O relógio já marcava a madrugada quando cheguei à casa de Sofia Mendes, meu coração batia forte no peito enquanto eu girava em volta da porta, sem saber o que dizer ou fazer. O que direi a ela a essa hora da noite? E se Pedro estiver lá? A simples ideia me fazia ferver de raiva, mas eu não podia permitir que minha emoção tomasse conta de mim. Se alguém aparecesse e me perguntasse o que estava fazendo aqui, eu não saberia o que responder. Nunca antes uma mulher me levou a uma situação tão desconcertante. A incerteza e a tensão pairavam no ar, enquanto eu lutava para encontrar coragem para bater à porta.
Enquanto eu dava voltas em frente à porta, senti os passos se aproximando de dentro da casa. Um arrepio percorreu minha espinha e, instintivamente, me afastei e me escondi na sombra de uma árvore próxima. Observando em silêncio, vi Sofia acompanhar Pedro Silva até a porta. Eles se despediram com um aperto de mão, e Pedro se afastou, desaparecendo na escuridão da noite.
Sofia permaneceu por um momento no limiar da porta, seu olhar perdido na escuridão para onde Pedro se dirigia. Seus pensamentos pareciam distantes, como se estivesse imersa em reflexões profundas. Foi então que ela se virou para entrar em casa, fechando a porta lentamente.
Nesse instante, decidi agir. Com determinação, coloquei o pé entre a porta, surpreendendo-a quando seus olhos se encontraram com os meus. Uma expressão de choque se espalhou por seu rosto, seus lábios entreabertos em surpresa. Eu podia sentir a tensão no ar enquanto ela processava minha presença ali, naquela hora da noite.
"Daniel? O que está fazendo aqui a essa hora?", ela perguntou, sua voz carregada de perplexidade e um leve toque de preocupação.
Respirei fundo, tentando reunir minhas palavras em meio à turbulência de emoções que me dominava. "Precisava falar com você, Sofia. É importante", respondi, minha voz soando mais firme do que eu me sentia por dentro.
Ela franziu o cenho, seu olhar fixo no meu. "A essa hora da noite? Sobre o que se trata?"
Senti a urgência de explicar, de desvendar os mistérios que me assombravam desde o confronto na fronteira com os Kilassas. "Sobre o que aconteceu na fronteira. Sobre nós", murmurei, lutando para encontrar as palavras certas para expressar a confusão e a intensidade de meus sentimentos.
Sofia ouvia em silêncio, seu rosto expressando uma mistura de surpresa, preocupação e talvez um toque de medo. Eu não podia culpá-la por se sentir assim; afinal, eu havia invadido sua privacidade de maneira abrupta e agressiva. Mas eu precisava de respostas, e não podia deixar que nada nem ninguém me impedisse de obtê-las.
"Daniel, por favor, você precisa entender..." Sofia começou, sua voz suave tentando acalmar minha raiva.”
"Entender o quê?" Eu a interrompi, minha voz carregada de frustração. "Eu não entendo nada, Sofia! Você desaparece quando mais preciso de você, e agora, o que? Está aqui com o filho do Coronel? O que está acontecendo?"
"Queres mesmo falar sobre desaparecer? Daniel cresce e aparece. Quando eu mais precisei de ti, você desapareceu como um vento, isso é que você sabe fazer com toda perfeição, desaparecer quando aqueles que te amam precisam de ti", as palavras de Sofia atingiram-me em cheio, ecoando em minha mente como um sinal de culpa que eu não queria admitir.
"Não Sofia", murmurei, desviando o olhar, incapaz de encará-la.
Sofia respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas para acalmar minha raiva e responder às minhas perguntas incisivas. Seus olhos transmitiam uma mistura de tristeza e determinação enquanto ela buscava uma maneira de explicar a situação.
"Daniel, eu entendo que você esteja confuso e frustrado", começou ela, sua voz suave tentando encontrar um tom reconfortante. "Mas há muitas coisas que você precisa saber, e eu quero que você me dê a chance de explicar."
Eu a encarei, sentindo-me vulnerável e exposto diante dela. A turbulência de emoções dentro de mim era quase palpável, mas eu sabia que precisava ouvir o que Sofia tinha a dizer.
