Respirei fundo, tentando manter a calma enquanto as palavras de Lorenzo ecoavam na minha mente. Ele havia mencionado que a festa seria uma oportunidade para encontrar potenciais clientes. Talvez Benjamin fosse uma dessas referências. Quem sabe?
Ainda assim, eu não podia me permitir baixar a guarda. Algo não estava certo ali.
Afastei-me dele, sentindo o tecido sedoso do meu vestido preto deslizar suavemente contra a pele. Com um gesto hábil, ajeitei as dobras do tecido, garantindo que minha aparência permanecesse impecável.
— Desculpe, senhor. Ainda não entendo o que você quer com isso — declarei, mantendo minha postura elegante e firme. Meus olhos encontraram os dele, transmitindo uma mistura de curiosidade e cautela. — O que precisa de mim?
Benjamin permaneceu imóvel, mas seu olhar mantinha o mesmo brilho intrigante.
— Pelo visto você não se lembra de mim, Helena. Eu achei que a memória dos ladrões fosse melhor. Pois bem, deixe-me recordá-la. Mas antes... — Ele estendeu a mão em um gesto convidativo. — Vamos nos sentar. Acho que é mais confortável assim.
Senti uma pontada de surpresa diante de suas palavras. Será que ele sabia mais do que eu imaginava? Com cautela, aceitei sua oferta e me sentei em uma das cadeiras próximas, mantendo minha guarda alta.
Então, com um gesto elegante, ele retirou do bolso um objeto que reluzia à luz dos lustres. Era um relógio ornamentado, com detalhes intricados que capturavam os raios de luz, fazendo com que parecesse um tesouro precioso.
Um arrepio percorreu minha espinha ao reconhecer a peça. A lembrança daquela noite retornou de forma nítida: eu o "peguei emprestado" de um jovem desavisado em uma festa da alta sociedade. Naquela ocasião, ele era apenas uma presa em meio à multidão, tão distante da elegância de Benjamin. Eu o envolvi em uma dança sedutora, usando meu charme para conquistar não apenas a joia, mas também sua confiança. Depois, desapareci na escuridão da noite, levando consigo o relógio como lembrança de minha astúcia.
No entanto, essa história pertencia ao passado, quando eu ainda era jovem demais para lembrar de rostos. O fato de Benjamin agora possuir esse relógio levantava questionamentos desconfortáveis: seria mera coincidência ou ele sabia mais sobre mim do que eu imaginava?
Benjamin ergueu uma sobrancelha, observando-me com uma expressão intrigada.
— E agora, você se lembra de mim, D.N.? — sua voz era suave, mas carregada de mistério.
Mantive meu sorriso, tão meticulosamente elaborado para ocultar qualquer indício de reconhecimento.
— Eu nunca vi essa peça na minha vida. De quem é? Sua? — perguntei, enquanto minha mente revivia a noite em que me apropriei daquele relógio. Uma lembrança fugaz de como eu o havia conquistado e vendido para obter uma quantia considerável de dinheiro ressurgiu, embora eu soubesse que agora ele tinha encontrado seu dono original.
Apesar da minha curiosidade em saber como Benjamin o recuperou, eu mantive minha postura inabalável, sem demonstrar interesse além do necessário. Afinal, na vida de um ladrão, é essencial não revelar seus segredos tão facilmente.
Benjamin recolocou o relógio cuidadosamente em seu bolso, como se estivesse guardando um segredo precioso.
— Sinto muito que não lembre, mesmo que te mostrando algo concreto — ele murmurou, com um brilho malicioso nos olhos. — Mas eu lembro. Me lembro de cada detalhe daquela noite. Seu sorriso, seus olhos... e como me senti quando você estava em meus braços. Foi uma experiência única, Helena. Uma que jamais esquecerei.
Sua mão, quente e firme, encontrou meu rosto, tocando-o com uma suavidade que contradizia suas palavras ousadas.
— Ah, Helena, me doeu mais sua partida do que a perda do relógio. Relógios assim eu compro aos montes, mas encontrar alguém como você... isso é algo raro, precioso.
Uma risada borbulhou dentro de mim, mas consegui contê-la, mantendo uma expressão neutra diante de suas palavras poéticas e melodramáticas.
— Eu sei que parece surpreendente alguém como eu se interessar por uma trambiqueira como você — ele disse, seu tom carregado de um sarcasmo velado. — Mas os caminhos da vida são imprevisíveis, não é mesmo? E agora, parece que nossos destinos se entrelaçaram novamente. Temos um objetivo comum.
— Temos? — perguntei, minha voz suave, mas carregada de um desafio sutil.
Benjamin sustentou meu olhar por um momento antes de responder, sua expressão séria.
— Sim. Quero que você seduza Alexsander como fez comigo e acabe com o relacionamento dele com Isabella. Não quero ver aqueles dois juntos nunca mais. Faça ela ter ranço dele, e o pinte como crápula. Destrua aquilo que chamam de noivado.
Um sorriso irônico dançou em meus lábios enquanto eu o encarava.
— Por que eu acabaria com algo tão bonito quanto o amor deles? — questionei, deixando minha mão vagar até sua gravata, enquanto mantinha o contato visual. — Quando nós podemos ter o nosso? — eu blefei, tentando sair daquela situação.
Ele riu suavemente, sua voz ecoando como um sussurro no ar.
— Eu até acreditaria em você há uns anos atrás. Mas seu coração não tem espaço para amar ninguém além dos seus disfarces. Você quase me convenceu — retirou gentilmente minha mão de sua gravata — Pois bem, faça isso, e será bem paga. Das melhores formas que imaginar.
— E se eu não aceitar? — questionei, desafiadora.
Benjamin inclinou a cabeça, seu olhar ganhando uma intensidade perigosa.
— Eu revelo para todos quem você é, acabo com sua vida e não haverá Lorenzo no mundo para te proteger de mim. Você já me enganou uma vez, Helena. Tem uma dívida comigo. Agora, é sua vez de pagar.
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Atualizado até capítulo 93
Comments
Sandra Regina
Muito bom 👏❤️
2024-06-06
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