O mordomo de Lorenzo ergueu uma sobrancelha e me olhou de baixo para cima, um ar de indagação em seu rosto. Eu sorri para ele, tentando evocar a lembrança das minhas visitas cotidianas na mansão. Pareceu funcionar, e o homem esboçou um sorriso sutil.
— Prima, hm? É isso agora que está aprontando, Helena? — disse Alfredo, com um tom de humor mal disfarçado.
Olhei para ele de forma divertida, aliviada por Isabella permanecer dentro do carro. Se ela visse aquele sorrisinho, todo o crédito da minha fala iria por água abaixo.
— Sim, Alfredo. Prima de primeiro grau do vosso patrão Lorenzo — respondi, minha voz carregada de uma falsa doçura.
O homem deu uma gargalhada sonora.
— Meu chefe coloca muita confiança em uma trambiqueira como você, Helena. É muito bom para ser verdade. Não sei o que está inventando dessa vez, mas o senhor Lorenzo não está. Volte mais tarde, e de preferência sem essa história de parentesco. Pode pegar mal para o meu patrão esse tipo de coisa.
Revirei os olhos, tentando manter a paciência. Alfredo sempre foi um dos poucos que sabiam da minha verdadeira natureza, e ele gostava de me lembrar disso.
— Ha-ha, olha para mim, o mordomo Alfredo, todo engraçadinho. Ei, não se esqueça com quem está falando!
— Não acredito que estou levando carteirada de uma ladra — Alfredo retrucou, seu tom provocativo.
— O que? — perguntei, fingindo indignação.
Ele riu novamente, e por um momento, senti a tensão diminuir. Alfredo sabia que eu não era uma ameaça real para Lorenzo, mas também sabia que eu sempre tinha um plano.
— Escute, Alfredo — abaixei a voz, olhando diretamente nos olhos dele. — Só preciso saber de uma informação. E sei que você tem.
Alfredo estreitou os olhos, analisando-me com uma expressão calculista.
— Não era você que estava fazendo esse papel? — ele indagou, e fiquei pensativa demais. Ele sabia demais para um simples mordomo. Muito mesmo.
— Era para você estar sabendo disso? — perguntei, tentando entender até onde iam seus conhecimentos.
— Sou uma pessoa de confiança, diferente de muitos por aí... Mas diga, o que você quer saber? Porém, saiba que toda informação tem seu preço — disse ele, com um sorriso astuto.
Revirei os olhos, reconhecendo a ironia da situação.
— Essa fala é minha — retruquei, um pouco irritada.
— Pelo visto, não é só você que rouba as coisas dos outros por aí — Alfredo respondeu, com um tom provocador.
Respirei fundo, consciente de que precisava manter a calma e a postura.
— Tudo bem. Quanto você quer para me revelar onde Alexsander está agora, nesse momento? E ainda mais: para manter o bico fechado?
Alfredo sorriu, apreciando a oportunidade de negociação.
— Bem, a parte de Alexsander é fácil, sem muitos desafios. Porém, a parte difícil é o silêncio. Sou um empregado comprometido, e se Lorenzo souber que você perguntou, não terei outra alternativa a não ser a verdade. Quer dizer, se você quiser barganhar, isso pode ser mudado.
Revirei os olhos e tirei minha bolsinha, começando a contar o dinheiro que tinha. Sabia que ele não se contentaria com pouco.
— Está bom? — perguntei, mostrando a quantia que tinha.
Alfredo olhou para o dinheiro, depois para mim, com um sorriso irônico.
— Você sabe que não. Isso é apenas um começo.
Suspirei, sabendo que precisava oferecer mais. Lembrei-me de um anel que “achei” por aí, nas festas da vida, um item valioso que eu esperava não ter que usar. Mas estava em uma situação delicada.
— E que tal isso? — perguntei, tirando o anel do dedo e mostrando a Alfredo. Seus olhos brilharam com interesse.
— Agora estamos falando a mesma língua — ele respondeu, pegando o anel e examinando-o de perto. — Alexsander está em um clube exclusivo no centro da cidade, chamado Red Velvet Room. Um lugar discreto, onde ele pode fazer seus negócios sem ser perturbado.
Assenti, absorvendo a informação.
— E o seu silêncio?
— Considero o anel um pagamento justo pelo silêncio — disse ele, guardando o anel no bolso. — Mas lembre-se, Helena, estamos quites. E cuidado, esse jogo é perigoso. Você está lidando com gigantes, e se Alexsander sonhar que você anda o espionando, ele pode te esmagar em um segundo.
Sorri com um toque de ironia, tentando manter minha compostura.
— Ele não parecia tão perigoso hoje de manhã.
Alfredo riu, mas seu olhar permaneceu sério.
— Não subestime Alexsander. Ele tem um jeito de esconder sua verdadeira natureza. Muitos já cometeram o erro de achá-lo inofensivo. Não se deixe enganar pelas aparências.
— Não entendo esse terror psicológico — retruquei, tentando manter a calma.
— Você não precisa entender, sua ratinha. Ele é mestre em manter as aparências. Você acha que alguém chega onde ele chegou sendo apenas charmoso? A fachada é para os desavisados. Mas eu já o vi destruir pessoas com um sorriso no rosto. Se ele souber que você está mexendo com os negócios dele, vai desejar nunca ter cruzado o caminho dele. Considere o conselho uma cortesia da casa, como uma gentileza. Mas não se esqueça dessas palavras, porque o preço pode ser muito mais que um anel. E não será eu que vai cobrar.
Engoli em seco, sentindo um calafrio percorrer minha espinha. Pensei no relógio de Benjamin, lembrando que já estava ferrada de qualquer maneira.
— Boa noite, Alfredo. Foi ótimo fazer negócio com você.
— Boa sorte, Helena. Vai precisar — disse ele, com um sorriso que não chegava aos olhos.
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Atualizado até capítulo 93
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