Silêncio

Mais uma vez, releio o contrato com os Kings. Já faz cinco anos que estou com os Kraken, e sem dúvida, amei cada momento nesse time. Fui infinitamente mais feliz aqui do que em qualquer outro time em que já joguei. A camaradagem, a torcida apaixonada e a cidade vibrante fizeram desses anos algo inesquecível.

— Eles estão dispostos a mudar o que achar melhor — diz Drake, meu empresário, com um olhar atento enquanto aponta para as cláusulas flexíveis do contrato.

— E as minhas férias?! — pergunto, com um toque de esperança na voz. O estresse acumulado está me corroendo.

— Férias? — Ele franze a testa, claramente surpreso.

— Já estou há duas temporadas sem descanso — digo, exalando um suspiro pesado. O cansaço se reflete nos meus olhos, nas minhas palavras.

Realmente estou esgotado. Foram quase três anos sem parar, com jogos, treinos e compromissos incessantes. Sei que não foi em vão, mas preciso ficar uns dias em casa, começar a me programar para mudar para Los Angeles.

— Ok, precisa de quanto tempo? — pergunta Drake, finalmente compreendendo a gravidade do meu pedido.

— Até a temporada dos Kings começar em outubro, certo?

— Sim, é isso mesmo.

— Então até setembro.

— São 8 meses de férias — ele diz, contando nos dedos e olhando para mim como se eu estivesse louco.

— Sem nada, quero 8 meses de paz, sem ninguém me enchendo o saco, nem mesmo você — digo, olhando nos olhos do meu empresário, que engole seco e assente.

Drake é um empresário incrível, super prestativo, e sempre me tirou de grandes problemas. Muita da fortuna que fiz veio do trabalho dele. É um cara super gente boa, mas que não dá nenhum valor para o descanso. Se pudesse, ele trabalharia até no Natal.

— Viajar, algo do tipo? — ele pergunta, tentando entender meus planos.

— Não, mas vou precisar me arrumar para a mudança para Los Angeles.

— Precisa de OITO meses? — ele repete, incrédulo.

— Sim, e não vamos discutir isso. Não vou mudar de ideia.

...⁜...

Saio do escritório de Drake sentindo um peso sair dos meus ombros. O som abafado do trânsito de Seattle é quase reconfortante comparado à pressão constante que senti nos últimos anos. Caminho sem rumo definido, apenas querendo sentir a liberdade que acabei de conquistar.

Paro em um café na esquina e peço um espresso duplo. Enquanto espero, olho ao redor e vejo pessoas indo e vindo, cada uma com suas próprias histórias e preocupações. Me pergunto se algum deles já sentiu o peso de carregar um time nas costas, a expectativa constante dos fãs, a pressão de nunca falhar.

Meu telefone vibra no bolso. Uma mensagem de Drake:

"Entendi, vou cuidar de tudo. Aproveite suas férias, você merece."

Sorrio, apreciando a rara demonstração de compreensão de Drake. Pago pelo café e saio, decidido a aproveitar cada minuto desses oito meses.

...⁜...

Chego em casa ao entardecer. Minha casa está exatamente como deixei, uma mistura de modernidade com um toque de conforto caseiro. Entro e jogo meus equipamentos no chão da sala, sentindo uma paz que há muito tempo não sentia.

Não há ninguém aqui, e não me lembro da última vez que tinha alguém na minha casa quando cheguei. Gosto de companhia, mas às vezes o silêncio é a melhor delas. A solidão tem seu charme depois de anos de barulho e multidões.

Vou à cozinha e preparo uma refeição leve. Estar de férias não significa perder o controle. Odeio ter que fazer treino para perder peso; é um saco. Para um jogador de linha como eu, preciso ser o mais leve possível dentro do que é saudável.

Sento para comer e Apollo, meu cachorro, vem me fazer companhia. Dou-lhe um pedaço de carne, e ele come quieto. Minha única companhia constante nesses dois últimos anos tem sido Apollo. Ele é um cão quieto, tranquilo e muito bem treinado, nunca dá trabalho, o que me deixa mais tranquilo.

...⁜...

A campainha soa alto e repetidamente. Levanto-me e olho para o celular; não houve nenhum aviso da portaria do condomínio de visita ou entrega para mim. Aproximo-me da porta e, pela câmera, vejo dois meninos, ambos com um semblante apreensivo, porém um mais determinado do que o outro. O rapaz de cabelos negros não para de apertar a campainha. Em busca de parar esse tormento, abro a porta.

— Olha, se forem fãs, saibam que não é nada legal invadir a privacidade do seu ídolo, mas tiro fotos sem qualquer problema — digo.

Eles ficam em silêncio e se entreolham. O rapaz de cabelos negros meio que incentiva o outro a dizer algo.

— Vamos, Bryan, fala alguma coisa — ele diz ao amigo.

Eu estava prestes a fechar a porta, pois vi que não eram fãs atrás de um autógrafo ou uma foto, como às vezes acontece.

— Por que abandonou a minha mãe?! — o rapaz loiro diz, a voz tremendo de emoção. — Por que nos abandonou?

O impacto das palavras me atinge como um golpe no estômago. Fico paralisado, olhando para o menino à minha frente, seus olhos cheios de uma dor que eu não consigo ignorar.

— Quem... quem é você? — pergunto, minha voz vacilando.

— Eu sou Bryan Hart, filho de Alice Hart, nem mesmo sei se lembra dela. - Ele diz com um tom firme e sem gritar, mas alto e em bom som. - E você é meu pai.

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Comments

Maria Aparecida Santos

Maria Aparecida Santos

quantos jovens devem passar por isso, sem saber quem são seus pais.

2024-11-03

2

Zilá Cerqueira

Zilá Cerqueira

Gente , que isso.....o menino é foda ....

2024-11-03

0

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