A porta de abriu bruscamente, causando um barulho ao colidir-se com a parede. Nádia olhou em sua direção, assustando-se. Era ele. Seu marido mais uma vez havia chego bêbado em casa e por sua expressão, mais uma vez havia perdido dinheiro em apostas no bar e estava frustrado. Olhou para Nádia com sua carranca, como de costume. Um calafrio percorreu o corpo da mulher. Sempre que isso acontecia, era a mulher quem recebia as punições das frustrações de Alessandro. Respirou fundo e tentou não se importar muito, na esperança de que dessa vez a cena de todas as semanas não se repetisse, afinal, mais uma vez Alessando prometeu que iria mudar e que eles finalmente seriam como uma família feliz. Alessandro prometeu que iria melhorar, prometeu por suas filhas, elas mereciam um ambiente melhor, não deveriam crescer assim, observando a mãe ser agredida e violentada pelo marido quase sempre. Além do mais, agora estavam em um lugar diferente, em uma semana se mudaram para uma nova comunidade, ela tinha esperanças de que enfim seriam uma família feliz. Uma família de verdade, apesar de como tudo começou entre os dois.
Ela terminou de preparar o leite que Melissa, sua filha mais nova tomava todas as vezes que acordava de madrugada. Colocou na mamadeira, logo provando e constatando que não estava muito quente, estava na temperatura perfeita para dar a ela, para quê voltasse a dormir. Alessandro entrou na casa, ainda se sentindo tonto, estava irado por ter arrumado mais uma briga, dessa vez em um bairro novo. Ele sempre arrumava brigas em qualquer lugar que iam, mas agora era diferente, pois havia visto uma "boa" oportunidade atraves disto. Após jogar a semana inteira e ficar devendo de tantos jogos perdidos, Alessandro irritou-se com o homem que ganhava suas apostas e acabaram saindo na mão, por esse motivo, ele foi levado para o chefe dos traficantes e descobriu que o mesmo homem que lhe deu uma surra e quase o matou, era um dos subordinados do chefe e dono do morro, mais conhecido como Perigoso. Agora, para pagar sua dívida ele deveria se tornar mais um de seus funcionários e trabalhar, mais especificamente no local onde chamavam de "loja", onde vendiam produtos ilícitos, mais especificamente drogas.
— Boa noite, Alessandro.— Cumprimentou-o.— Chegou tarde mais uma vez, já é madrugada.
— E o que isso te interessa?— Perguntou-lhe.— Venha aqui e me ajude!
Sua voz estava alterada. A mulher se assustou um pouco com a forma que fora tratada, haviam alguns dias que Alessando estava mais calmo e a tratava bem, assim como disse que mudaria. No entanto, agora ele vinha voltando a ser o que era antes, depois que voltou a frequentar bares, ele voltava a tratá-la da mesma maneira. Suspirou e decidiu deixar a mamadeira de lado e ir até seu marido para o ajudar a entrar completamente, tentando evitar que ficasse irritado. Contudo, logo Melissa iria chorar pela demora de seu leite e isso também deixava o homem irritado sobremaneira, pois o choro da menina era alto e Alessandro, impaciente. Se aproximou dele.
— Fale baixo.— Pediu.— Mel está acordada e com fome. Não vai querer que Alice acorde também.
— Tanto faz! Tire meu sapato.
Ela se abaixou, ficando aos seus pés e fazendo o que lhe ordenara. A verdade era que Nadia nao gostava de servir seu marido como uma escrava, mas nao tinha muitas escolhas, ou pelo menos, não as enxergava. Neste mesmo momento, iniciou-se um choro, vindo do único quarto onde dormiriam todos da família, Melissa começava a estar impaciente e a sentir fome. Era apenas uma inocente criança, mas que poderia causar irritação em Alessandro, Nadia sentiu medo. A casa era muito pequena, contendo apenas o quarto, cozinha e banheiro, todos em mal estado, com paredes cheias de umidade e rachaduras. A mulher preocupava-se muito com a saude desuas filhas, se as paredes começassem a mofar, logo poderiam adoecer. Após terminar de tirar seus sapatos, a mulher puxou uma cadeira e deu ao homem que se sentou, sem sequer agradecer pelo gesto. Nádia não se importava com isso. Vendo que nao precisava mais de seus servicos, foi até a pia da cozinha e pegou a mamadeira, caminhando em direção ao quarto, Nádia pegou sua filha em seus braços e lhe deu o alimento em sua boca. A menina se acalmou imediatamente e começou a alimentar-se.
