Senhor Wilson estaciona o carro em frente minha residência, a exatos oito passos, é sempre no mesmo local, fico assustada com o quão habilidoso ele é. Mas anos sendo o motorista da casa e sendo um homem na casa dos quarenta, faz com que tenham esse resultado, além de ser meu melhor ouvinte, um dos, na verdade.
Quando cheguei aqui, as pessoas que trabalham nesta casa me acolheram de tal forma que nunca imaginei. Quando saí do Brasil logo após a morte de minha mãe, pensei que meus dias seriam solitários, meus amigos e famílias estavam e ainda estão no Brasil, apenas eu e meu pai estamos aqui, o que não conta muito.
Senhora Abigail, a que rege a cozinha, uma senhora de cabelos grisalhos deixando aparente sua meia idade, pele morena e por incrível que pareça, bastante conservada é como uma segunda vó, sua comida transmite ternura e uma nostalgia inexplicável, ela fez questão de aprender algumas comidas brasileiras para preparar para mim.
E Francis, que faz a limpeza da casa junto com Sarah, sua irmã, ambas possuem dois anos de diferença, Francis a mais velha tem 38 e Sarah 36. Me ensinaram os costumes das pessoas daqui antes que eu entrasse para o ensino médio, para que não me sentisse perdida.
—Senhorita? Está tudo bem?
Sr Wilson olha através do espelho dentro do carro, notando minha demora sair do carro.
—A partir do momento em que eu abrir a porta terei que lidar com meu pai.
—Pobre criança... Vamos, eu abro para você e lhe acompanho até a porta, o que acha?
Sorrio de um jeito sutil e ele sai do carro e logo escuto a porta ao meu lado se abrir, seguro em sua mão e saio e caminhamos em direção a porta.
—Não acho que precise lidar com seu pai, pequena.
Ele lança enquanto caminhamos preguiçosamente. Noto que suas mãos estão para trás assim como de costume, acho que velhinhos de descendência japonesa tem o mesmo comportamento quando atingem certa idade, já vi outros fazendo o mesmo.
—Não?
Pergunto
—Não, acho que precisa lidar com você mesma. Seu pai é impulsivo obviamente, mas ele não é a causa das limitações que você gratuitamente se impõe.
Olho em direção a porta de entrada da casa, que parece mais uma mansão grande. O que ele me fala é a verdade, bem, pelo menos metade dela. Nenhum empregado da casa sabe o que houve há anos atrás. Então nada muda o fato de eu achar que parte disso é culpa do meu pai. Eu o culpo tanto quanto a mim mesma.
—Não sei como sair disso, na verdade.
—Não há fórmula mágica para tal coisa menina. —Ele faz uma pequena pausa—Uma vez meu falecido pai, um homem sábio, me disse algo, palavras que guardei e carrego até hoje comigo.
—O que?
—Quando não nos permitimos sofrer por nossas perdas, feridas e decepções, estamos condenados a revivê–las pelo resto da vida. A amargura e o remorso são uma bagagem pesada e dolorosa, mas não são obrigatórias.—ele para por um momento antes de continuar— Agora estou lhe oferecendo elas como um presente de viagem.
Ele ri, e eu o acompanho no mesmo embalo. Talvez eu já tenha visto essa frase em algum livro ou talvez o falecido pai dele tenha lido o mesmo livro que eu. Mas não importa, porque as ganhei de presente.
Paramos em frente a porta da frente, o abraço forte, antecipando a despedida. Adentro a casa, quieta, apenas um lustre ligado em meio ao seu interior rústico, me direciono para a escada subindo direto para meu quarto, quando entro demoro um pouco para notar que há duas malas grandes arrumadas em cima da minha cama, paro na porta.
Eu quero vomitar, depois dormir e acordar amanhã como se nada tivesse acontecido.
Ele já está decidido, não há o que fazer. Tranco a porta e me agacho no chão coberto por carpete branco, jogando minha bolsa de lado e desabo. Minhas mãos cobrem meu rosto enquanto solto soluços, fazendo o máximo de silêncio possível. Se ele ouvir, vai ser pior.
