Anne e David avançaram pelo telhado, tentando não pensar no que deixaram para trás. Cada passo era acompanhado por um zumbido crescente de ansiedade. A noite estava fechada, e o vento parecia sussurrar segredos sombrios sobre a cidade devastada. Ao longe, o som de sirenes e explosões ecoava, misturado com os gritos indistintos de quem ainda lutava para sobreviver.
Eles chegaram à borda do prédio e pararam para observar o terreno abaixo. Uma rua deserta, iluminada apenas por postes piscando, se estendia na frente deles. Do outro lado, havia outro prédio que parecia estar em melhor estado do que os demais.
“Devemos tentar descer?”, Anne perguntou, o medo refletido em sua voz.
David balançou a cabeça negativamente. “É melhor ficarmos aqui por enquanto. Lá embaixo, estaremos mais expostos.”
Ela olhou ao redor, tentando encontrar um lugar que pudesse oferecer algum abrigo. Seus olhos pousaram em uma estrutura metálica, possivelmente uma antiga torre de ventilação.
“Acho que podemos nos esconder ali”, sugeriu ela, apontando.
David seguiu o olhar de Anne e assentiu. “Parece bom. Vamos.”
Os dois se moveram silenciosamente pelo telhado, tomando cuidado para não fazer barulho. Quando chegaram à torre, perceberam que era pequena, mas sólida, com espaço suficiente para eles se acomodarem. Anne puxou a porta de metal, que rangeu em protesto, mas se abriu. Eles entraram rapidamente, fechando a porta atrás de si.
O interior da torre era escuro e abafado, mas, pelo menos, estava protegido dos perigos externos. David colocou a mochila no chão e se encostou na parede, deixando escapar um suspiro cansado.
“Não acredito que tudo isso está acontecendo”, disse ele, a voz carregada de cansaço e descrença.
Anne sentou-se ao lado dele, abraçando os joelhos. “É surreal. Há alguns dias, eu estava indo para o trabalho, pensando nas coisas mais comuns... E agora... isso.”
Ela passou a mão pelo cabelo, sentindo a sujeira e o suor acumulados. A realidade do que estavam vivendo ainda parecia um pesadelo do qual ela não conseguia acordar. A cidade que ela amava, as pessoas que conhecia, tudo estava destruído ou perdido. E agora, o futuro era uma incógnita, um borrão de incertezas e perigos.
David, que até então estava calado, quebrou o silêncio. “Anne, você acha que a contaminação pode ser contida?”
Ela balançou a cabeça. “Não sei. Tudo depende de como ela está se espalhando e de quem está por trás disso. Mas, pelo que vimos até agora, parece que o controle foi completamente perdido.”
David olhou para ela, seus olhos cheios de preocupação. “E se não conseguirmos sair daqui? E se...”
“Não vamos pensar nisso agora”, interrompeu Anne, colocando a mão sobre o braço dele. “Precisamos focar em sobreviver, um dia de cada vez. Amanhã, planejamos nossa próxima jogada. Talvez haja alguma comunicação funcionando ainda, ou alguma parte da cidade que esteja menos afetada.”
David assentiu, mas o olhar dele dizia que as palavras de Anne não eram suficientes para dissipar seus medos. Ainda assim, ele forçou um sorriso e mudou de assunto. “E quanto a você? Como está lidando com tudo isso?”
Anne deu de ombros, tentando não parecer tão abalada quanto realmente estava. “Estou... fazendo o melhor que posso. Não é fácil, mas, comparado ao que outras pessoas devem estar passando... acho que não tenho do que reclamar.”
David observou-a por um momento antes de responder. “Você é mais forte do que pensa, Anne.”
Ela sorriu, embora soubesse que suas forças estavam se esvaindo rapidamente. “Só espero que seja o suficiente.”
Eles caíram em um silêncio desconfortável, ouvindo apenas o som abafado do vento lá fora. Anne sabia que precisava descansar, mas o medo e a adrenalina a mantinham acordada. Seus pensamentos vagavam, tentando encontrar algum sentido em meio ao caos.
Depois de alguns minutos, David quebrou o silêncio novamente. “Lembra quando falamos sobre sair da cidade? Antes de tudo isso acontecer?”
Anne riu baixinho, lembrando-se da conversa que haviam tido meses atrás, quando a ideia de deixar a cidade era apenas um devaneio. “Sim, lembro. Pensamos em ir para o interior, construir uma vida tranquila, longe de toda a correria.”
David sorriu com tristeza. “Engraçado como as coisas mudam. Agora, sair da cidade é uma questão de sobrevivência.”
Anne assentiu, refletindo sobre a ironia daquela situação. “Acho que nunca damos valor suficiente às coisas simples... até que elas nos sejam tiradas.”
