Capítulo 8

E o único homem que você confia nesse momento é alguém que te ajudou na pior hora, mas você não sabe nada dele, e a única coisa que você pode fazer é ter que continuar confiando cegamente, por que você tem medo de sair na rua e ser morta sem nem ter a chance de entender o que fez, ou mesmo se explicar. Afinal, a explicação?

Parece que se perder em um poço de lágrimas é a única coisa que resta para alguém que está perdida.

"Se ao menos ela estivesse aqui, não disso teria acontecido, por que ela me protegeria de tudo e de todos"— A única coisa que Ísis consegue pensar é isso, o quanto ela viveria feliz se sua mãe estivesse ao seu lado. Depois que ela se foi, a vida de Ísis só caiu, e não importa o que ela faça, as pessoas que ela achava que a amavam, se tornam monstros que a machucam e a exploram de alguma forma, ou mesmo se foram.

Ela chora por vários minutos, vivendo sua própria dor, pensando em um turbilhão de motivos que a fizesse desistir da vida triste e miserável que levou desde que sua mãe se foi. Pensava que em algum momento de sua vida pudesse lembrar de quem sua mãe foi, e poder sorrir com as memórias vividas que estão guardadas na sua mente, mas ao contrário disso, a imagem de sua mãe carrega dores, traumas, tristezas sem fim, só lembra o quão infeliz sua vida é, só traz o fato de que todas as noites, ao se lembrar de sua estrela, ela se esvai em lágrimas quando soma todos os maus tratos a memória dela. Nesse momento em que ela se pergunta, se realmente ela nasceu para ser feliz, ou para sofrer até seu último dia. E se esse último dia chegasse antes, pelo menos ela não viveria com a dor imensa dentro do peito.

Em meio ao seu choro e sofrimento contínuo, Ísis ouve batidas na porta, rapidamente enxuga suas lágrimas, não poderia ser Arthur já que ele havia saído dali em menos de meia hora. Qualquer um que não seja alguém que conhece, alguém que não seja Arthur, mais precisamente, ela definitivamente desconfiaria.

As batidas na porta se repetem em um som simpático:

— Senhorita Ísis, posso entrar?

Ao se lembrar de quem a voz pertencia, rapidamente responde quem a chamava:

— Claro, claro, dona Vera, pode entrar.

Senhora Vera, então abre a porta, e com um sorriso adorável diz:

— Filha, trouxe seu jantar, e seus remédios. Fiz uma refeição com muitos temperinhos, e com bastante coisas, e... — Olha para Ísis com atenção— Filha, por que seus olhinhos estão vermelhos, não me diga que estava chorando?— Pergunta em tom de preocupação.

— N.não, não, não é nada dona Vera.— Diz respirando fundo e trazendo o melhor sorriso no seu rosto.

— Ísis— Fala sentando na cama, pegando nas mãos de Ísis e olhando docemente em seus olhos— Você passou por muita coisa, eu sei, que é difícil suportar, mais confie no processo.

— Mas é difícil— Fala caído no choro, depois de tanto segurar.

— É como se o mundo estivesse contra você, não é? É como se a cada degrau de felicidade que você subisse, algo te empurrasse para o fim da escada novamente, e quando você conseguisse subir ao primeiro, voltaria ainda mais calejada, isso?

— Exatamente assim, mais porque comigo? O que eu fiz de tão errado? Como pode, justo eu viver assim, não seria melhor se eu morresse de vez, por que Deus não pode fazer isso por mim?— Diz chorando ainda mais

— Filha, Deus não te abandonou, ele está contigo e desistir da vida não é uma opção, você não quer acabar com a vida, e sim com a dor, entenda isso— Olha com amor para Ísis— Processos nos levam a outros resultados, Deus tem o melhor para ti.

— Eu não consigo mais, eu não aguento mais sofrer, porque que eu tenho que passar por isso? Eu não poderia viver bem e feliz?

— Quem sabe você estar aqui hoje, não seja plano para que você encontre o seu melhor e alguém que possa cuidar e te proteger. Quantas vezes você pediu por alguém que pudesse te tirar do sofrimento? E se finalmente você saiu desse poço e está pronta para ser feliz?

— Mas existem muitas feridas, não sei se suportaria seguir em frente… — Enquanto tenta se acalmar, ela diz pensando a fundo

— Como você disse, são feridas, e feridas sempre se curam, claro, muitas vezes deixam marcas, mas as marcas só mostram o quanto você foi forte, e mesmo em tempos difíceis, seguiu em frente e deixou seu melhor sempre te guiar.

— É... Talvez você tenha razão...

— Sim querida... Mas por hora, estou aqui pelo seu bem estar, coma a comida antes que esfrie. E depois deve tomar os remédios.— Vera procura mudar de assunto para que ela se distraia

— Tudo bem, dona Vera, o jantar está com uma cara ótima.— Fala abrindo um novo sorriso e prestando atenção ao seu jantar.

Ísis aprecia o bom jantar que foi preparado, enquanto dona Vera prepara seu tablet e começa às perguntas:

— Você tem alguma comida que particularmente você não gosta?— Vera pergunta interessada nos gostos de Ísis

— Bom... Não sei, mas por que pergunta?— pergunta confusa.

