Uma garota de cor parda e cabelo liso, preso em um rabo de cavalo, sai de trás dela me encarando como se tivesse visto um fantasma.
—Não convida pra entrar?
Bianca pergunta ainda séria.
—Claro, desculpa, eu... Podem entrar.
Abro um pouco mais a porta, a garota de cabelo liso entra primeiro e logo em seguida Bianca que para em minha frente. Ela continua com as mesmas marcações no rosto, a única diferença é que agora não há mais traços infantis, mas sim de uma mulher, uma linda mulher por sinal.
Em poucos segundos sou surpreendida com mãos rodeando o meu corpo. Um abraço que me impulsiona para trás e sinto o leve cheiro de baunilha em seu cabelo.
—Senti tua falta...
Diz baixinho com a voz falhando e posso jurar que senti um líquido quente escorrer em meu ombro.
Continuo a abraçando forte e estranhamente me sinto em casa e acolhida. Quando nos afastamos percebo os olhos marejados. Faço sinal para ela entrar e vamos em direção a cozinha.
—Então é tu a "carne nova" —A garota de cabelos lisos, da qual não sei o nome, faz apas com os dedos ao falar as últimas duas palavras.
—E você é...
—Satisfação, Juliana, mas pode me chamar de Ju também. Tu é mais bonita do que me falaram.
—Lilliana, prazer. E obrigada pelo elogio.
Lhe dou um sorriso singelo e aperto sua mão.
—Eu já sei teu nome, tá bem famosa por aqui.
Ela sorri, mas o meu desaparece completamente.
—Quando o Samu me contou que tu tinha voltado, eu não acreditei.
Bianca se pronunciou após observar a conversa.
—Ele contou só pra vocês ou...
—Mesmo que ele não tenha contado, metade desse povo fofoqueiro já sabe que tu tá aqui.
Entrego a elas dois copos com suco de maracujá e me junto a mesa.
Ok, isso está pior do que eu pensava.
—Me desculpe por vir assim dessa forma, depois do que aconteceu...
Ela parece não se importar e então sorri de novo.
— Foi bom ter vindo, tava precisando de uma novidade. E tenta não pensar nisso, é passado. Mas iaí, como é lá na gringa? Quero saber de tudo!
Me assusto com a facilidade que ela tem em deixar um problema de lado. Uma característica que o tempo não mudou. Mas ainda é suspeito.
— Sou eu quem precisa ser atualizada. — Lanço-lhe um sorriso —Aliás, Carlinha ainda está aqui?
Elas me encaram sérias e se entre olham, sinto um arrepio ao pensar no que pode ter acontecido. Após a morte da minha mãe, ganhei sequelas relacionadas à perda.
—A gente não se fala mais, ela mudou pra caramba. Sabe como é essas coisas.
Bia diz com indiferença. Mas eu estou aliviada, curiosa para saber o que houve, mas ao menos ela está viva.
Juliana ainda me encara sem pudor algum.
—Tem alguma coisa errada em meu rosto?
Pergunto com sinceridade passando a mão, limpando. Talvez eu tenha sujado e nem percebi.
—Tô procurando o erro desde que te vi e não achei ainda. —Ela aproxima o dedo da minha bochecha.— Tu é de verdade?
Nós rimos.
Conversamos até a hora do almoço, apresentei João para elas, que já o conheciam apenas de vista. Até então não tinha noção do quão grande foi a mudança da Rocinha após cinco anos.
As meninas me deixaram a par de como funcionam as coisas por aqui, aparentemente há regras, o que eu já esperava. Em nenhum momento da conversa falamos sobre Henrrique, no entanto, se Bianca sabe do meu paradeiro, obviamente o seu irmão também.
Agi de forma imbecil em pensar que poderia me esconder aqui, é impossível passar despercebida e uma hora ou outra vou encontrar com ele e peço aos céus que um raio caia em minha cabeça no momento.
Ouço a porta ser aberta e sei que é minha tia, mas olho para trás mesmo assim tendo a vista dela entrando com várias sacolas em mãos e levanto-me para ajudá-la.
