Entrada da Fazenda Quilombo
O sol escaldante queimava minha pele enquanto eu dirigia pela estrada poeirenta rumo à fazenda Quilombo. A viagem havia sido longa e árdua, mas não mais difícil do que enfrentar as memórias e os fantasmas que assombravam meus pensamentos. Enquanto o carro avançava, o peso do passado parecia se acumular nos meus ombros, cada quilômetro percorrido me aproximando mais da fazenda que um dia chamei de lar.
Ao adentrar a pequena comunidade de Kandumba, onde o tempo parecia ter parado em sua simplicidade e autenticidade, uma mistura de nostalgia e apreensão inundou meu coração. A vista do posto médico, da pequena escola e da modesta capela despertou lembranças há muito adormecidas, lembrando-me de uma época em que a vida parecia mais fácil e menos complicada.
Respirei fundo e estacionei o carro em frente à casa principal da fazenda. Meu olhar percorreu os campos verdejantes e os bosques de acácias que cercavam a propriedade, cada árvore e cada pedra carregando histórias e segredos que apenas eu conhecia. Era estranho retornar depois de tantos anos e encontrar tudo exatamente como deixei, como se o tempo tivesse congelado na minha partida.
Ao entrar na casa, fui recebido pelo silêncio pesado e pela atmosfera carregada de emoções não ditas. Minha mãe, Maria, me olhou com olhos cheios de dor e ressentimento, as rugas em seu rosto contando a história de anos de solidão e desgosto. Ao seu lado, meu irmão mais velho, Miguel, permanecia em silêncio, sua expressão taciturna revelando a dor e o peso das responsabilidades que agora recaíam sobre ele.
Nosso reencontro foi marcado por uma tensão palpável, as palavras não ditas pairando no ar como uma nuvem escura. As memórias dolorosas do passado ressurgiram, como fantasmas que se recusavam a serem esquecidos, enquanto eu lutava para encontrar as palavras certas para quebrar o gelo que se formara entre nós.
O calor sufocante do final da tarde envolvia a sala principal da casa da fazenda Quilombo enquanto eu, minha mãe Maria e meu irmão Miguel nos reuníamos para uma conversa há muito adiada. O ar estava carregado de tensão, como se cada palavra que fosse proferida pudesse desencadear uma tempestade de emoções que nenhum de nós estava preparado para enfrentar.
"Mãe", comecei, sentindo o peso das palavras em minha língua, "eu sei que minha partida foi difícil para a senhora, papai e para o Miguel, mas foi necessária para mim. Eu só espero que possamos deixar o passado para trás e seguir em frente juntos."
Os olhos de minha mãe se encheram de lágrimas enquanto ela desviava o olhar, incapaz de me encarar diretamente. "Você não sabe, Daniel", ela murmurou, sua voz embargada pela emoção. "Você não sabe como foi difícil para nós ficarmos aqui, esperando por você, enquanto você escolhia outra vida."
Engoli em seco, lutando para conter as lágrimas que ameaçavam transbordar. "Eu sei, mãe", respondi, minha voz falhando um pouco. "E eu sinto muito por ter causado tanto sofrimento. Mas eu não posso mudar o passado. Só posso tentar fazer as coisas certas agora."
Meu irmão, que até então havia permanecido em silêncio, finalmente falou, sua voz áspera com emoção contida. "Daniel, nós não sabemos se podemos confiar em você. Você está aqui agora, mas por quanto tempo? Você vai vender a fazenda e desaparecer de novo, como fez da última vez?"
O silêncio que se seguiu às palavras de meu irmão era palpável, pesado como chumbo, carregado de emoções não ditas que pairavam no ar como uma nuvem escura. Eu podia sentir o olhar de minha mãe sobre mim, cheio de expectativa e apreensão, enquanto aguardava minha resposta às acusações de Miguel.
