O silêncio da noite parecia pesado, como se a própria cidade estivesse prendendo a respiração, aguardando o próximo movimento de Anne e David. A escuridão do lado de fora do prédio os envolvia, mas dentro da sala onde se abrigavam, uma sensação de esperança crescia lentamente, alimentada pelos suprimentos que haviam encontrado e pelo plano traçado para escapar da cidade.
David estava sentado no chão, recostado contra a parede, seus olhos semicerrados enquanto tentava descansar. Anne, por outro lado, estava de pé perto da janela, observando o horizonte escuro. Ela se pegava pensando em tudo que haviam passado até ali, e em quantos desafios ainda os aguardavam.
"Você acha que podemos fazer isso?" Anne quebrou o silêncio, sem tirar os olhos da janela.
David abriu os olhos e olhou para ela. "O que você quer dizer?"
"Sobrevivermos", ela respondeu, finalmente virando-se para encará-lo. "Sair daqui, encontrar um lugar seguro... reconstruir nossas vidas."
David suspirou, sentindo o peso da pergunta. "Eu... não sei, Anne. Mas o que mais podemos fazer? Se desistirmos agora, tudo o que passamos até aqui não terá valido a pena."
Ela assentiu, compreendendo a lógica por trás das palavras dele. "É só que... às vezes parece impossível. Essa cidade, tudo o que aconteceu... é difícil ver uma saída."
"Eu sei", David respondeu, levantando-se e se aproximando dela. "Mas já passamos por coisas difíceis antes. E cada vez que sobrevivemos, provamos que somos mais fortes do que pensávamos."
Anne sorriu levemente, apreciando o otimismo de David, mesmo que ela mesma se sentisse desanimada. "Talvez você esteja certo. Talvez possamos fazer isso."
David colocou a mão no ombro dela, apertando-o levemente em um gesto de conforto. "Vamos fazer isso, Anne. Vamos sobreviver. Não só por nós, mas por todos aqueles que não conseguiram."
O compromisso silencioso entre eles era firme, mas os dois sabiam que as palavras, por mais encorajadoras que fossem, não seriam suficientes para protegê-los dos perigos que enfrentariam ao sair daquele prédio.
"Descanse um pouco, Anne", David sugeriu, voltando para o canto onde haviam espalhado alguns cobertores finos que encontraram no armazém. "Amanhã será um dia longo."
Ela hesitou por um momento, mas acabou concordando. Precisavam estar em sua melhor forma para o que viesse. Deitou-se ao lado de David, e os dois se acomodaram o melhor que puderam, tentando ignorar os ruídos distantes que continuavam a vir das ruas lá fora.
Enquanto o sono lentamente a envolvia, Anne pensava na jornada que os aguardava. Sabia que o desafio de deixar a cidade era apenas o começo. A escuridão da noite escondia muitos perigos, mas, pela primeira vez em dias, ela se permitiu acreditar que poderiam ter uma chance de sobreviver.
Ela fechou os olhos, desejando que o amanhecer trouxesse não apenas luz, mas também um pouco de esperança para guiar seus passos na escuridão.
Anne acordou com um sobressalto, o coração batendo forte no peito. A escuridão ainda envolvia o quarto, mas algo havia mudado. O silêncio opressor da noite havia sido quebrado por um som distante e perturbador — como um grito, ecoando pelas ruas abandonadas da cidade. Ela piscou algumas vezes, tentando se ajustar à escuridão, e percebeu que David já estava de pé, alerta, ouvindo atentamente.
“O que foi isso?” Anne sussurrou, levantando-se e se juntando a ele perto da janela.
David balançou a cabeça, seus olhos fixos na rua abaixo. “Não tenho certeza, mas não parece ser apenas um contaminado... foi um grito humano.”
Anne franziu o cenho, tentando entender. “Você acha que pode ser outro sobrevivente?”
“Talvez,” David respondeu, mas sua expressão era cautelosa. “Ou pode ser uma armadilha.”
A ideia de outros sobreviventes na cidade era tanto encorajadora quanto assustadora. Depois de tudo o que haviam passado, confiar em outros era arriscado. Mas ao mesmo tempo, se havia pessoas vivas lá fora, eles não podiam simplesmente ignorá-las.
“Devemos verificar?” Anne perguntou, sabendo que, apesar do medo, ela não conseguiria simplesmente ficar parada ali.
David hesitou por um momento, mas finalmente assentiu. “Vamos, mas com cuidado. Não podemos nos dar ao luxo de cometer erros agora.”
Eles pegaram suas mochilas, agora mais pesadas com os suprimentos recém-adquiridos, e verificaram as armas improvisadas que tinham — uma chave de fenda para Anne e o canivete para David. Sabiam que essas ferramentas seriam de pouco uso contra um contaminado, mas era o melhor que tinham no momento.