"Eu sei que minha presença durante o confronto na fronteira pode ter sido decepcionante para você", continuou Sofia, sua expressão mostrando compaixão. "Mas eu estava lá para garantir que ninguém se machucasse, estava apenas mediando o vosso conflito. Alguém tinha que acalmar os ânimos e evitar uma tragédia."
Essas palavras me fizeram reconsiderar minha raiva inicial. Talvez Sofia estivesse certa; talvez eu estivesse interpretando mal sua presença no confronto.
"Quanto a Pedro...", Sofia hesitou por um momento, como se estivesse ponderando sobre como explicar. "Nós temos uma longa história juntos, Daniel. Não é um relacionamento romântico. Conheci o Pedro na faculdade, em Benguela. Fomos colegas e quando eu percebi que ele era do Bengo, meu conterrâneo, nos aproximamos e temos uma amizade que vem de anos de convivência e respeito mútuo."
A revelação sobre a amizade entre Sofia e Pedro mexeu comigo. Eu queria acreditar nela, mas uma parte de mim ainda estava cética.
"Eu sei que é difícil de aceitar", continuou Sofia, sua voz suave e reconfortante. "Mas eu prometo a você, Daniel, que não há nada entre mim e Pedro além de amizade."
Aquelas palavras pareciam sinceras, mas uma pergunta ainda martelava em minha mente, uma dúvida que eu precisava esclarecer.
"Quais são essas cenas que tem de fazer de noite?", questionei, buscando uma resposta direta.
Sofia hesitou por um momento, seu olhar encontrando o meu com uma intensidade que me deixou inquieto. "São assuntos da fazenda dele, Daniel. Pedro pediu minha ajuda para resolver alguns problemas que surgiram recentemente. São questões técnicas e relacionados ao tipo do do nosso trabalho que exigem atenção imediata."
Suas palavras pareciam plausíveis, mas eu ainda sentia uma pontada de desconfiança. "E por que precisam ser resolvidas à noite? Não poderiam esperar até o amanhecer?"
Sofia suspirou, seu rosto exibindo uma expressão de resignação. "Há certos assuntos que precisam ser tratados com urgência, Daniel. Às vezes, não podemos escolher o momento mais conveniente para lidar com eles."
Aquelas palavras me deixaram pensativo. Eu queria acreditar em Sofia, mas havia algo em toda essa situação que ainda não fazia sentido para mim. Eu precisava de mais tempo para processar tudo o que ela havia me dito, mas uma coisa era certa: eu não podia ignorar o que estava acontecendo ao meu redor.
Sofia permaneceu em silêncio por um momento, seus olhos buscando os meus em busca de respostas. O silêncio entre nós era pesado, carregado de tensão e expectativa. Finalmente, ela assentiu, abrindo espaço para que eu entrasse.
Sofia olhou nos meus olhos, esperando que minhas dúvidas e incertezas fossem dissipadas. Havia uma tristeza em seu olhar, como se ela estivesse consciente de que nossas conversas não resolveriam todas as nossas questões.
"Dani, não há necessidade para ciúmes", disse ela, sua voz suave carregada de emoção. "A nossa amizade é insubstituível."
Suas palavras tocaram meu coração, trazendo um pouco de conforto para a tempestade de emoções que eu estava enfrentando.
"Não é ciúme, Sofia", murmurei, sentindo um nó se formar em minha garganta. "Mesmo que eu não entenda tudo o que está acontecendo, eu quero que você saiba que pode contar comigo."
Sofia sorriu, um sorriso triste e cheio de gratidão. Ela se aproximou e me abraçou, envolvendo-me em seus braços calorosos.
"Obrigada, meu amigo", sussurrou ela, sua voz suave ecoando em meus ouvidos. "É bom ter você."
Nosso abraço durou apenas alguns instantes, mas foi o suficiente para transmitir toda a nossa conexão e afeição mútua. Quando nos separamos, eu vi um brilho de esperança nos olhos de Sofia, uma promessa silenciosa de que superaríamos juntos todos os desafios que estavam por vir.
"Boa noite, Sofia", murmurei, sentindo-me relutante em me afastar dela.
"Boa noite, Daniel", respondeu ela, seu sorriso suave iluminando seu rosto.
Com um último olhar, nos despedimos e Sofia fechou a sua porta. Enquanto eu sentei ali fora me corroendo por dentro.
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Atualizado até capítulo 61
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