Eu me olhava no espelho, pensativa. Os olhos cansados refletiam a noite mal dormida, evidenciada pela base e o batom que não foram suficientes para disfarçar as olheiras. Os brincos de ouro e o colar de pérolas, que costumavam dar um toque de elegância, hoje pareciam pesos que me puxavam inexoravelmente para o centro da terra.
Na minha bolsa, eu carregava o maior peso do mundo. O relógio de Benjamin, uma peça antiga e valiosa, estava guardado lá dentro, pulsando como um símbolo de mau presságio. Cada tic-tac parecia ecoar a ameaça que pairava sobre mim.
Eu não podia simplesmente vendê-lo por um bom preço. O relógio não era apenas um objeto; era um emblema de uma dívida impagável. As palavras de Benjamin ressoavam na minha mente, claras como cristal.
"Você já me enganou uma vez, Helena. Tem uma dívida comigo. Agora, é sua vez de pagar." Sua voz tinha um tom inconfundível de ameaça, um mandato de dívida que eu sabia ser inescapável.
Ele reivindicava algo a que eu não poderia dizer não. A pressão em meus ombros crescia, e o peso da responsabilidade parecia dobrar minha coluna. Como eu poderia dizer não, sabendo que tudo estava em risco?
A sala ao redor parecia sufocante. As paredes brancas e impessoais do banheiro não ofereciam consolo. Olhei para a janela entreaberta, ouvindo os sons distantes da rua. Cada decisão, cada movimento, tinha um impacto imenso. Precisava encontrar uma saída, mas qual?
Com um suspiro profundo, fechei a bolsa, sentindo o frio metal do relógio contra meus dedos. Não havia escolha fácil, e o tempo estava contra mim. A única coisa certa era que eu precisaria enfrentar Benjamin mais uma vez, e desta vez, não haveria margem para erro.
Saindo do banheiro, respirei fundo e me preparei para o que viria a seguir. O encontro com Lorenzo. Seu escritório ficava no fim de um longo corredor, decorado com quadros antigos e móveis de madeira escura que exalavam uma atmosfera de poder e tradição. Ele não havia pedido minha presença; ele a ordenara, exigindo que eu fosse até ele para organizar os detalhes do plano de Alexsander.
Alexsander.
O mero som do nome fez meus olhos revirarem de exasperação. Por que tantos se sentiam ameaçados por ele? Dois homens, que fingiam ser seus amigos, eram os mais desconfiados. Cada vez que falavam sobre Alexsander, seus olhares se estreitavam e seus tons se enchia de suspeita. A falsa camaradagem era palpável.
Isso me deixava quase curiosa. Quem era realmente Alexsander? O que havia nele que despertava tanto medo e desconfiança? E por que Lorenzo, sempre tão calculista, estava tão determinado a envolvê-lo em seus planos?
Cheguei à porta do escritório de Lorenzo e bati duas vezes, tentando esconder o nervosismo que crescia dentro de mim.
— Entre — ele disse, sua voz grave e firme como sempre. Ao abrir a porta, fui recebida pela visão de Lorenzo sentado atrás de sua imensa mesa de mogno, cercado por pilhas de documentos e uma imagem de autoridade incontestável. A luz do sol, filtrada pelas pesadas cortinas de veludo, lançava sombras dançantes sobre seu rosto, destacando os vincos de preocupação que se aprofundavam a cada dia.
Ele era doce como uma brisa de verão, beijando seu rosto. Mas depois, o calor queimava como o inferno, as labaredas da angústia consumindo sua alma. Cada palavra, cada gesto, era meticulosamente calculado, como peças de um tabuleiro de xadrez onde cada movimento poderia significar a diferença entre a vitória e a derrota.
Não se engane. Por trás da fachada de cordialidade e confiança, Lorenzo era um homem sem escrúpulos, dono de um grande negócio de drogas. Sua presença preenchia a sala, impondo respeito e submissão a todos que tinham a audácia de cruzar seu caminho.
— Bom dia, minha cara. Vejo que teve uma noite boa. Percebi que você saiu cedo da festa ontem. Alguma festividade especial? — Lorenzo perguntou, sua voz suave, mas carregada de uma curiosidade calculada que deixava claro que ele estava sempre um passo à frente.
Mantive a compostura, escondendo cuidadosamente os vestígios da noite tumultuada anterior. Eu não iria contar a ele sobre os eventos com Benjamin e suas ameaças implícitas. Lorenzo não podia me ajudar, nem se ele quisesse. Eu só não podia permitir que isso interferisse na missão que ele me pagava para realizar.
— Ah, sim, a festa foi divertida, mas precisei sair mais cedo. Tive outras coisas para resolver. Mas não se preocupe, aqui estou eu, certo? Não irei fugir. Eu dei a minha palavra. — Respondi, tentando manter um tom leve, embora a tensão dentro de mim fosse palpável.
Lorenzo riu, mas pude detectar um toque de ironia em sua voz.
— É claro que confio na sua palavra, por mais que você seja minha rainha favorita do trambique. Sua palavra vale ouro para mim, Helena. — Ele disse, seu sorriso revelando mais do que suas palavras expressavam.
Ouro falsificado, ele quis dizer.
Eu me limitei a sorrir, disfarçando qualquer indício de desconforto, e me sentei à mesa.
— Então vamos ao trabalho, não? Você ainda precisa me explicar como quer que isso seja feito. — Acrescentei, desviando a conversa para o assunto em questão.
Lorenzo assentiu, inclinando-se para frente para começar a delinear os passos do seu plano. Eu o observei atentamente, cada palavra sua ecoando em minha mente enquanto eu me preparava para mais uma rodada de gato e rato. Eu só esperava não morder o queijo tão facilmente.
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Atualizado até capítulo 93
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