"Miguel, eu entendo suas preocupações", comecei, minha voz mais firme do que eu esperava, mas com um toque de tristeza entremeada. "Eu sei que minha partida causou dor e incerteza para todos nós, mas eu não vim aqui para repetir os erros do passado. Eu vim porque precisamos resolver as coisas, de uma vez por todas, agora que pai morreu."
As palavras saíram de meus lábios com uma sinceridade que eu não sabia que possuía, mas mesmo assim, a desconfiança persistia nos olhos de meu irmão. Ele me encarou por um momento, seu olhar penetrante como uma lâmina afiada, antes de responder com amargura em sua voz.
"Que discurso bonito, Daniel", ele disparou, o sarcasmo pingando de suas palavras como veneno. "Mas como é possível você não nos magoar se fala em vender as terras? Meu Deus, que tipo de pessoa és tu, meu irmão?"
O golpe atingiu-me como um soco no estômago, a dor da desconfiança cortando mais fundo do que eu gostaria de admitir. Engoli em seco, lutando para controlar a raiva e a mágoa que ameaçavam transbordar. "Você acha mesmo que essa decisão foi fácil para mim, Miguel?" retruquei, minha voz tremendo com a intensidade de minhas emoções. "Você acha que eu não sinto a dor de cada centímetro desta terra que está prestes a ser vendida? Mas precisamos encarar a realidade. A fazenda está afundada em dívidas, e se não fizermos algo agora, perderemos tudo o que nosso pai construiu."
Miguel me encarou com uma mistura de incredulidade e desdém, como se não pudesse acreditar que eu estava sendo sincero em minhas intenções. "E você espera que acreditemos que você está fazendo isso por nós? Por favor, Daniel, não insulte nossa inteligência com suas mentiras piedosas", ele disse, sua voz carregada de desprezo.
Um nó se formou em minha garganta enquanto eu lutava para encontrar as palavras certas para responder. Eu sabia que as feridas do passado ainda estavam frescas, que a confiança entre nós havia sido abalada por minhas escolhas e pelo tempo que passei longe. Mas eu não podia recuar agora, não quando tanto estava em jogo.
"Miguel, eu sei que não posso mudar o que aconteceu no passado", comecei, minha voz mais suave agora, carregada de arrependimento e determinação. "Mas eu estou aqui agora, e estou disposto a fazer o que for preciso para consertar as coisas. Nós somos uma família, e precisamos nos unir se quisermos superar isso juntos."
Houve um momento de silêncio tenso enquanto digeríamos as palavras que foram trocadas, as tensões não ditas pairando entre nós como uma nuvem escura. Mas então, como se para nos lembrar das dificuldades que ainda enfrentaríamos, uma observação sombria escapou dos lábios de minha mãe.
"Só não sei quem terá de morrer dessa vez!"
O silêncio que se seguiu à observação sombria de minha mãe foi opressivo, como se estivéssemos todos sufocando sob o peso das palavras não ditas. Eu podia sentir a tensão elétrica no ar, cada um de nós lutando para encontrar as palavras certas para expressar nossas emoções.
"Só não sei quem terá de morrer dessa vez", repetiu minha mãe, sua voz carregada de resignação e tristeza. O impacto de suas palavras reverberou na sala, deixando-nos em um silêncio pesado enquanto ponderávamos sobre o que o futuro poderia trazer. Mas mesmo em meio à incerteza, havia uma sensação de determinação compartilhada, uma disposição para enfrentar os desafios que estavam por vir, juntos.
Foi então que meu irmão, Miguel, que até então havia permanecido em silêncio, explodiu com uma torrente de emoções contidas. "Me diz, Daniel, porque tu faz as coisas desse jeito?" ele disparou, sua voz carregada de raiva e amargura. "Não consultas ninguém, e agora, depois desse tempo todo, apareces aqui como se nada houvesse, pronto para vender a fazenda..."
As palavras dele cortaram como facas afiadas, penetrando fundo em minha alma e deixando uma sensação de angústia e culpa. Eu lutei para encontrar uma resposta, mas as palavras pareciam fugir de mim, deixando-me impotente diante da acusação de meu próprio irmão.
