Ema
Estava concentrada em atender os clientes, sempre sentindo os olhares de Mark em minha direção. Assim que ele comprou a geleia e saiu, manteve-se nas proximidades da nossa barraca, mas ele não vai me intimidar.
Foi então que eu a vi novamente. Como das outras vezes, ouço o apito, o som de uma flauta, passarinhos cantando. A garotinha do cocar corre por entre as crianças, me olha e sai em disparada, afastando-se da multidão. Aproveito que Lucas e Tere estão distraídos atendendo as pessoas e corro atrás dessa garotinha.
Preciso entender quem é ela, por que sempre a vejo? Enquanto corro atrás dela, a brisa da tarde agita meus cabelos, mas não paro.
— Ei, espere! — grito, correndo e me desviando das pessoas.
Ela olha para trás, mas apenas continua correndo, e eu a sigo. Vejo a garotinha alcançar a floresta densa que circunda a cidade. Antes de adentrar, ela se vira para mim e estica sua mão, me chamando.
Meu coração acelera, e assim que ela entra, corro atrás dela, adentrando a floresta. A luz do sol filtrada pelas copas das árvores cria um ambiente mágico e misterioso. O som da feira desaparece rapidamente, substituído pelo silêncio da floresta, quebrado apenas pelo som das folhas secas sob meus pés e pelo canto distante dos pássaros.
— Espere! — grito novamente, ofegante, mas determinada.
A garotinha se move agilmente entre as árvores, como se conhecesse cada centímetro deste lugar. Tento acompanhar, mas meus passos são pesados e desajeitados em comparação. No entanto, a determinação de entender quem ela é e por que me chama me mantém em movimento.
De repente, chego a uma pequena clareira e paro abruptamente. A garotinha está lá, no centro, olhando diretamente para mim. Seus olhos parecem brilhar com uma sabedoria antiga e misteriosa.
— Quem é você? — pergunto, minha voz ecoando na clareira.
Ela não responde, mas um sorriso suave se forma em seus lábios. Aproxima-se de mim lentamente, estendendo a mão novamente. Sem saber exatamente por que, mas sentindo uma profunda necessidade de confiar nela, dou um passo à frente e estendo minha mão para encontrar a dela.
No momento em que nossas mãos se tocam, sinto uma onda de energia percorrer meu corpo. Fecho os olhos por um segundo, e quando os abro novamente, me vejo em uma cena caótica no centro de uma floresta com árvores enormes e vegetação densa, envolta em uma neblina.
— Corre, Ema, eles estão aqui — uma voz diz.
Olho para meu lado e não vejo a garotinha; vejo muitas pessoas correndo, pessoas gritando.
— O que está acontecendo? — digo desesperada, olhando em volta, como se a floresta estivesse rodando diante dos meus olhos.
— Corre, precisamos chegar até a tribo — a voz diz novamente.
É então que vejo o que se desenrola diante de mim. São indígenas, inúmeros deles, sendo caçados por homens de chapéus. Meu coração parece um tambor no peito. Começo a correr sem rumo, escuto um som estranho, barulho de tambores.
— Meu Deus, socorro! — digo quase sem fôlego.
Enquanto corro, olho para o lado e vejo o que parece ser uma família indígena. O pai e a mãe correm com as crianças, mas os caçadores estão logo atrás deles. Então vejo a garotinha do cocar. Ela corre junto com eles, e então a indígena que julgo ser sua mãe me olha.
O olhar dela é de pura dor. Sinto no meu âmago o desespero, o sofrimento, a certeza de que serão pegos. Lágrimas escorrem dos meus olhos, turvando minha visão. De repente, vejo inúmeros indígenas se reunindo. São guerreiros.
A mãe da garotinha tira o que parece ser um arco de suas costas e, junto com o pai da garotinha, se junta aos guerreiros. Eles gritam; o som reverbera em mim, causando arrepios, como se fosse um chamado para lutarem por suas vidas, suas terras.
A mãe assente para a garotinha do cocar, que corre com as outras crianças, mas uma a uma as crianças são derrubadas, e só sobra ela correndo. Seus olhos se encontram com os meus. Lágrimas escorrem por eles. Ela parece querer voltar para ajudar as outras crianças.
— Não! Não pare de correr — grito desesperada.
Ela, chorando, aumenta seus passos. Mas os caçadores são muitos e velozes. Ela me olha uma última vez e faz uma curva para o lado de uma árvore, subindo na mesma rapidamente.
Paro, cansada, observando como ela se agarra ao tronco da árvore no alto e fica ali, tentando passar despercebida. Mas então dois homens se aproximam da árvore; um deles olha para cima e aponta para o outro.
Corro em direção a eles, tentando chamar suas atenções, mas percebo que eles não me veem. Pareço estar invisível aos seus olhos.
Um deles diz:
— Pegue-a, leve-a. Eles irão matá-la.
O outro homem pega a garotinha, que chora, tentando resistir. Corro tentando impedir, mas minhas mãos atravessam por eles.
— Estou sonhando? — digo confusa, olhando para minhas mãos.
Mas então o grito da garotinha me tira dos pensamentos, e sigo-a enquanto é levada por aquele homem. Ele anda muito rápido, carregando-a e olhando para os lados, como se estivesse com medo de ser descoberto.
Ele se distancia muito da mata e logo chega a uma propriedade com uma casa ampla. Vejo uma mulher correndo em sua direção, juntamente com um garoto.
— O que é isso, pai? — pergunta o garoto, olhando para a garotinha nos braços do pai.
— É uma das nativas, filho — diz ele, segurando a garotinha.
— É isso que você anda fazendo? Está caçando eles? — pergunta a mulher.
— Não me perturbe, mulher. Vamos entrar. Ela ficará aqui. Se ela sair, irão matá-la — diz ele.
Mas não consigo entender por que ele a está ajudando. E como se me ouvisse, a mulher pergunta:
— Mas se você estava os caçando, por que está trazendo essa menina para nossa casa? Por que está fazendo isso?
O homem olha para a mulher com uma expressão cansada e dolorosa.
— Eu não sei mulher, eu sinceramente não sei. Mas não posso deixá-la morrer. Vou protegê-la, mas isso fica entre nós. Ninguém pode saber, ou estaremos todos em perigo.
A mulher, ainda perplexa, assente lentamente.
— Está bem, mas isso é arriscado demais. Se alguém descobrir...
— Eu sei — interrompe ele. — Mas é um risco que estou disposto a correr.
Ele leva a garotinha para dentro da casa. Sigo-os, ainda invisível, tentando entender tudo o que está acontecendo. A garotinha está assustada, mas os olhos dela encontram os meus por um momento, e sinto uma conexão profunda, como se ela soubesse que eu estou aqui para ajudá-la.
De repente, a visão começa a se dissipar, e sinto a onda de energia me puxar de volta. Abro os olhos e estou de volta à clareira na floresta moderna, ofegante e confusa.
— O que foi isso? — pergunto a mim mesma, tentando entender essa experiência surreal.
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Atualizado até capítulo 47
Comments
cleo Oliveira
ja li livros assim livros espíritas e muito bom eu gosto muitos tenho varios
2025-01-15
1
🌹
visão de uma outra vida?
2024-08-25
1
Nadja
caramba estou confusa com essa história
2024-08-14
1