Capítulo 1

Nádia havia saído cedo para deixar currículos por algumas lojas da comunidade mesmo. Alice ficou em casa para ir à escola assim que fosse seu horário, enquanto Melissa havia entrado em um berçário em tempo integral. Com tudo fluindo bem, Nádia viu uma saída, ela iria trabalhar e ajuntar dinheiro para finalmente fugir de Alessandro. Era exatamente o que estava a procurar naquele momento, já havia entregue currículos por várias lojas e se sentia exausta de tanto caminhar, até que parou em frente a uma loja de sorvetes que parecia muito chique para estar dentro de uma comunidade. Muito bem construída, era como um estabelecimento de luxo em meio a estabelecimentos comuns. Ela observou o lugar, com portas de vidros, cadeiras confortáveis e mesas em madeira muito chique. As cores predominantes do local era azul-claro e rosa Pink, Nádia ficou encantada e então se imaginou a trabalhar em um local como este. No balcão, havia uma mulher muito linda e bem arrumada. Nádia sentiu-se envergonhada por um momento, por estar a usar roupas velhas e gastas enquanto a mulher de sorriso largo, era tão bem vestida e parecia ser uma pessoa muito culta e doce. Ela olhou para o envelope pardo em suas mãos, imaginando se entraria e deixaria um currículo, ou se deixaria vencer por sua falta de esperanças, por imaginar que aquele não era um local para alguém como ela. Suspirou. Estava cansada, havia andado muito e sabia que a maioria dos lugares que deixou o seu currículo extremamente simples, nem sequer olharia. Essa poderia ser uma oportunidade, afinal, poderiam estar a precisar de alguém para trabalhar e poderia ser um funcionário em que enquadrasse o currículo dela. Ousou tentar. Nádia abriu a porta do estabelecimento e entrou.

Havia poucos clientes sentados à mesa e funcionários que pareciam trabalhar tranquilamente, aquele não parecia ser um lugar que precisassem urgentemente de alguém, mesmo assim, Nádia iria deixar o seu currículo. Caminhou timidamente na direção do balcão, em direção a mulher, que conversava animadamente com uma funcionária ao mesmo tempo em que mexia em seu celular caro. Suas unhas eram longas e faziam um tilintar ao tocar na tela do aparelho, Nádia ficou encantada em como alguém poderia ser tão bonita. Parou diante dela, do outro lado do balcão. Ela sentia um frio na barriga, um frio além do ar-condicionado que refrescada todo o local. A loja tinha cheiro de chiclete, era realmente feito para pessoas chiques, Nádia não entendia o que estava fazendo uma sorveteira como aquela em uma comunidade.

— Com licença.— Chamou a sua atenção.— Bom dia.

Logo a atenção fora voltada para ela. A mulher manteve seu sorriso largo nos lábios, observando-a com certa altivez, mas ao mesmo tempo receptiva.

— Bom dia.

Respondeu, sentindo-se intrigada, afinal, conhecia todos os moradores daquele lugar, mas parecia que não a conhecia. Se tratava de uma nova moradora.

— Desculpe incomodar. Sou Nadia Antunes.

— Oi, Nádia. Sou Kellie Rodrigues.— Apresentou-se.— Você é nova por aqui, não é?

— Sou sim.— Nádia sorriu timidamente.— Vim perguntar se está precisando de funcionários. Estou entregando currículos desde cedo e, seria um prazer se me der uma chance.

Os olhos de Kellie brilharam no mesmo instante. Estava mesmo comentando com sua funcionária que estava precisando de alguém para trabalhar para ela, pois a demanda de sua sorveteira vinha aumentando bastante nos últimos dias, afinal, o verão havia chegado e o dono do morro havia mandado fazer uma quadra na comunidade, o que significava que as pessoas iam lá para jogar e sentiam muito calor, consequentemente se encaminhavam para a sorveteira que era muito próxima, assim que acabavam o jogo. Sorriu. Apesar de ter reparado que Nádia era uma pessoa muito, muito pobre, usando roupas velhas e muito gastas, Kellie pagava bem aos seus funcionários e imaginava que poderia comprar roupas novas assim que recebesse seu salário, afinal, zelava pela aparência de seus funcionários, já que a representava.