“Miguel, eu sei que minhas ações podem ter causado dor e confusão para todos nós”, comecei, minha voz pesada com a carga de culpa que eu carregava. "Mas eu não vim aqui com a intenção de magoar vocês. Eu vim porque precisamos enfrentar a realidade e encontrar uma solução para os problemas que assolam a fazenda."
Meu irmão me encarou com uma confusão de incredulidade e desdém, como se não pudesse acreditar que minhas palavras eram verdadeiramente verdadeiras. "E quem disse que você tem o direito de decidir o que é melhor para todos nós?" ele retrucou, sua voz áspera com emoção contida. "Você agi como se fosse o único que se importasse com o futuro da fazenda, mas na verdade só pensa em si mesmo."
As palavras de Miguel atingiram-me como golpes físicos, a dor da desconfiança cortando mais fundo do que eu gostaria de admitir. Engoli em seco, lutando para conter a raiva e a mágoa que ameaçava transbordar. "Eu entendo suas preocupações, Miguel", respondi, lutando para manter a calma. "Mas eu não posso simplesmente ignorar a situação em que nos encontramos. Se não fizermos algo agora, perderemos tudo o que nosso pai construiu."
Antes que eu pudesse reunir meus pensamentos e formular uma resposta, minha mãe entrou no meio da discussão, sua voz firme e autoritária cortando o ar como um chicote. "Já chega com isso", ela ordenou, seus olhos faiscando com determinação. "Temos coisas mais importantes para nos preocupar. A fazenda não será vendida, e pronto. Não importa quantos você enviará para cá. A sua presença não mudará nada, meu filho."
As palavras dela foram como um balde de água fria, trazendo-me de volta à realidade e fazendo-me perceber a gravidade da situação. Eu abaixei a cabeça em silêncio, a vergonha e a culpa pesando sobre mim como uma âncora, enquanto lutava para conter as lágrimas que ameaçavam transbordar.
Miguel, por sua vez, parecia chocado com a firmeza de nossa mãe, sua expressão de raiva dando lugar a uma mistura de surpresa e resignação. Por um momento, ele pareceu prestes a protestar, a lançar mais acusações em minha direção, mas então pareceu pensar melhor e se calou, seus olhos desviando-se para o chão em um gesto de derrota.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, cada um de nós imerso em seus próprios pensamentos e emoções. Eu sabia que as feridas causadas por minha partida ainda estavam abertas, que a confiança entre nós havia sido abalada além do reparo. Mas mesmo assim, havia uma sensação de alívio, uma pequena chama de esperança se acendendo em meio à escuridão, nos lembrando que, apesar de nossas diferenças e desavenças, éramos uma família, unida pelo amor e pelos laços de sangue que nos uniam.
Com um último olhar para minha mãe e meu irmão, eu me levantei silenciosamente e fiz meu caminho para o meu antigo quarto, as palavras dela ecoando em minha mente como um lembrete constante do que estava em jogo. E enquanto eu me deitava na cama, olhando para o teto escuro acima de mim, eu sabia que a batalha pela alma da fazenda Quilombo estava longe de terminar, e que o destino de nossa família estava pendurado por um fio.
Enquanto a noite caía sobre a fazenda Quilombo, eu me vi enfrentando um dilema que há muito evitei: o dilema de escolher entre as obrigações do passado e as possibilidades do futuro. E enquanto eu ponderava sobre as escolhas que me aguardavam, uma coisa ficou clara: o retorno do herdeiro não seria apenas uma questão de vender ou manter a fazenda, mas sim uma jornada de autodescoberta e redenção, onde o destino que nos aguardava era tecido pelas escolhas que fazíamos e pelas memórias que carregávamos em nossos corações.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 61
Comments
Jivaldina D'Morais Canga
O Retorno do Herdeiro,em primeiro capítulo que não traz apenas de volta Daniel,mas um passado mal resolvido e com expectativas desafiadoras para o futuro, estou ansiosa para o próximo capítulo ✌️😘
2024-05-20
2