— Querida, como falei, estou aqui para cuidar de você, então o que você goste ou não, tem que ser considerado. Agora diga, do que especificamente você não gosta?

— Ah, sabe, ninguém nunca se importou saber do que eu gosto, então sempre me obriguei a comer de tudo.— Diz pensativa— Mas existem algumas coisas: xuxu, beterraba, acelga, refogados, tenho certa dificuldade em comer legumes cozidos, como batatas, cenouras, e afins. Mamão, melão ( a não ser que seja suco), figo e principalmente Café, eu tenho uma forte alergia a isso, se eu comer, as consequências são horríveis.

— Minha querida, outras moças, geralmente tem paladar frágil e não gostam muito de alimentos mais sólidos, já você é diferente.

— Poisé, na minha vida eu nunca fui tão mimada ao ponto de ser seletiva com alimentos.— Fala triste

— Pois bem, me conte, como é sua alergia?

— Bom no meu caso, a cafeína tem sintomas comuns de alergia. Tudo começa com um comichão em toda região da minha boca. Depois meu rosto começa a inchar, sem contar da irritação, vermelhidão como se fosse uma urticária na pele. Alguns anos depois do meu diagnóstico, tive também a infelicidade em desencadear sintomas de anafilaxia tive muita dificuldade em respirar, arquejo, aumento da pressão cardíaca, foi a segunda vez na minha vida que cheguei mais perto da morte. — Fala se lembrando do que aconteceu a muito tempo atrás...

— E quando você descobriu?— Lançando um olhar de pena mas ao mesmo tempo de preocupação e interesse.

— Na infância, minha mãe resolveu me dar um pouquinho de café que ela preparava para meu pai, depois de tanto eu pedir, foi meu primeiro contato com cafeína, e foi horrível, mas ainda bem que minha mãe foi atenta e me levou as pressas para o hospital. Recebi o diagnóstico, e logo minha mãe começou a cuidar mais da minha alimentação.— Sorri ao se lembrar do carinho da sua mãe.

— Sua mãe realmente foi um anjo, graças a Deus ela percebeu. Mas como foi a segunda vez da intoxicação?

— Ah, bom, essa vez foi totalmente proposital... Minha madrasta, no início do casamento dela com meu pai, me maltratou pela primeira vez, claro que contei pro meu pai, mas depois tudo se "resolveu". Mais tarde ela me ofereceu doces para se desculpar, e eu na inocência acabei comendo, e o final você já sabe, como a quantia era alta no meu organismo, eu sofri bastante. Fiquei a madrugada inteira tomando intravenosas, e foi horrível.— Fala já chorosa

— Meu Deus... Minha menina, como essa mulher pode ser tão horrível... Imagino seu psicológico depois disso… — Fala enquanto retira a bandeija, já que Ísis havia terminado seu jantar, e segura em suas mãos em forma de transmitir carinho.

— Foi uma fase horrível— Fala se derramando em lágrimas— Eu não conseguia comer em casa, estudava somente na parte da manhã, enquanto as crianças levavam o lanche que suas mães ou mesmo empregadas preparavam com amor, eu só comia a comida esquisita da escola. Quando as crianças perguntavam o porquê, eu apenas dizia que era por que eu gostava do lanche delas, mais era nojento. Depois que eu chegava em casa, passava a tarde sem comer, então acabei desenvolvimento anemia, meu pai não ligava muito para mim, por sorte a antiga cozinheira foi demitida e uma outra entrou era um amor.— Começa a chorar ainda mais, e sua respiração falha um pouco

— Querida se acalme um pouco, respire fundo... Isso —Diz balançando a cabeça ao ver que estava funcionando— Só continue quando estiver confortável...

Ísis respira fundo, e depois de alguns minutos ela continua:

— Ela percebeu que não era normal uma criança pular todas as refeições e me levou ao médico sem que meu pai soubesse, eu estava com uma anemia grave, ela cuidou de mim, me dava os remédios e começou a preparar refeições decentes mais eu não conseguia comer. Ela começou a me levar para a cozinha, assim eu via ela prepar a comida, com meus próprios olhos, detalhe por detalhe, assim eu consegui confiar nela com o tempo, comecei a ajudá-la, e a superar esse trauma. Mais aí... — Ela cai no choro novamente.

Mais populares

Comments

Maria Helena

Maria Helena

como alguém pode fazer uma criança sofrer desse jeito que maldade

2024-09-07

3

Virginia Rolin

Virginia Rolin

sem dúvidas!!

2024-09-07

0

Mrs_K

Mrs_K

Ter que passar por tanta coisa e, guardar para si mesma é a coisa mais difícil de se fazer /Grimace/

2024-09-06

1

Ver todos

Baixar agora

Gostou dessa história? Baixe o APP para manter seu histórico de leitura
Baixar agora

Benefícios

Novos usuários que baixam o APP podem ler 10 capítulos gratuitamente

Receber
NovelToon
Um passo para um novo mundo!
Para mais, baixe o APP de MangaToon!