Ema
Enquanto a onça se aproxima, percebo que é a fêmea, a mãe dos filhotes. Engulo em seco, mas não tiro os olhos dela, lembrando do que minha mãe sempre dizia: "Não tira os olhos dos animais, Ema. Demonstre respeito, mas não medo." As palavras dela reverberam em mim.
— Não somos uma ameaça... — sussurro quando a onça para a centímetros de mim.
Ela me encara tão fixamente que consigo ver meu próprio reflexo em seus olhos. Por um momento, tudo parece desacelerar ao nosso redor: o vento balançando as árvores, os voos e cânticos dos pássaros, a respiração irregular de Mark ao meu lado. Tudo isso parece em câmera lenta.
— Eu jamais irei te machucar — sussurro novamente para a onça.
Seus olhos não deixam os meus por um só minuto. E então, ela lança um rápido olhar para o parceiro, que está logo mais atrás com os filhotes. Ela me olha uma última vez e se afasta, seguindo seu caminho, com o parceiro e os filhotes brincando atrás dela como se nada tivesse acontecido.
Assim que eles somem de vista, solto o ar, me curvando e apoiando as mãos nos joelhos. Respiro tão ofegante que parece que meu coração vai sair pela boca.
— Tá aí uma coisa que se eu contar ninguém vai acreditar. A garota que se comunicou com uma onça selvagem — diz Mark, também ofegante.
Olho para o lado e vejo que ele está na mesma posição, curvado com as mãos nos joelhos. Nossos olhos se encontram, e há tanta coisa não dita neles. Uma sensação estranha se apossa de mim enquanto olho profundamente em seus olhos, como se fôssemos duas almas entrelaçadas no tempo.
— Você foi incrível, Ema — diz Mark, ainda ofegante, mas com um tom de admiração na voz. — Eu estava certo de que íamos morrer.
— Foi instinto... e um pouco de sorte — respondo, tentando controlar minha respiração. — Mas lembre-se do que eu disse: fica longe de mim.
Mark assente, compreendendo a seriedade em minha voz.
— Entendi. Vou respeitar seu pedido. Mas se você precisar de ajuda, sabe onde me encontrar.
Assinto, mas sem responder. Começo a me afastar, deixando Mark para trás. Enquanto caminho de volta pela floresta, sinto uma mistura de alívio e incerteza. A experiência foi intensa, mas algo me diz que essa não será a última vez que coisas estranhas irão acontecer.
Assim que chego à feira novamente, a noite começa a cair, levando embora os últimos resquícios da tarde. Tere e Lucas me avistam e vêm correndo até mim. Olho para o lado e vejo Mark sendo recebido também por seus homens e por aquele seu mordomo.
Seus olhos encontram os meus novamente, e há um entendimento entre nós, algo não dito em palavras, mas sentido e compreendido. Assinto lentamente para ele com um aceno de cabeça e me viro para Tere e Lucas, que me olham preocupados e fazem perguntas. Minha mente, no entanto, está longe.
— Tere, eu a vi novamente. Dessa vez foi diferente. Eu a toquei e vi coisas... indígenas, caçadores, muita morte, muito sangue derramado... — sussurro, sentindo a brisa me envolver e um calafrio percorrer minha espinha.
— Lucas, menino, vai desmontar a barraca — diz Tere para Lucas, que assente e se vai.
Ela então se vira para mim e pergunta:
— Foi por isso então que você sumiu, menina? Ela te levou para a floresta, não foi?
Assinto, suspiro profundamente e digo:
— Sim. Eu não sei quem é essa garotinha, Tere, e nem porque ela quis me mostrar aquilo. Foi terrível, tinham muitas crianças... Eu ainda posso ouvir os gritos de dor deles, sendo caçados como animais... — digo entre lágrimas.
Tere me abraça com força, sua presença sólida e reconfortante me dando um pouco de consolo em meio ao caos que sinto por dentro.
— Shhh, está tudo bem, minha menina. Essas visões... elas têm um propósito. Talvez essa garotinha esteja tentando lhe mostrar algo importante, algo que você precisa entender ou fazer.
Sinto o calor do abraço de Tere e, por um momento, permito-me descansar em seus braços. O peso da visão e do encontro com a onça começa a desvanecer, mas a sensação de que algo maior está em jogo permanece.
— Tere, o que devo fazer? — pergunto, minha voz quase um sussurro.
Ela se afasta um pouco e segura meu rosto em suas mãos, seus olhos castanhos cheios de sabedoria e preocupação.
— Você precisa descobrir quem é essa garotinha e o que ela quer de você. Isso não é uma coincidência, Ema. Existe uma razão para tudo isso. Vamos descobrir juntas, minha menina.
Assinto, sentindo uma nova determinação crescer dentro de mim. A noite está apenas começando, e sei que tenho um longo caminho pela frente. Mas com Tere ao meu lado, sinto que posso enfrentar qualquer coisa.
Enquanto Lucas desmonta a barraca e a feira vai se esvaziando, meu olhar volta brevemente para Mark, que ainda me observa à distância. Algo me diz que ele também será parte dessa jornada, queira eu ou não.
Tere e eu começamos a caminhar de volta para casa, o peso da noite nos envolvendo, mas a promessa de respostas e o apoio mútuo nos fortalecendo para o que está por vir.
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Tereza Conceição
estou adorando essa aventura.Muito boa
2024-07-29
2
Mara Melo
A história está incrível, mas estou com receio de continuar por causa da atualização dos capítulos, são poucos e temo não continuar
2024-07-20
1
Silvania Balbino
Que visões fantástica! Mistério e anscestralidade.
2024-07-16
1