— Olha só quem resolveu aparecer. — Diz em direção as meninas que acabam por se levantar também, para cumprimentar minha tia. — Iaí minhas lindas, tudo bom? Tão tudo grande essas meninas já.
Tia Dete preparou o almoço com a nossa ajuda, o que se tornou uma tarefa fácil com três pessoas ajudando. Depois de um tempo, João também desceu do quarto com a sua mini câmera e nos ajudou com a louça.
Almoçamos na cozinha e enquanto conversávamos, senti o meu coração se aquecer no meu peito, havia cinco anos que não sabia o quão deliciosa a refeição ficava com conversas paralelas e risadas. Tudo que eu tinha era um silêncio que amargava a comida.
No final, provamos uma sobremesa que Juliana fez de limão. Tentei aprender a receita para fazê-la novamente e acredito que me saí bem para quem mal podia ter acesso à cozinha antes. O relógio de ponteiro marcava três e meia da tarde quando Bianca levantou do sofá se espreguiçando.
— A gente precisa ir Lilli, o Henrique já tá me azucrinando no WhatsApp.
Ela revira os olhos ao falar do irmão. E sinto meu estômago revirar ao ouvir o nome dele.
— Um pé no saco, credo.
Diz Juliana com voz chorosa. Acabo rindo da situação.
— Eu acompanho vocês até a porta. ‐
Levanto do sofá à procura da chave para abrir o portão, quando o faço saímos as três e por incrível que pareça não há vizinhos sentados na porta como da última vez.
— Quase esquecia. —Bia se vira para mim — Amanhã vai ter um baile aqui pertinho na quadra de futebol, quer ir com nois não?
— Baile? Aqui há Bailes?
Pergunto estranhando o fato de na favela haver festas desse tipo.
— Não é esse baile que tu tá pensando cabecinha de vento
Julian diz rindo
— É um baile funk, uma festa normal.
— Nem tão normal assim, é a comemoração do aniversário dela.
Olho para Bia com os olhos arregalados.
— É seu aniversário? Meu Deus Bia! Eu havia esquecido completamente, sinto muito.
Porém ela dá de ombros e apenas sorri
— Ainda dá tempo de me dar presente, tu indo pro baile com a gente. — Ela pisca e eu murcho em desânimo com ideia. Bia parece notar —E não aceito não como resposta, hein?
—Eu não sei Bia... —Hesito — Vai estar lotado, muito barulho.
— Menos né Lilliana, falando assim parece até que tô te convidando pra te largar lá no meio da festa.
Mordo os lábios, me sentindo entre a vida e a morte, ela me encara com cara de cachorrinho pedinte.
—Seu irmão... Seu irmão vai estar lá e pessoas que me odeiam também. Eu não quero estragar sua festa.
—Tu nunca faria isso, nem se tu quisesse. E eu te conheço Lilli, já disse que isso não tem que ser preocupação. Eu quero te ver lá... Só pra ter certeza se é real e não paranoia minha.
Sinto uma pontada de culpa com a última frase. Fizemos um juramento quando crianças, de que seríamos irmãs e em tudo que fazíamos éramos sempre nós duas. Bianca deve ter sofrido tanto quanto eu, diferente de mim, ela não fugiu. Ela ficou no inferno que eu mesma causei. Ela viu a mãe ser morta e o irmão se tornar o que ela temia. E tudo por minha culpa.
—Posso ficar apenas até o parabéns?
Questiono e ela abre um sorriso.
—Perfeito!
A garota de cabelos cacheados da pulinhos de alegria em minha frente. Pingos de arrependimento caem em minha cabeça, mas logo os afasto. Não, eu devo isso a ela. Eu devo muito a todos eles.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 94
Comments
Nicce Vieira
pelo que o pai dela bateu muito nela será que lili entregou ou falou coisa que entregasem alguém, porq Henrique tem raiva dela
2024-08-09
2
Pedro Miguel
Autora passa o resumo dessa história pra nós entendermos melhor
2024-07-27
2
joyce senna pereira gomes gomes
estou achando confusa também
2024-07-25
1