Anne terminou de amarrar um pedaço de tecido improvisado em torno da perna ferida do homem. Ele tinha um corte profundo, provavelmente causado por um vidro quebrado ou metal enferrujado durante a fuga dos contaminados. O ferimento ainda sangrava, mas estava sob controle. O homem, cujo nome ela ainda não sabia, olhou para ela com uma mistura de dor e gratidão.
"Obrigado," ele murmurou, respirando com dificuldade.
"De nada," Anne respondeu, oferecendo-lhe um pequeno sorriso. "Você precisa descansar agora. Nós vamos manter a vigia."
O homem assentiu, fechando os olhos enquanto se recostava contra a parede. Anne olhou ao redor da sala, onde os outros sobreviventes estavam espalhados. Eram cinco no total, incluindo o homem ferido. A mulher que havia falado anteriormente estava sentada perto da janela, olhando para fora com uma expressão distante, enquanto os outros dois — um homem e uma adolescente — estavam sentados próximos, conversando em sussurros.
David entrou na sala, trazendo um par de garrafas de água e um pouco de comida enlatada que haviam encontrado no armazém. "Aqui, vocês devem comer algo," ele disse, distribuindo os itens entre o grupo.
"Vocês nos salvaram lá fora," disse o homem mais velho, aceitando a água de David. "Nem sei como agradecer."
"Não precisa agradecer," respondeu David, sentando-se ao lado de Anne. "Estamos todos no mesmo barco. Precisamos cuidar uns dos outros se quisermos sobreviver."
A mulher, que parecia ser a mais velha do grupo, finalmente desviou o olhar da janela e se apresentou. "Meu nome é Marta," ela disse, com uma voz firme, apesar das circunstâncias. "Esse é o meu marido, Paulo," ela apontou para o homem mais velho, "e minha sobrinha, Júlia," acrescentou, indicando a adolescente.
"Eu sou Anne, e esse é David," respondeu Anne, inclinando a cabeça para David. "Estamos aqui desde ontem, tentando encontrar uma maneira de sair da cidade."
Paulo, que havia sido o primeiro a agradecer, assentiu lentamente. "Também estávamos procurando uma saída, mas... esses monstros estão em toda parte. Não conseguimos avançar muito."
"O que aconteceu com a cidade?" Júlia perguntou, sua voz trêmula. "Como tudo ficou assim tão rápido?"
David suspirou, passando a mão pelo cabelo. "A contaminação se espalhou mais rápido do que qualquer um esperava. Um projeto da elite que deu errado... ninguém estava preparado. O governo entrou em colapso antes de conseguir conter a situação."
Marta assentiu. "Nós vimos o pior. Quando começou, muitos tentaram escapar, mas logo as ruas estavam cheias de caos. Encontramos um abrigo temporário, mas fomos forçados a sair quando os contaminados começaram a invadir."
"Vocês sabem se há algum lugar seguro fora da cidade?" Anne perguntou, a esperança renovada pela possibilidade de mais informações.
Paulo balançou a cabeça. "Não sabemos ao certo. Ouvimos rumores de que alguns conseguiram chegar a zonas seguras, mas são apenas rumores. Não confiamos em ninguém mais."
"Entendemos," disse David, sua expressão grave. "Mas precisamos tentar. Nosso plano é seguir para o norte, tentar encontrar alguma base militar ou pelo menos sair da área urbana."
"O hospital é uma das nossas poucas chances de encontrar informações mais concretas," Anne acrescentou. "Podemos tentar acessar os registros lá e ver se há algo sobre zonas seguras."
Marta e Paulo trocaram olhares antes de Marta falar novamente. "Parece que vocês têm um plano. Se permitirem, gostaríamos de nos juntar a vocês. É muito mais seguro em grupo."
David e Anne se entreolharam, sabendo que, embora mais pessoas significassem mais bocas para alimentar e mais chances de serem descobertos pelos contaminados, também significava mais mãos para ajudar e mais olhos para vigiar.
"Claro," disse David, finalmente. "Juntos, temos uma chance melhor."
Júlia, que até então estava calada, olhou para Anne com olhos brilhantes, ainda cheios de medo, mas agora também com um toque de esperança. "Obrigada por nos deixar ficar. Eu... não quero perder mais ninguém."
Anne sorriu para ela, tocando suavemente seu ombro. "Vamos cuidar uns dos outros, Júlia. Não estamos sozinhos."
Enquanto a noite avançava, o grupo se acomodou da melhor maneira possível, sabendo que o verdadeiro desafio ainda estava por vir. Tinham conseguido sobreviver mais um dia, mas a luta pela sobrevivência apenas começara.
Com a luz da manhã, viriam as decisões difíceis e os perigos desconhecidos. Anne e David, agora com novos aliados, precisariam estar prontos para qualquer coisa que os aguardasse além das portas daquele prédio.
A primeira luz do amanhecer infiltrava-se pelas frestas da janela, banhando a sala em um brilho pálido. O grupo despertou lentamente, seus corpos exaustos protestando contra a necessidade de se mover tão cedo. Mas o tempo era um luxo que não podiam se dar ao luxo de desperdiçar.
David foi o primeiro a se levantar, esticando os músculos rígidos. Ele olhou ao redor da sala, confirmando que todos estavam acordados e começando a se preparar para o dia. Anne ainda estava ao lado de Júlia, que dormira inquieta durante a noite. A jovem parecia mais assustada do que nunca, os olhos fixos na parede à frente, como se tentando afastar os pesadelos que a assombravam.
"Está na hora," David disse suavemente, chamando a atenção de Anne. Ela assentiu e começou a levantar-se, estendendo a mão para Júlia.
