...Bianca Santana: ...
Assim que adentrei o carro de Luiza, ela me olhava em estado de choque.
"O que foi?",perguntei colocando o cinto de segurança.
"O que ele veio fazer aqui?", franziu o cenho.
"Eu não sei. Quando vi o Karl, fiquei chateada por ele ter sumido, esqueci de perguntar o motivo de ter vindo até...", ela me interrompeu, balançando as mãos na minha frente.
"O que? Eu não tô falando do Karl!", berrou apontando para a janela do carro, indicando a frente da minha casa.
"Como assim?"
"Meu Deus, Bianca, você é cega? Não tá vendo aquele deus grego parado quase na frente da sua casa?"
Observei com mais atenção e vi um homem parado; na verdade, era o mesmo com quem troquei algumas palavras há pouco.
"E o que tem esse homem?"
"É ele, o Charles!", berrou animada. "Eu nem tô acreditando que ele veio mesmo atrás de mim. Quando você deixou o endereço, eu pensei que..."
"É o mesmo idiota que te mandou embora em plena madrugada?", senti a irritação percorrendo minhas veias.
Como ela pode estar animada assim se esse cara é um cretino?
"Mesmo assim, amiga, ele veio até aqui por minha causa. Deve ter se arrependido do que fez. Eu tenho que ir até lá", antes que ela tocasse a porta, segurei seu ombro.
"Pelo amor de Deus, Luiza! Esse cara não se arrependeu. Eu não coloquei meu endereço no bilhete", confessei.
"E como ele está aqui?"
"Eu não faço a menor ideia, mas posso te garantir que ele não veio até aqui por aquele bilhete."
"O que você escreveu?", assim que ela fez a pergunta voltei meus olhos para ele que estava do outro lado da rua e percebi que Charles estava encarando o carro com muito interesse como se a qualquer momento fosse começar a caminhar em nossa direção.
"Vamos indo e no caminho eu te conto."
"Mas e ele...", fez uma cara de pena como se estivesse realmente considerando ir até lá.
"Sinceramente? Nós deveríamos sair agora e dar uns belos tapas nesse...", me interrompeu.
"Tá bom, tudo bem, já estamos indo", ligou o carro e começou a dirigir.
...[...] ...
"VOCÊ ESCREVEU O QUÊ?" A boca dela se abriu em um 'o' perfeito e seus olhos estavam praticamente saltando enquanto balançava meus ombros.
"Foi exatamente o que eu falei...", admiti um pouco envergonhada.
"Amiga, você não devia ter feito isso", murmurou tampando a boca com as duas mãos.
"Por quê?" A confusão deveria estar estampada no meu rosto.
"Porque o pau dele é enorme!" começou a rir da minha cara. "Eu juro, ele deve ter mais que...", a interrompi.
"Eu não quero ouvir isso, é nojento", ela revirou os olhos.
"Quando você perder a virgindade, vai ver que não é."
"Será que dá para trocar de assunto?" pedi. "Eu não quero ouvir esses detalhes", fiz cara de nojo.
"Preciso ter a Cassie de volta à ativa", murmurou fazendo um biquinho. "Pelo menos ela não se importa de conversar comigo sobre sexo."
Cruzei os braços, aconchegando-me melhor no banco do carro.
"Tá legal, não vamos falar de sexo", pareceu pensativa. "Espera aí, você não quis sair comigo porque disse que ia trabalhar hoje cedo!"
"Eu ia, na verdade, estava pronta para ir trabalhar quando a minha chefe me mandou uma mensagem hoje cedo dizendo que 'precisávamos conversar'. Ela falou que eu não precisava ir cedo... acho que é hoje, Lu, eu vou ser demitida."
"Calma, pensamento positivo."
"Eu tô tentando", respirei fundo.
"Eu nem sei o que te dizer..."
"Fica tranquila, eu só... tô um pouco nervosa", dei um sorriso falso para mostrar que estava tudo bem.
"É isso, amiga, não pode perder o ânimo", assenti, e ela estacionou na frente da pequena empresa onde trabalho como recepcionista. "Boa sorte, Bianca, vai dar tudo certo."
"Obrigada, Lu.", saí do carro.
...Charles Biancardi: ...
Há mais de três horas que troco olhares com a estátua da deusa Têmis na minha mesa; tenho a sensação de que quando não estou olhando ela começa a desfilar usando um vestido verde. A venda nos olhos? Parece que ela está rindo de mim por ainda não saber a identidade daquela mulher.
Acabei quebrando um lápis, frustrado por não conseguir me distrair com nada.
"Tá tudo bem, Charles?", perguntou Analu do outro lado da sala.
"Claro, por que não estaria?", tentei disfarçar, revirando os papéis na mesa sem nem saber o que eu tava procurando. Talvez apenas esteja esperando encontrar a mulher misteriosa escondida sob um monte de papéis.
Estou enlouquecendo!
"Você está aí pensativo há horas", comentou.
E sim, eu realmente estava. Passei o resto do dia inteiro pensando em uma única mulher, algo que definitivamente nunca aconteceu antes.