— Mamãe?
Ouviu a voz de Alice, sua filha mais velha. Seu coração se apertou. Não gostava quando Alice acordava no meio da noite, pois poderia presenciar prováveis cenas de abuso de seu pai contra a mãe. Dormindo era melhor. A mais velha não tinha o sono leve, não acordaria por qualquer barulho. Suspirou.
— Acordou, Alice?
— Sim.— Ela levantou o tronco para encarar a mãe.— Papai chegou?
Ela se virou para a filha, observando seus olhinhos brilhantes e cheios de medo. Suspirou. Muitas vezes Alice presenciou as cenas de espancamento que Nádia sofria nas mãos de Alessandro. A menina chorava muito quando isso acontecia e geralmente saía para fora pedindo por socorro, mas seus antigos vizinhos não tinham o hábito de ajudar, porque sabiam que a cena se repetiria a cada semana pelo fato de Nádia nunca ter se separado de Alessandro. Ela era muito nova quando engravidou dele e mesmo contra sua vontade, acabou cedendo as vontades de sua mãe, que a convencia de que aquilo era o certo, casar-se com o pai de sua filha, mesmo sendo um homem muito mais velho e pior, seu padrasto. Desde a primeira vez que foi abusada sexualmente, Sabrina, mãe de Nadia sabia e deixou, pois tinha medo de perder o marido. Ela convenceu sua filha de que o que Alessandro fazia não era errado e que se ele quisesse fazer qualquer coisa com ela, deveria deixar. Nádiaera apenas uma criança. A menina cresceu sendo abusada desde os dez anos de idade, mas quando finalmente abriu seus olhos e viu que aquela situação era errada, tinha uma filha em seus braços e ainda possuía a menoridade. Ela se viu dependente do homem, e agora, depois de tantos anos, não se via mais distante dele, pois precisava criar as filhas e apesar de ser um péssimo marido, nunca tentou fazer nenhum mal às meninas, afinal, eram suas filhas e além do mais, nunca faltou alimento a elas, mesmo que as fontes de Alessandro fossem duvidosas.
— Chegou sim, filha.
— Ele está bravo? Vai te bater de novo?
Os olhos da menina se encheram de lágrimas, pelas lembrancas que vieram em sua mente. Alice já tinha idade suficiente para saber o que era certo e o que era errado, ela já sabia que violência doméstica era algo ruim e até já tentou denunciar, mas ninguém nunca quis a levar até uma delegacia de polícia, nenhum de seus antigos vizinhos realmente levavam Nádia a sério. Diziam que ela era só mais uma daquelas mulheres que gostavam de apanhar e no fim, acabava voltando para o marido. Nádia suspirou. Ela não sabia o que iria acontecer aquela noite, então apenas sorriu para a filha.
— Volte a dormir, meu amor.
Ela saiu do quarto deixando a filha mais velha amedrontada para trás. Entrando na cozinha, deu de cara com um Alessandro impaciente, procurando o que comer. Estava de costas para Nádia, mas a mulher já poderia sentir a tensão.
— Estes armários estão vazios!— Resmungou.— Não há nada aqui?
— Tem arroz e ovo frito na panela.
— Arroz? Ovo frito?— Se virou para Nádia com uma expressão de nojo.— Amanhã eu resolvo isso!— Bufou.— Escute isso.— Mudou de assunto, virando-se para ela.— Agora sou um dos funcionários do Perigoso.
Nádia juntou as sobrancelhas, desde que chegou a este lugar ainda não havia saído de casa, portanto não sabia quem era o tal Perigoso, mas imaginou que não seria ninguém tão certinho, pelo apelido dava-se a conhecer. Ela temeu que Alessandro pudesse estar se envolvendo em problemas. Nádia não temia por ele, apesar dos anos juntos a mulher não o amava, apenas acostumou-se a situação, mas ela temia por suas filhas, que por suas dívidas, agora com gente perigosa, que viessem cobrar em suas filhas, na tentativa de o atingir. Sentiu um arrepio lhe atingir e o medo passou a apoderar-se dela. Mordeu um de seus lábios. Não iria dizer nada naquele momento, afinal, seu marido parecia muito entusiasmado ao lhe contar a novidade e se contrariado, poderia irritar-se muito e ela não queria que tomasse atitudes impulsivas.
— E quem é esse tal de Perigoso?
Alessandro riu, como se fosse óbvio.
— Como, quem? Ele é simplesmente o dono de tudo isso aqui.