Qualquer pessoa me vendo nesse estado diria que estou sendo uma garota mimada de merda, que está apenas sendo rebelde com o próprio pai que apenas quer mandá-la de "férias" para outro país. Mas essa situação é como um iceberg. Não nego que sou completamente apaixonada pelo Brasil, é minha casa, assim como era para minha mãe, ela amava aquele lugar tanto que transmitiu essa paixão para mim, e não foi preciso muito para me convencer.
O problema não é viajar, não é o Brasil, é a porra do lugar que ele quer me colocar novamente.
Ele quer me enfiar em uma Favela com pessoas que me provavelmente me odeiam, odeiam ele e o que aconteceu anos atrás, por culpa dele e principalmente minha, a mamãe foi morta junto com outros inocentes. Demorei anos para me recuperar de tudo que aconteceu, ele não ergueu um dedo sequer para me dar apoio. Agora estou sendo obrigada a reviver tudo de novo a troco de nada.
E mesmo que eu seja contra, ele sempre dá um jeito de conseguir o que quer, como quer e da forma que quer. Na maioria das vezes em que já discordei do meu pai as consequências foram voláteis demais para suportar.
Ouço batidas na porta e me levanto, limpando o rosto.
—Querida, seu pai quer que você venha sentar à mesa para o jantar.
Senhora Abigail avisa através da porta, com uma voz doce. Provavelmente foi ela quem arrumou minhas malas.
—Já irei descer, em cinco minutos.
Ouço passos se afastando, vou para o banheiro, lavo meu rosto certificando-me de não ter nenhum sinal de alguém que estava chorando minutos atrás. Sigo intacta para a cozinha, se meu pai pensa que irei me render a todas as suas vontades, está enganado, posso até ir para o Brasil, mas irei fazer questão de tirar sua paz mesmo estando a quilômetros de distância e vou fazer o possível para descobrir o porquê caralhos tive de voltar.
—Foram mais de cinco minutos Liliana.
Odeio a sensação de inferioridade que sinto quando chego perto, a coragem de minutos atrás se dissipa rapidamente, não sei se é exatamente medo ou qualquer outra coisa, mas sinto raiva de mim toda vez que quero dizer algo para defender minhas prioridades e não consigo. É como se as palavras fugissem da minha mente e simplesmente não consigo me impor.
Então apenas me sento à mesa e levo algumas garfadas com comida na minha boca. Ele olha para o relógio em seu pulso.
A aparência do homem que está sentado à minha frente não parece um pai com uma filha de dezenove anos. Barba muito bem feita, cabelos negros e lisos penteados sempre para trás. Os olhos esverdeados deixam uma marca de beleza. O corpo atlético, com músculos até de mais para quem tem trinta e oito anos, são, de fato, surpreendentes. Há sinais de velhice, claro, mas não são tão perceptíveis.
—São exatas 18h:00, seu voo sairá daqui á uma hora, após acabar sua refeição, se organize antecipadamente para não ocorrer atrasos. E nem tente alguma gracinha, mandarei dois seguranças até o aeroporto com você.
Curto e direto, sua voz grossa ecoou pelo grande cômodo. Não é um pedido, é uma ordem. Solto meu garfo antes de levá-lo a minha boca, o barulho sai alto mas não o suficiente para fazê-lo olhar em meus olhos.
—Pai, por favor...
Protesto com a voz falha, já sentindo meus olhos arderem. Mas ele apenas bebe o líquido que estava ao seu lado, como se não estivesse acontecendo nada.
—Já conversamos sobre isso.
—Mas eu não concordei. Aliás, porque eu tenho que ir? Eu n...
Ele bate com o copo na mesa fazendo um som alto ecoar por toda a sala de jantar, a mesa treme com o ato e sinceramente não sei como o copo não se estilhaçou em sua mão. E sinto um frio na barriga, a mesma sensação angustiante que me acompanha desde a minha infância, quando ele agia de forma violenta com a mamãe. Eu tenho medo dele e ele sabe disso.