Desceram a escada em silêncio, cada passo meticulosamente calculado para evitar fazer barulho. Ao se aproximarem da porta de aço, que havia os protegido na noite anterior, David colocou o ouvido contra ela, tentando captar qualquer som do outro lado. Tudo estava quieto.
Ele fez um sinal para Anne, indicando que iriam sair, e ela assentiu, já se preparando mentalmente para o que poderia encontrar lá fora. David abriu a porta lentamente, apenas o suficiente para espiar. A rua estava vazia, mas o ar estava carregado de uma tensão palpável.
Eles saíram do prédio, mantendo-se próximos às sombras, e começaram a seguir o som que haviam ouvido. Conforme avançavam, o grito se repetiu, mais claro desta vez, vindo de uma rua lateral à sua esquerda. Anne e David trocaram um olhar de preocupação, mas seguiram em frente, sem desviar o caminho.
Chegando à esquina, eles se depararam com uma cena perturbadora. Um grupo de pessoas estava sendo cercado por contaminados, que se moviam com uma agilidade assustadora, avançando sobre os sobreviventes que tentavam desesperadamente se defender. Os gritos que haviam ouvido eram de desespero, enquanto o grupo tentava se proteger com pedaços de madeira e pedras.
“Temos que ajudá-los!” Anne disse, já se preparando para correr em direção ao grupo.
“Espera!” David a segurou pelo braço, forçando-a a parar. “Precisamos ser inteligentes sobre isso. Se corrermos para lá, seremos pegos também.”
Ela sabia que ele estava certo, mas ver aquelas pessoas sendo atacadas mexia profundamente com seu senso de justiça. “Então o que fazemos?”
David olhou ao redor rapidamente, procurando uma maneira de intervir sem colocar a si mesmos em risco. Seus olhos se fixaram em um carro abandonado próximo, e uma ideia surgiu. “Vamos atraí-los para longe.”
Sem esperar pela aprovação de Anne, ele correu até o carro, abriu a porta e começou a revirar o interior. Encontrou uma chave no porta-luvas e a girou na ignição, esperando que o veículo ainda tivesse um pouco de combustível.
O motor roncou alto, o som quebrando o silêncio da rua como um trovão. Os contaminados, que até então estavam focados em suas presas, se viraram bruscamente, atraídos pelo novo som. David pressionou o acelerador, fazendo o motor rugir ainda mais alto.
“Agora!” David gritou, enquanto os contaminados começavam a se afastar do grupo e correr na direção do carro.
Anne não precisou de mais incentivo. Ela correu em direção aos sobreviventes, que agora tinham uma abertura para escapar. “Corram para o prédio!”, ela gritou, apontando para o edifício de onde tinham saído.
Os sobreviventes, ainda em choque, começaram a se mover na direção que Anne indicava. Um homem ferido tropeçou, quase caindo, mas Anne o ajudou a se levantar, apoiando-o enquanto o guiava para longe dos contaminados que agora se concentravam em David.
David, por sua vez, estava dirigindo o carro lentamente pela rua, mantendo os contaminados distraídos. Assim que viu que Anne e os sobreviventes estavam em segurança, ele acelerou, conduzindo os monstros para longe, antes de pular do veículo e correr de volta para a direção de Anne.
Anne e os sobreviventes chegaram ao prédio, e ela ajudou o último deles a passar pela porta, fechando-a rapidamente atrás de si. O grupo, agora dentro da relativa segurança do prédio, ofegava, tentando recuperar o fôlego e entender o que acabara de acontecer.
David chegou logo depois, com o rosto vermelho e suado, mas aliviado ao ver que todos estavam dentro. “Vocês estão bem?”
Um dos homens, ainda ofegante, olhou para eles com gratidão. “Nós... achamos que não íamos conseguir. Obrigado.”
Anne sorriu, ainda segurando o homem ferido. “Você vai ficar bem. Estamos todos juntos agora.”
David olhou ao redor, contando rapidamente as cabeças. “Quantos de vocês estão feridos?”
“Ele está pior”, uma mulher disse, apontando para o homem que Anne estava ajudando. “Os outros estão exaustos, mas acho que estamos inteiros.”
David assentiu. “Temos alguns suprimentos, vamos ajudar como pudermos.”
Anne levou o homem ferido para o andar superior, enquanto David começou a organizar os outros, distribuindo água e tentando acalmá-los. Sabia que a situação ainda era precária, mas com mais pessoas, talvez tivessem uma chance melhor de enfrentar os desafios que viriam.
Enquanto cuidava do homem ferido, Anne sentiu uma pontada de esperança. O grupo era pequeno e vulnerável, mas agora eram mais do que apenas dois lutando para sobreviver. Talvez, juntos, pudessem encontrar uma maneira de escapar da cidade devastada.
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Atualizado até capítulo 62
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