O silêncio voltou a cair entre eles, mas desta vez, era um silêncio de resignação, de aceitação de que não havia respostas fáceis. A única certeza que tinham era que precisavam continuar lutando.
“David?”, Anne chamou baixinho, após algum tempo.
“Hm?”, ele respondeu, já meio adormecido.
“Você acha que... se tivermos uma segunda chance, conseguiremos reconstruir? Não só a cidade, mas... tudo?”
David abriu os olhos e olhou para ela, vendo a esperança tímida que ainda persistia. “Não sei, Anne. Mas se tivermos uma segunda chance, prometo que farei tudo o que puder para tentar.”
Ela sorriu para ele, apreciando a sinceridade em suas palavras. “Eu também.”
E com essa promessa silenciosa, Anne finalmente se permitiu relaxar um pouco, seus olhos pesados se fechando enquanto ela caía em um sono inquieto. David permaneceu acordado por mais alguns minutos, refletindo sobre tudo o que havia acontecido e sobre o que ainda estava por vir.
Quando finalmente fechou os olhos, a última coisa que passou por sua mente foi a imagem de uma cidade limpa, reconstruída, onde o passado devastador seria apenas uma lembrança distante. Ele sabia que aquele sonho era frágil, mas era tudo o que tinham agora. E isso seria o suficiente para mantê-lo lutando por mais um dia.
Na manhã seguinte, Anne foi a primeira a acordar. A luz do amanhecer filtrava-se pela fenda na porta da torre, iluminando o espaço escuro onde estavam. Ela se espreguiçou lentamente, sentindo as dores acumuladas do dia anterior em seu corpo. Por um momento, pensou que tudo havia sido um sonho ruim, mas ao olhar ao redor, a realidade voltou a se impor.
David ainda dormia, sua expressão mais tranquila do que Anne se lembrava de vê-lo nos últimos dias. Ela decidiu não acordá-lo ainda. Precisava de alguns minutos sozinha para processar tudo.
Levantando-se devagar, ela abriu a porta da torre e saiu para o telhado. A cidade estava silenciosa, como se o caos da noite anterior fosse apenas uma memória distante. Mas ela sabia que a calmaria era enganosa. O perigo ainda estava por toda parte.
Ela respirou fundo, sentindo o ar fresco da manhã, que parecia carregar um pouco da esperança que tanto precisavam. Lá embaixo, as ruas ainda estavam vazias, mas havia sinais de vida aqui e ali — uma fumaça subindo de um edifício distante, o movimento furtivo de alguém nas sombras.
“Bom dia”, a voz de David a surpreendeu.
Anne virou-se e viu que ele estava parado na porta, olhando para ela com um sorriso cansado. “Bom dia”, respondeu ela, tentando sorrir de volta.
“Está tudo bem?”, ele perguntou, se aproximando.
Ela deu de ombros. “Acho que sim. O mais bem que podemos estar, dadas as circunstâncias.”
David assentiu, olhando para o horizonte. “Temos que continuar. Vamos explorar um pouco e ver se encontramos algum lugar mais seguro para nos abrigar, ou pelo menos alguma comida.”
“Concordo”, disse Anne. “Também precisamos pensar em como sair daqui. Não podemos ficar na cidade para sempre.”
Os dois ficaram em silêncio por um momento, contemplando o que o dia poderia trazer. Embora estivessem exaustos, sabiam que não tinham escolha a não ser seguir em frente.
“Acho que devemos procurar pelo norte”, sugeriu David. “Talvez haja menos contaminação naquela direção, e se conseguirmos chegar aos limites da cidade, poderemos encontrar algum veículo.”
Anne concordou. “Certo. Vamos pegar nossas coisas e sair logo.”
Eles voltaram para dentro da torre, pegaram a mochila com os medicamentos e outros suprimentos que haviam coletado, e se prepararam para partir. Anne verificou rapidamente o joelho, que ainda doía, mas não parecia estar gravemente ferido.
“Pronta?”, David perguntou, já com a mochila nas costas.
Anne assentiu, e juntos, eles desceram cuidadosamente para a rua. O silêncio era ainda mais opressor do que na noite anterior, mas a luz do dia oferecia uma falsa sensação de segurança. Eles seguiram pelas ruas desertas, sempre atentos a qualquer movimento.
À medida que avançavam, os sinais de destruição ficavam mais evidentes. Carros abandonados, vitrines quebradas, lojas saqueadas. O cheiro de queimado pairava no ar, misturado com o odor de decomposição que fazia Anne enjoar. Eles tentavam não olhar muito para os corpos espalhados pelo caminho, mas era impossível ignorar o horror do que havia acontecido ali.
“David...”, Anne chamou de repente, parando ao ver algo à frente.
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Atualizado até capítulo 62
Comments
Cecilia geralda Geralda ramos
triste tudo isto ,espero que consigam.
2024-11-22
2
Decapitator
Relendo já!
2024-08-21
1