—Sabe que odeio quando me contrariam, odeio mais ainda quando quem faz isso é você. Não me interessa se gosta de lá ou não, se quer ir ou não. Eu mando e você obedece. —engulo em seco, desistindo completamente de ter alguma conversa civilizada. —Lhe fiz a proposta, de que se for para o Brasil, te concederei o aval para fazer a maldita faculdade de fotografia.
Eu quero fazer o curso, mas não pensei que ele usaria isso como chantagem. E sentindo a derrota mais uma vez, apenas aceno em confirmação com a cabeça.
—Boa Viagem.
Lança as palavras e sai do meu ponto de vista subindo a escada. Faço o mesmo indo direto para meu quarto
[...]
Oito horas da noite.
O meu voo vai sair nesse horário. Ou meu pai se enganou ou apenas queria que eu saísse daquela casa o quanto antes. Fiquei um bom tempo esperando e revisando o que eu tinha que fazer.
Ensaiar no espelho sempre é bom.
Falo para mim mesma repetidas vezes, já que não tem ninguém para conversar. Respiro fundo e embarco no avião a procura da minha poltrona, mas acabo entrando em pânico quando não a encontro, todos já estão se acomodando em seus devidos lugares menos eu.
Deus, eu nunca te pedi nada então por favor ajude a sua filha lerda que veio com defeito de fábrica e que provavelmente pegou o avião errado. O que não é tão ruim assim, mas não quero passar vergonha.
—Pois não senhora? Está precisando de algo?
Ouço uma voz atrás de mim, ao me virar vejo uma moça, a aeromoça na verdade, que sorri gentilmente.
—Ah, sim, eu não estou achando meu lugar, qual a probabilidade de ter me enganado de avião?
Pergunto e ela solta um sorriso genuíno.
—São mínimas, mas pelo que vejo você não é desta ala.
Ah... Tem outra ala. Santo Deus, já viajei meio mundo e não lembrava que havia a outra ala; A primeira classe.
—Desculpe, não havia entendido a passagem.
— Venha, vou levar-lhe para a primeira classe, tenho certeza de que iremos encontrar o seu lugar.
Ela estava certa, a minha passagem indicava a primeira classe. Me acomodo na poltrona e logo o avião da partida, não sentir um frio na barriga é quase impossível.
Já que eu estou indo para o Brasil.
[...]
Quando o avião finalmente pousa e os passageiros começam a se levantar, espero um pouco para fazer o mesmo.
Minhas pernas tremem quando levanto e desço a grande escada. Estou em solos brasileiros e por mais que pareça estúpido dizer isso; o ar do Brasil é diferente.
Sim, com toda certeza é diferente.
Aqui é quente, não como os Estados Unidos. Há algo diferente no conceito "quente" quando se trata de um país tropical.
E esse conceito começa logo quando o sol fraco da manhã bate em meu rosto e eu inspiro levemente a brisa suave deixando um meio sorriso escapar.
Welcome to Brazil, Lilliana.
Caminho em direção a parte interna e coberta até chegar a passagem da frente do aeroporto. Olho em volta procurando minha tia, mas não a encontro.
O que eu faço se ela não estiver aqui?
Eu não faço a mínima ideia de como me comunicar para pedir ajuda, ou de algum hotel para ir, e o motivo não é o idioma. É a vergonha.
O velho ditado "Quem tem boca vai a Roma" deveria ser trocado por "Quem não tem vergonha vai a Roma." Mas não quero ir a Roma, quero achar Bernadete e ir para sua casa, longe da favela e de todo perigo eminente.
Olho em volta e vejo uma moça vendendo sorvete bem em frente a passagem de entrada, me animo com a ideia de tomar um e obviamente vou até ela.
Tomar sorvete ao invés de resolver o problema é sem dúvida o mesmo que resolver o problema. Só que de um jeito diferente.
—vauereruê?
Ela fala tão rápido que não consigo processar direito o que ouço.
—Perdão?
—Vai querer o quê.
—Há...Moran.Go
Meu português sai meio aveludado com a língua enrolando para falar.
Mas é claro que sairia essa porcaria.
