caso, não acho que o tio Alan esteja completamente errado. Afinal, minha tia está abrigando o Dylan, e conhecendo o histórico deles, eu também ficaria irritado no lugar do meu tio.
O ambiente estava estranho, a comida sendo mastigada em um ritmo desconfortável. O barulho dos talheres era o único som até que a porta se abriu e o Dylan entrou com seu típico sorriso confiante, aquele mesmo sorriso que parece inflamar o temperamento do meu tio.
— Cadê o controle? — Dylan perguntou, como se nada estivesse fora do lugar, ignorando completamente o clima pesado.
— Na gaveta perto do caixa — minha mãe respondeu, apontando com o queixo para o móvel. Dylan foi direto, pegou o controle e ligou a TV no canal de esportes.
Assim que a imagem apareceu na tela, as notícias esportivas começaram a rodar.
“— Acaba de ser confirmado que o astro da NHL Dylan Keer assinou um contrato de três temporadas com os Los Angeles Kings,” anunciou o repórter com entusiasmo.
Imediatamente, senti o ar mudar. Meu tio Alan, que até então mantinha uma expressão fechada, se levantou bruscamente e encarou a TV, incrédulo e claramente furioso.
“— O superastro, que está de férias no momento, será o camisa 13 dos Los Angeles Kings,” continuou o repórter.
— ISSO SÓ PODE SER BRINCADEIRA! — Meu tio explodiu, sua voz ecoando pelo ambiente. Ele estava vermelho de raiva.
Dylan, por sua vez, apenas riu, mantendo aquele ar despreocupado.
— Era por isso que estava rindo? — Minha tia Nanda disse, tentando segurar o riso, embora claramente divertida com a situação. — Vai jogar nos Kings?
— Sim — Dylan confirmou, ainda sorrindo. — Os Kraken não eram mais a melhor opção. Los Angeles me ofereceu um contrato muito bom, e aceitaram as minhas férias. Só precisei fazer algumas fotos e eventos, coisas do tipo.
O rosto do meu tio se contorceu ainda mais. Ele estava claramente se segurando para não explodir de novo, mas algo dentro dele quebrou. Num impulso, ele avançou na direção do Dylan e tentou acertar um soco.
Mas, como se estivesse em um jogo de hóquei, Dylan se esquivou facilmente, desviando com agilidade. Ele tinha a mesma leveza que sempre demonstrou no gelo.
— Pra que isso? — Minha mãe interveio, colocando-se entre os dois. Seus olhos estavam furiosos, e ela empurrou meu tio para longe. — Alan, dá pra parar de agir como um boçal?
Alan, com o peito arfando de raiva, parecia prestes a responder algo, mas a presença firme da minha mãe e o olhar calmo do Dylan o desarmaram momentaneamente. Minha mãe tinha um jeito de acalmar até os ânimos mais inflamados, mesmo quando o próprio irmão estava fora de controle.
— Ele não tem que ficar aqui! — Meu tio finalmente gritou, sua voz tremendo de frustração. — Ele já destruiu essa família uma vez, e agora quer aparecer como se nada tivesse acontecido!
Dylan, que até então estava em silêncio, suspirou e cruzou os braços, olhando diretamente para o Alan.
— Eu não estou aqui pra causar problemas, Alan. E se eu jogue ou não pelos Kings, isso não deveria afetar você. Não estamos mais no colégio.
A tensão no ar era quase palpável. Bruce e eu nos entreolhamos, sem saber o que dizer ou fazer. Minha mãe olhou para o Alan com um misto de desapontamento e frustração.
— Alan, o que aconteceu entre vocês faz parte do passado — minha mãe disse, sua voz mais suave agora. — Você precisa seguir em frente. O que aconteceu não foi só culpa do Dylan, eu também errei com ele. Só... vamos tentar manter a paz, pelo menos aqui em casa.
O tio Alan bufou, claramente ainda irritado, mas não respondeu. Ele saiu do café em passos pesados, a porta batendo atrás dele com força. O silêncio voltou, mas agora era um silêncio denso, carregado de sentimentos não ditos.
— Isso foi... intenso — murmurou o Bruce, quebrando o gelo.
Dylan suspirou novamente, passando a mão pelos cabelos loiros e bagunçados, e então voltou seu olhar para mim e Bruce, como se tentasse decidir o que dizer.
— Desculpa por isso — ele disse, quase com um toque de tristeza em sua voz. — Não era a minha intenção causar tanto tumulto. Não sabia que ele ia ficar tão alterado ao saber, que vou jogar no time que ele torce.
ㅡ Você sabia sim, Dylan. - Minha mãe diz o encarando.
ㅡ Tá! Talvez eu soubesse mesmo. - Ele sorri, e os dois se encaram, de um jeito estranho.
Minha mãe colocou uma mão no ombro dele e deu um leve sorriso, mas havia preocupação em seu olhar, mas não só isso, também tem muito carinho em seus olhos e sorrisos.
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Atualizado até capítulo 40
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