"Vamos, Júlia. Temos que nos preparar para sair," Anne falou, tentando manter o tom firme, mas gentil.
Júlia piscou e olhou para Anne, parecendo estar voltando à realidade. Ela respirou fundo, pegou a mão de Anne e levantou-se. "Estou pronta," disse, embora seu tom sugerisse mais coragem fingida do que real.
Enquanto todos se reuniam, Marta e Paulo estavam conversando em voz baixa, trocando ideias sobre a rota que deveriam seguir. Anne se juntou a eles, querendo garantir que todos estivessem na mesma página antes de saírem para o que seria uma jornada perigosa.
"Estamos pensando em seguir pela avenida principal até o hospital," Paulo disse, apontando para um mapa desgastado que havia encontrado em uma das gavetas. "É uma rota direta, mas arriscada. Se os contaminados estiverem lá, poderemos ser cercados facilmente."
"É um risco," Anne concordou, estudando o mapa. "Mas a avenida principal é larga o suficiente para que possamos nos mover mais rápido e evitar armadilhas. Além disso, se precisarmos nos esconder, há vários prédios ao longo do caminho."
"Podemos usar as laterais dos prédios para nos movimentar," Marta sugeriu. "Isso nos daria alguma cobertura."
David, que estava ouvindo a conversa, se aproximou. "Vocês estão certos. A avenida principal pode ser arriscada, mas também é a melhor chance que temos de chegar ao hospital rapidamente. Se ficarmos muito tempo nas ruas laterais, corremos o risco de sermos emboscados."
"Então é isso," Anne decidiu. "Seguimos pela avenida principal, mas ficamos atentos para qualquer sinal de perigo. Se algo der errado, podemos recuar e tentar outra rota."
Todos concordaram, cientes dos perigos que enfrentariam. Eles se prepararam rapidamente, recolhendo os suprimentos e verificando as armas improvisadas. O clima de incerteza pairava sobre o grupo, mas a necessidade de agir os impelia para a frente.
"Prontos?" David perguntou, a mão já no trinco da porta.
Anne e os outros assentiram. O grupo se posicionou, com David e Anne à frente, seguidos por Marta, Paulo, e Júlia, que mantinha-se próxima de Anne. O homem ferido, que agora sabiam chamar-se Marcos, estava na retaguarda, apoiado em Paulo, que o ajudava a andar.
Quando David abriu a porta, a luz do amanhecer iluminou a rua à frente. O cenário que os aguardava era desolador — veículos abandonados, escombros espalhados, e sinais de luta por toda parte. Mas, por ora, não havia sinais de contaminados.
"O caminho está limpo," David murmurou, aliviado. "Vamos aproveitar enquanto podemos."
Eles começaram a andar, os passos rápidos mas silenciosos, cada um atento a qualquer som ou movimento. A cidade ao redor parecia morta, mas isso não trazia conforto. O silêncio era pesado, quase opressivo, e todos sabiam que a qualquer momento, o inferno poderia se soltar novamente.
À medida que avançavam pela avenida, o grupo manteve-se próximo às paredes dos prédios, prontos para se abrigar se necessário. A tensão estava alta, mas cada passo os aproximava do hospital e da possível salvação que ele representava.
Júlia, que até então estava calada, finalmente quebrou o silêncio. "O que faremos se não encontrarmos nada no hospital?" perguntou, sua voz trêmula.
Anne, que estava ao lado dela, olhou para a jovem. "Vamos encontrar algo," respondeu, tentando passar confiança. "Seja suprimentos, informações, ou um lugar seguro para descansar. Não podemos pensar no pior agora."
David ouviu a troca e interveio. "O importante é que estamos juntos. Encontraremos uma maneira de sobreviver, mas precisamos manter a calma e focar no que está à nossa frente."
O grupo continuou avançando, mantendo-se firme na avenida. Quando finalmente avistaram o hospital ao longe, a estrutura maciça destacava-se contra o céu, uma lembrança da vida que uma vez existiu antes do caos.
"Ali está," Marta disse, apontando para o prédio. "Parece intacto."
"Vamos," David disse, apressando o passo. "Quanto mais rápido chegarmos lá, melhor."
Conforme se aproximavam, o hospital parecia ainda mais imponente. As portas de vidro na entrada principal estavam estilhaçadas, mas o interior parecia intacto. Não havia sinal de movimento dentro, o que podia ser um bom ou mau presságio.
Anne parou na frente da entrada, olhando para os outros. "Entramos juntos. Fiquem atentos."
Com todos em posição, eles atravessaram as portas quebradas e entraram no hospital. O ar lá dentro era denso, o cheiro de desinfetante misturado com algo mais pungente, como o odor de morte recente. As luzes estavam apagadas, mas a luz do dia que entrava pelas janelas quebradas proporcionava visibilidade suficiente para que pudessem se mover.
"Onde devemos começar?" perguntou Marcos, ainda apoiado em Paulo.
"Vamos direto para a ala administrativa," David sugeriu. "Podemos encontrar mapas do local, além de registros que possam indicar onde estão os recursos."
O grupo concordou, e começaram a se mover pelo saguão, os passos ecoando pelos corredores vazios. Cada sombra parecia ameaçadora, e os ruídos de metal rangendo ao longe mantinham-nos em constante alerta.
Enquanto caminhavam pelo hospital, Anne não podia deixar de sentir uma pontada de esperança. Se encontrassem algo útil ali, poderia ser o que precisavam para finalmente ter uma chance de escapar daquela cidade devastada. Mas, ao mesmo tempo, ela sabia que o verdadeiro teste estava apenas começando.
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Atualizado até capítulo 62
Comments
Lyam
Só me da vontade de ler isso de noite
ai o suspense me mata de medo
2024-10-06
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