Cinco anos sem ter ninguém que fale português para conversar resulta isso, nem meu pai falava comigo em nosso próprio idioma, ele fazia questão de conversarmos em inglês, apenas.
Em minha cabeça meu português era melhor.
—Qué que é strawango minha filha?
A moça morena de cabelos cacheados presos em um coque questiona meio impaciente.
—MouRAngo
Falo devagar, não só para ela entender, mas para eu mesma pronunciar corretamente
—Ah entendi... Porquê não falou antes.
Olho para ela confusa, e ela gargalha alto e logo em seguida prepara o meu sorvete como se realmente gostasse de fazer aquilo.
—Tu não é daqui é?
Agora consigo entender um pouco melhor
—Rio de JaneiRo? Não e sim, nasci aqui mas não moRO aqui.
Ela concorda com a cabeça e me entrega o sorvete, pego minha carteira e lhe pago com um nota de
R$10,00. Meu pai pediu que um de seus secretários preparassem uma pequena bolsa com algumas notas para quando chegasse no aeroporto, caso precisasse de algo.
E depositou dinheiro em minha conta, não sei a quantidade exata, assim como também não sei como ir á um banco e sacar o determinado valor. Nunca precisei fazer isso antes, ja que normalmente não uso dinheiro em espécie.
Mas isso será resolvido com a ajuda da minha tia, eu espero.
Pego meu troco de volta, agradeço a moça, mas fico no mesmo lugar já que é impossível ficar andando com três malas. Por sorte as três são apenas um kit e o design da mala grande é modificado para que a mala pequena encaixe em cima dela, ou seja, facilitando minha vida.
Não demora muito até que avisto uma mulher acenar para mim, ela usa uma calça jeans azul-marinho uma blusa bem colorida e acessórios espalhafatosos.
Muitos acessórios.
Seus cabelos são cacheados e usa em seus pés uma plataforma, que a faz andar de um jeito engraçado.
É minha tia. Concluo por fim.
—Liliana!
—Tia BeRnadete?
—Em carne e osso.
Ela sorri e me abraça
—Menina mas tá uma mocinha já. Meu Deus! Como tu tá linda! E meu cunhado como que tá em? E por que você está falando assim?
Ela aparentemente tem um jeito leve e divertido, curvo os lábios em um sorriso para ela e conversamos um pouco até o táxi chegar, colocamos a bagagem no porta malas e entramos no carro, procuro o sinto mas não o encontro.
—Tia, onde está o cinto de seguRanç?
Ao questionar sou surpreendida com risos altos, tanto do motorista quanto da mulher ao meu lado. Encaro a frente do carro desacreditada.
—Tão engraçadinha
Minha tia sorri se acomodando em seu lugar e fechando a porta.
—Mesmo lugar Dete?
O taxista pergunta olhando para trás
—Com toda certeza Zé e rápido que ainda tenho almoço pra fazer.
O sotaque carioca de ambos predomina em meio a conversa e quando o carro começa a se mover olho para minha tia.
—Dete?
Pergunto para ela.
—Meu apelido, pode me chamar assim ou só tia mermo.
Balanço a cabeça em concordância.
—Vocês moRAm no mesmo condomínio?
Pergunto fitando o espelho que fica na frente do carro.
—Condomínio? De onde tu tirou isso garota?
Mais uma vez ela ri não tão alto, mas uma risada calorosa
—Ih Dete, essa daí não é daqui é?
O homem do volante ri. A risada dele soa como a de um fumante, o que tenho certeza de que é, mas isso não vem ao caso. Olho para minha tia tentando entender que talvez seja...um bairro?
—Não tem condomínio lindinha, a gente tá indo pra favela menina.
Meu corpo trava e por um instante, tenho uma breve recordação do inferno de 5 anos atrás.
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...Ficarei grata💖...
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Atualizado até capítulo 94
Comments
Robenita Miranda
19 anos e tão lesada assim morando em país de primeiro mundo???🤔
2024-10-02
1
Fernanda Figueiroa
o cara não é o pai dela
2024-08-05
1
Pedro Miguel
Tá demaiiíis Autora
2024-07-27
1