— Está se envolvendo com o dono do morro?— Nádia arregalou seus olhos.— Alessandro, sabe o quanto isso pode ser perigoso?
Ele apenas concordou com a cabeça, esbanjando um sorriso largo em seus lábios. Então tudo em Nádia estremeceu. Ela sabia que ali começaria seu pior pesadelo, pois estaria sempre com medo de alguém invadir sua casa e pegar suas filhas para fazer-lhe mal. Nádia suspirou. Não, não poderia deixar Alessandro trazer perigo às meninas.
— Sou mais novo gerente da "boca".
— O que pensa que está fazendo?
Criou coragem para falar, não poderia o deixar fazer mal a Melissa ou a Alice. Suas veias se encheram de raiva. Nesse mesmo instante ela viu os olhos dele se encher de fúria. Não admitia que a mulher elevasse a voz com o mesmo. Alessando se desencostou da pia onde estava escorado e cruzou seus braços, a encarando friamente.
— Como disse?
Nesse momento todas as suas forças se perderam, mas Nádia não poderia deixar de proteger suas filhas. A segurança delas deveria ser em primeiro lugar para ambos.
— Não vou permitir que traga perigo às nossas filhas.
— Acho melhor calar a sua boca, antes que eu me irrite. E pense bem. Vou te dar apenas uma chance.— Passou a língua nos lábios.
— Não vê que está trazendo risco para nossas filhas?— Ela continuou sem se importar com o aviso.— E se você ficar devendo esses homens como faz em seus jogos? Virão aqui e farão mal às...
Não houve tempo de falar. Alessando esbofeteou-a. Com o impacto de sua mão no rosto a mulher acabou virando-se bruscamente e consequentemente acordou sua filha, pois quase a derrubou de seu colo. A menina começou a chorar por ter acordado no susto.
— Nunca mais eleve sua voz ou me diga o que fazer!— Gritou.— Trarei sustento para você e essas duas idiotas!
— Não, você nos trará a morte.
— Cale a boca!
— Eu não vou mais me calar, Alessandro. Eu prezo pelo bem das meninas em primeiro lugar!
— EU MANDEI SE CALAR!!!
Outro tapa. Aquela foi mais uma noite onde o homem se irou e acabou por a espancar, mas diferente de outras noites, não foi só porque queria. Alessandro se surpreendeu porque dessa vez Nádia foi capaz de o desafiar, foi capaz de o enfrentar. Apesar de não demonstrar, estava realmente surpreso por ser confrontado pela primeira vez e pensou que não poderia deixar se repetir. Ele pegou Melissa com violência dos braços da mãe e a levou para o quarto, a colocando na cama. Viu que Alice estava acordada.
— Cuide de sua irmã.
Logo voltou para a cozinha, pegando no pescoço de Nádia e a jogando no chão, depois foi até ela novamente e rasgou sua camiseta em seu próprio corpo. A mulher nao gritou por socorro, não pediu compaixão, pois sabia que isso alimentava a ira de Alessandro, sentia muito mais prazer em agredí-la. Tirou o cinto de sua cintura, deixadoo lado da fivela para baixo, a verdade éque sentia prazer quando agredia Nádia. A mulher o encarava chorosa, já sabia o que haveria de acontecer. Suas costas eram marcadas pela fivela de seu cinto, isso aconteceu muitas vezes. Na verdade o corpo inteiro da mulher era marcado por agressões fortíssimas vindas de um só homem. Alessandro já estava acostumado com aquela situação e sinceramente, Nádia também estava, mas algo dentro dela, dessa vez gritava "basta". Ela estava começando a se rebelar.
— Vou te ensinar a nunca mais me desafiar.
E aquela foi mais uma noite onde era espancada e depois abusada pelo homem que todos pensavam ser seu marido, mas na verdade era seu abusador há treze anos. Mais uma vez ele fizera diante de suas filhas, pois os cômodos eram separados apenas por uma cortina. Nádia naquela noite percebeu que cenas como essa deveriam ser encerradas diante de suas filhas e ela faria isso, não sabia como, mais faria.
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Atualizado até capítulo 62
Comments
Maria Nogueira
começando a ler tô gostando espero que ela tome uma atitude para sair dessa
2024-12-07
0
Maria Marta de Faria Silva
é muito triste saber que muitas mulheres sofrem caladas por causa do medo,já passei por isso
2024-06-21
5
Vitoria Barbosa
nossa coitada da Nádia
2024-06-01
1