— Oh, estava falando isso com Merida agora mesmo.— Olhou para Merida.— Estou sim, você tem disponibilidade de começar no turno da tarde?

— Sim, até prefiro, minhas filhas estudam nesse turno.

— Filhas?— Surpreendeu-se.— Mas você parece tão nova para já ter filhos. Quantos anos tem?

— Vinte e três.

— Uau! Não parece.— Kellie sorriu.— Enfim, deixe um currículo e quero você aqui amanhã às 13 horas para fazer um teste. Combinado?

Nádia sorriu contente, só de pensar que quase desistiu de deixar seu currículo ali, mas ainda bem que tudo estava dando certo. A mulher concordou com a cabeça, tudo estava realmente fluindo para seu bem. Ela tirou o currículo para fora, trocou mais algumas palavrinhas com a mulher e logo se foi, feliz da vida de que teria finalmente arrumado pelo menos um teste para fazer. Bom, não era garantia de emprego, já que se não fosse aprovada, não estaria contratada, mas já era um começo. Ela saiu de lá feliz da vida, caminhando animadamente pelas calçadas de seu novo bairro, sem se importar pelos olhos curiosos que a observavam por ser uma nova moradora.

E entre esses olhares, mais próximo de chegar em sua casa, estava o olhar de Diego. Ele estava sentado em uma mesa de um bar, sua moto logo na frente do estabelecimento. Conversava com Felipe, vulgo Matador sobre o novo funcionário de sua boca. Alessandro, apelidado Ale. Felipe era seu melhor amigo. A verdade era que Diego não simpatizou nada com o homem e planejou o colocar justamente como gerente, porque se ele desse a primeira mancada como seu funcionário iria o cobrar com a vida. Diego nunca errava quando achava que alguém não prestava e ele pensava isso, de Ale. Pensava nisso. Foi quando ele viu uma mulher passar do outro lado da rua, ela estava com roupas velhas e surradas, mas não encobria sua beleza. Labios carnudos, cabelos cacheados, grandes e volumosos, estavam soltos, ela pareceua feliz e andava quase saltitando. Diego ficou intrigado, nunca havia a visto por ali, juntou as sobrancelhas. Como ninguém o notificou sobre mais moradores novatos? Iria ter uma conversa séria com seus homens para melhorar a segurança.

— Aquela é a mulher do cara que eu te falei.

Comentou Felipe. Diego juntou ainda mais as sobrancelhasencarando o amigo, que soltou um sorriso, mostrando que já sabia o que o amigo pensava. Felipe partilhava o mesmo pensamento: a diferença de idade entre o tal casal. Diego tomou um gole de sua bebida enquanto observava a mulher caminhar pela calçada, aproximando-se. Sua mesa estava localizada na parte externa do bar, dando-lhe uma visão perfeita dela. Não aparentava ter muita idade, ou sequer ter uma idade próxima a de seu marido, isso deixou Diego muito curioso sobre o que os levou a se unir. Quais seriam os motivos de uma mulher tão linda e que pode ter o homem que quiser nas mãos, de querer um homem muito mais velho e, na opinião de Diego, de beleza duvidavel.

— Aquela é mulher do cara que tentou te bater e que levou uma surra ontem a noite?

— Isso, cara!— Pegou o copo de cerveja dando um gole.— Não acha estranho? Ela é muito nova para ele, são uns vinte anos de diferença.

— Sim, isso é muito estranho, cara.

— Mas, enfim! Cada um com sua loucura!

