Chega a ser cômico como as pessoas costumam dizer que nenhuma experiência é unilateral quando se trata de acontecimentos traumáticos. No entanto, eu discordo. Toda experiência, por mais semelhante que seja, ainda vai ser diferente para cada ser humano.
Isso é um fato. Sei disso porque garanto que mais ninguém vivenciou o azar de ter que fugir da cidade e do país onde cresceu, por causa de um simples desaparecimento.
Hoje fazem um pouco mais de cinco anos desde o acontecimento em que uma mera confissão que fiz, resultou em quase duzentas mortes de brasileiros, moradores da rocinha, incluindo a minha mãe. E eu carrego o sangue em minhas mãos até hoje, como meu pai havia previsto e faz questão de me lembrar todos os dias.
Para abafar o caso em que estava envolvida e principalmente para que a facção dominante na comunidade não me encontrasse, meu pai e eu viemos para o exterior, Nova York, para ser mais exata. Sem deixar rastros, um maldito interrogatório que fui submetida, feito sob tortura, foi arquivado e ninguém nunca soube o que de fato aconteceu lá dentro.
Mas souberem que eu falei, de alguma forma, essa informação vazou. E fiquei impedida de pisar os pés no Rio de Janeiro como uma forma de proteção a mim mesma. O que, de certa forma, é bom. Eu fui a culpada e não nego isso, então, comprei a ideia de ser a vilã da história e estou satisfeita com isso. Até porque ninguém de lá sabe do meu paradeiro, todos devem achar que, na menor das hipóteses, eu morri.
Ou pelo menos achavam.
Agora que finalizei o meu ensino médio, tenho a impressão de que uma grande merda será feita e eu provavelmente terei que voltar. Meu corpo se retorce apenas em imaginar. Porque, no final das contas, meu pai já deve ter comprado até mesmo meu passaporte. Ele irá me obrigar de qualquer maneira.
—Qual o motivo da minha pendência em Artes? Não fazia ideia que essa coisa contava como matéria.
Escuto Patrick reclamar ao meu lado e meus pensamentos viram cinzas. Olho para o meu amigo sentado de frente para mim na mesa do refeitório. Ele bufa insatisfeito jogando a lista de nomes em cima da mesa em frustração. Encaro ele fazendo o possível para não rir em uma situação como essa e então jogo meu pequeno caderno de volta para minha mochila.
—Não fique assim, olhe pelo lado bom, pelo menos é Artes, já pensou se fosse álgebra?
—Também fiquei em Álgebra Lili.
Ele pega a lista apontando seu nome em vermelho e eu respiro mordendo os lábios inferiores impedindo que se curvem em um sorriso.
—Você consegue meu camarada, eu sei que consegue.
O loiro deita a cabeça na mesa do refeitório choramingando. O drama dele faz alguns alunos olharem em nossa direção, mas apenas dou de ombros. Os dias do último semestre deste ano já estão contados, felizmente é nosso último ano, e isso já é motivo de alegria o suficiente, mas Patrick está depressivo demais com suas pendências para perceber isso.
—Eu sei que você quer sorrir. Hoje você já estará livre, enquanto eu terei de ficar nesse inferno educacional por dois dias ainda!
—Livre entre aspas você quis dizer, meu pai ainda está pegando no meu pé com a história de me mandar de volta para o Brasil.
Nos levantamos juntos e pegamos as nossas bandejas caminhando em direção ao balcão onde depositamos os restos de comida e as bandejas ao lado.
Patrick pode ser considerado um típico padrão estadunidense, no entanto, mais afeminado. (Bem mais.) Ele por si só marca presença, não apenas com seu visual moderno; como o corpo não muito atlético, seu cabelo em tons de marrom claro cortado em um mullet mais preenchido e sua ousadia na escolha de vestimentas fora do padrão e o fato da sua personalidade não ter nada haver com seu estilo sombrio, mas a essência energética que ele exala por onde passa.
—Ah não garota, nem começa, você sabe que eu odeio reclamações de rico, tenho nojo desse tipo de coisa gata
—Não é reclamação Patrick, é só que...
—Ei, ei, olhe para mim...
Ele para em minha frente fazendo sinalizações como se estivesse discutindo, mascando um chiclete de meia hora, acho que é algum tipo de charme, mas no momento ele está parecendo a Mady de Euphoria balançando suas unhas imensas em minha frente.
—Você está indo para o BRASIL!!! Calor, Carnaval, homens sexys e muita praia! Daria tudo para ir com você, mas um gay também tem suas prioridades, então para de reclamar e usa isso ao seu favor, meu docinho.
Abrimos nossos armários que só estão um ao lado do outro após Patrick causar um baita de um alvoroço na diretoria, ainda solto risadas sinceras quando lembro desse dia. Desde que cheguei à New York School, ele tem sido uma âncora, e sinceramente teria coragem de guardá-lo dentro de uma caixinha e levá-lo comigo para todo canto.
—Você é a melhor coisa que me aconteceu, Patrick.
—Correção. Eu sou sua única melhor coisa que te aconteceu neste inferno educacional. E nem pense em me trair virando amiga de outro do vale, caso vá para o Brasil, ok?
Sorrio o surpreendendo com beijinhos e abraços
—Vou sentir sua falta
—Hum, então quer dizer que já aceitou a viagem?
O loiro sorri presunçoso para mim.
—Não, mas meu pai vai me obrigar de qualquer jeito.
Ao pegar meus últimos pertences do armário, seguro minha mochila em mãos, já que está pesada demais para colocá-la do jeito habitual, e espero impaciente Patrick tentar fechar o armário dele. Olho os corredores agora quase vazios e tenho uma breve sensação de melancolia, por mais que eu odeie esse lugar, sentirei saudades do Ensino Médio.
Talvez, lá no fundo, eu sinta saudades da vida que fui obrigada a me acostumar.
—Prontinho, finalizei aqui. E então, vamos?
Patrick sinaliza e o sigo. Juntos saímos do grande prédio acadêmico e ficamos conversando em uma praça de alimentação próxima. Após algumas horas, nos despedimos com um abraço apertado cheio de saudades até o meu motorista chegar. É uma pena não poder levá-lo comigo.
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Atualizado até capítulo 94
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Carliane Serra
KD as fotos autora
2024-02-28
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