"Só estou focado no trabalho", inventei uma desculpa.
"Ah, falando nisso, você já contou pro senhor Mancini que achou o irmão da esposa dele?", Putz, tinha esquecido completamente disso. Além de encontrar o cara, um dos agiotas que contatei descobriu uma dívida considerável relacionada a drogas.
"Bem lembrado, Analu," elogiei, me levantando.
"Será que mereço uma recompensa?",perguntou toda manhosa, vindo na minha direção com a blusa mal abotoada, deixando claro suas segundas intenções, o que me deixou terrivelmente desconcertado.
Terrivelmente desconcertado...
Desconcertado...
O que está acontecendo comigo?
"Você tá bem?", pareceu séria ao fazer a pergunta novamente.
"Eu preciso sair agora."
"O senhor Mancini vai embora só mais tarde," deslizou as mãos no meu peito.
"E que... eu preciso ir a um lugar primeiro," retirei suas mãos. "Daqui a três horas estou de volta," avisei, deixando a sala. Quase como o diabo fugindo da cruz.
...Bianca Santana: ...
Enquanto caminhava até o ponto de ônibus, as palavras da minha ex-chefe ecoavam incessantemente na minha mente:
..."Você é uma boa menina."...
..."Mas agora a empresa está em crise e está priorizando os funcionários antigos."...
..."Sinto muito, Bianca."...
..."Você está demitida." ...
Sinceramente, eu sabia que isso iria acontecer uma hora ou outra. Até achei melhor que fosse de uma vez; pelo menos assim já posso começar a procurar um novo emprego.
Ao me acomodar no banco, a chuva despencou do céu como um balde de água fria, e fiquei ali alguns minutos, observando os ônibus passarem, enquanto o clima refletia perfeitamente meu estado de espírito – a chuva revoltada e o céu cinza.
Quase não havia ninguém esperando ônibus, apenas eu e um idoso compartilhávamos a parada; ele segurava uma garrafa e aparentemente estava um pouco bêbado.
Logo avistei meu ônibus se aproximando e, assim que parou, tanto eu quanto o idoso nos levantamos e começamos a caminhar até ele. O senhor caminhava com certa dificuldade, como se estivesse com a perna machucada, por isso deixei ele passar na minha frente. No entanto, antes de adentrar o veículo, ele caiu no chão.
"O senhor está bem?",me abaixei na altura dele. O homem me observou com muita atenção, não de um jeito indecente, mas sim curioso, o que é comum se considerarmos que ele está bêbado.
"Vai subir ou não?", gritou o motorista enquanto eu tentava ajudar o idoso a se levantar.
"Sim, nós vamos," respondi. "Só um minuto, por favor."
Fiquei abismada de ninguém ter descido para nos ajudar; sei que a chuva está um pouco forte, mas...
Enquanto eu tentava ajudar o homem a ficar de pé, o motorista simplesmente fechou a porta e foi embora. Ainda tentei ir atrás dele, mas o idoso segurou a minha perna como se fosse uma criança precisando da mãe.
"Senhor, aquele é o último ônibus de hoje", gaguejei um pouco nervosa, sem acreditar que o perdi.
Se eu chamar um carro de aplicativo, considerando que está escurecendo e está chovendo, vai sair uma pequena fortuna.
"Você não precisa se preocupar", balbuciou. "Agora me ajude a levantar", mandou o ancião estendendo a mão.
A essa altura, minha roupa já estava completamente encharcada pela chuva. Apenas o ajudei a levantar e se sentar novamente no banco.
"Onde o senhor mora? Quer que eu entre em contato com alguém?", ele negou com a cabeça.
"Não tenho dinheiro."
"Eu também não", murmurei, sentando ao lado dele no banco frio. "Mas podemos dar um jeito de pedir para alguém vir buscar o senhor".
"E quem disse que eu preciso que alguém venha me buscar?", franzi o cenho, confusa. "Estou apenas esperando algo."
"O que diabos...", me assustei com o som de uma buzina. Voltei minha atenção para a rua e percebi que um carro branco se aproximava, e o motorista parecia ter a intenção de anunciar sua chegada, tocando a buzina como se estivesse em uma banda.
O motorista baixou a janela do carro, e me surpreendi ao ver que era...
"Não é possível", murmurei sem acreditar.
"Te encontrei...", disse Charles abrindo um grande sorriso, sua voz foi meio abafada pela chuva.
Eu o ignorei como se fosse parte da decoração da cidade.Quando ele fechou a janela, pensei que iria embora, mas aí ele saiu do carro com um guarda-chuva preto.
Logo se aproximou de mim.
"O que você quer?", fui direta quando ele parou na minha frente.
"No momento?", pareceu pensativo. "Te dar uma carona." Ele colocou o guarda-chuva sobre mim também, permitindo que algumas gotas caíssem sobre seus ombros largos.
"Não precisa, obrigada." Empurrei o guarda-chuva de volta para ele.
"Tem certeza? Já está escurecendo, e eu tenho quase certeza que o horário dos ônibus terminou..." Tentou me cobrir novamente.