Felipe concluiu, debochando da possibilidade de Nádia estar com um homem muito mais velho. Eles tinham certeza que nao era por amor. Não sabia os motivos e imaginava que poderia ser por algum tipo de dependência emocional que Alessandro desenvolveu na garota, afinal, meninas novas são muitos fáceis de manipular e ele poderia ter a conhecido muito mais nova. Não deu a mínima importância, o importante era saber se Alessandro era confiável, não se sua mulher o amava ou não.

— Qual o nome dela?

— Nádia, por que?— Encarou o melhor amigo.— Ei, nem pense nisso, ela é casada.

— Não pensei em nada.

Felipe imaginou que Diego poderia ter se interessado por Nádia, afinal, fazia muito tempo que não aparecia uma garota nova pelo bairro, a última foi Kellie, com quem Diego teve um breve relacionamento, mas agora havia se cansado dela. Eles nem sequer chegaram a namorar. A garota por sua vez não parava de correr atrás do dono do morro, querendo voltar a ter alguma coisa com ele, dizendo que o amava. Diego apenas tirava proveito disso quando queria satisfazer seus desejos carnais, afinal, não ficava com qualquer mulher que aparecesse em seu caminho e Kellie era um acesso muito fácil. Felipe sorriu, talvez seria bom que Diego criasse uma obsessão por outra pessoa, assim Kellie talvez o esqueceria e Felipe poderia finalmente ser notado. Sim, ele era apaixonado pela garota, sempre foi, mas não teve tempo de se declarar, afinal, ela já apareceu agarrada com seu melhor amigo no terceiro dia depois que chegou. Felipe também nunca contou isso a Diego.

— Não, né?— Pegou um cigarro na carteira.— Esqueça, ela tem até uma filha do cara.

— E só vieram os três para cá?

— Não, parece que a irmã dela também. Uma menininha de dez anos. Eu acho isso muito estranho, a irmã de Nádia se parece mais com Alessandro do que com a própria irmã.

E então, antes de desaparecer em um beco qualquer, Nádia virou seu rosto e seus olhos se encontraram brevemente com os de Diego. O homem viu mais detalhadamente sua beleza, mas não deixou de perceber uma coisa: O rosto da mulher estava com uma mancha de hematoma muito forte, como se tivesse apanhado. Isso sim chamou sua atenção. Diego poderia ser muito ruim com seus inimigos, mas nunca agrediu uma mulher e não aceitava que qualquer dos moradores de seu bairro o fizesse. Se remexeu na cadeira. Ele sentiu uma ira enorme ao imaginar que ela poderia ter sido agredida pelo marido, mas enfim iria comprovar que Alessandro era tão mal caráter quanto imaginava. Diego não o tiraria de sua mira até concluir suas suspeitas. Nádia não poderia apanhar do marido em seu morro e o desgraçado sair ileso, isso não aconteceria assim, não aqui. Diego encarou o amigo, que segurava um sorrisinho fraco em seus lábios, como se decifrasse os pensamentos do amigo ao lado. Bufou.

— Você viu?— Apontou para o próprio rosto, referindo-se ao machucado da mulher.

— Vi sim, o desgraçado é um covarde dentro de casa.

— Pois é.— Bebeu todo o líquido de seu copo de uma só vez.— Não quero que tire os olhos de cima desse cara.— Roubou o cigarro da mão de seu amigo e o colocou em sua boca, tragando.— Chame-o, hoje vamos dar a honra de almoçar em sua casa.

Felipe se levantou, teria trabalho a fazer.

— Vamos investigar Alessandro?

— Sim, mas antes temos que dar toda a confiança, fazer ele pensar que está seguro aqui. Você sabe, cara. Não gosto de pessoas desconhecidas no meu morro.

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Comments

Natalia Maia

Natalia Maia

é filha, só que eles pensam ser irmã por a nadia ser muito nova

2025-02-23

0

Nicce Vieira

Nicce Vieira

e filha ou irmã

2024-08-16

0

Maria Marta de Faria Silva

Maria Marta de Faria Silva

é filha sim

2024-06-21

2

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