"Sim, eu tenho certeza. Além do mais, você não está vendo o senhor ao meu lado? Não posso deixá-lo sozinho." Empurrei seu guarda-chuva mais uma vez.
Ele virou a cabeça e, após olhar rapidamente para os dois lados, voltou a atenção para mim e estreitou os olhos.
"Por acaso, você está hipotérmica?" Tocou a minha testa, e eu me afastei rapidamente, dando-lhe um belo tapa.
Quem ele pensa que é? Eu nem o conheço.
"Não encosta em mim".
Charles ficou estático por alguns segundos e depois levou a mão a mandíbula como se estivesse verificando se não foi deslocada. Esperei a pior reação, mas ele só voltou a colocar o guarda-chuva sobre mim e sorriu, como se estivesse se divertindo com a situação.
"Você tem um jeito peculiar de recusar uma carona, não é mesmo?", comentou, mantendo o guarda-chuva sobre nós.
Ignorei o comentário e desviei o olhar para o outro lado da rua.
"Mas agora falando sério," voltou a falar. "É um pouco preocupante te deixar aqui sozinha, tem certeza que não vai aceitar?"
"É melhor ficar aqui do que aceitar a carona de um desconhecido. Além do mais, eu já te falei que eu não tô sozinha!"
"As vozes da sua cabeça não contam como alguém."
"Vozes? Você é doido por acaso?"
"Quem está falando de um velho imaginário é você, não eu."
"Você não está vendo esse pobre...", me interrompi quando virei para o lado e não havia literalmente ninguém ali, a não ser uma garrafa de bebida no exato local onde o idoso estava sentado. "O homem, ele tava aqui", gaguejei e olhei para os lados tentando encontrá-lo, mas a rua estava deserta. Charles olhou também.
"Eu tenho certeza que as únicas pessoas aqui são você e eu," comentou. "Pelo menos desde que cheguei."
"Eu juro por Deus que havia um senhor aqui, ele...", me interrompi quando percebi que os olhos dele estavam muito concentrados em mim, e eu não deveria estar explicando nada a ele.
"Talvez seja o clima, a chuva faz coisas estranhas com a imaginação," comentou descendo os olhos pela minha roupa molhada.
"Você pode ir embora agora. Não preciso da sua ajuda," falei retirando meu celular da bolsa.
Ele baixou a cabeça dando uma risada. Esse cara é uma espécie de psicopata? Um maníaco da parada de ônibus?
"Se mudar de ideia, vou ficar no carro." Charles fez um gesto em direção ao carro e começou a se afastar, e a chuva pareceu ficar mais intensa, molhando até mesmo o meu smartphone.
Olhei para o celular, que agora estava encharcado pela chuva, e para o homem que estava se distanciando. Eu não consigo acreditar que vou dizer isso, mas:
"Espera..." murmurei, relutante. "Acho que... aceito a carona."
Ele se virou dando um sorriso gentil e voltou a caminhar na minha direção, me cobrindo novamente com o guarda-chuva.
"Não foi tão difícil, foi?", perguntou enquanto abria a porta do carro para que eu entrasse.
"Já te adianto que fiz aulas de autodefesa. Se tentar alguma coisa, vai se machucar feio," ameacei adentrando o veículo.
Respirei fundo antes de me acomodar no banco do passageiro, sentindo o calor do interior do carro contrastar com a umidade da chuva, havia um perfume masculino no ar. Charles entrou também e deu partida no carro. Ele permaneceu em silêncio por um tempo, mas pude sentir seu olhar sobre mim.
"Você mora lá mesmo?", franzi o cenho confusa. "Estou falando da casa da qual você saiu hoje pela manhã," esclareceu.
"Pra que quer saber?"
"Eu deveria saber onde devo te deixar, não concorda? Ou prefere que eu te leve para a minha casa?" Perguntou.
"Eu falei sério sobre as aulas de autodefesa," respondi. "E sim, a minha casa é aquela."
O resto do caminho foi em completo silêncio, embora os olhos dele não permanecessem na estrada,o que me irritou.
Logo ele parou o carro na frente da minha casa.
"Quanto te devo?", perguntei abrindo a minha bolsa e pegando a minha carteira.
"Cem reais," engasguei com a resposta, e ele começou a rir. "É brincadeira, você não me deve nada, mas eu ficaria muito feliz se me dissesse o seu nome", disse abrindo um sorriso canalha.
"Nesse caso...é uma pena," murmurei retirando dez reais da minha carteira e colocando em cima do painel do carro. "De qualquer forma, obrigada", agradeci saindo do veículo.
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Atualizado até capítulo 70
Comments
Ana Lúcia De Oliveira
Não paga o Uber na minha região kkkkkkkk kkkkkkkk
2025-03-14
0
Jaqueline Silva
bha dez reais .kkkk
2025-03-12
0
Cibele Wan Der Maas Moreira
Se ela não der muito trabalho pra ele, vou ficar decepcionada. kk
2024-08-23
0