Falta Roberto

Júlia administra seu negócio com muito zelo. Para ela todos os funcionários merecem um tratamento especial, para que o desempenho coletivo seja o mais satisfatório. Por mais que ela não queira deixar seu negócio, sabe que pode deixar nas mãos eficientes de seu gerente. Ela passa todas as informações necessárias e vai para casa arrumar suas coisas. Dentre elas, faz força de memorização de como preparar o drink que Roberto tanto gosta.

_ Oi Bartolomeu! Tem alguma novidade na caixinha de areia? Parece que você não tem tido muito apetite ultimamente.

    Como sempre, ao chegar em casa verifica se está tudo bem com seu felino.

_ Hoje vamos fazer uma viagem especial. Espero que esteja com saudade dos seus primos, terá um longo fim de semana para se divertir.

    Bartolomeu usa coleira desde pequeno e sempre que pode Júlia o leva para passear como as pessoas comumente fazem com seus cães.

_ Vou precisar que você seja um bom menino e não faça nenhuma estripulia.

    Júlia liga a televisão que anuncia os ocorridos na cidade. O vídeo de Paula foi enviado para a principal emissora do Rio de Janeiro, enquanto a notícia passa, ela não pode ver de dentro do banheiro onde toma seu banho distraída. Ela termina o banho e ainda assim parece não notar o que está passando. Segue para varanda, acende um cigarro, olhando apenas para o céu e quanto mais imagina como será esse fim de semana perto de sua mãe, mais longas são as tragadas. Ter que passar um fim de semana ao lado de sua mãe lhe parece uma tortura. Seu telefone toca lhe puxando a atenção, é o Flávio.

_ Fala bebê!

_ Oi Júlia. Onde você está?

_ Estou em casa. Você conseguiria vir mais cedo? Assim podemos ir juntos.

_ Você não está vendo o que está acontecendo?

_ Como assim?

_ Em todos os lugares estão falando só nisso! Pessoas mordendo, um novo vírus que começou hoje cedo! Olha nas redes sociais!

_ Eu não uso nenhuma rede social lembra?

_ Na televisão também estão falando. Vá ver!

_ Espera!

    Júlia senta de frente a televisão e aumenta o volume. Os vídeos publicados agora são diversos. Inclusive outros hospitais emitiram suas notas. Júlia observa calada por um tempo e não acredita no que está vendo.

_ Que tipo de brincadeira é essa Flávio?

_ Eu não sei! Não tenho certeza, mas parece ser verdade.

_ Isso só pode ser uma piada. São canibais? Alguma droga? A uns anos atrás vi algo sobre um cara no metrô de sei lá onde mordendo as pessoas, afirmaram ser drogas.

    O telefone de Júlia anuncia uma segunda ligação.

_ Minha cunhada está me ligando. Vou atender, te retorno logo.

_ Júlia?

_ Oi Marina?

_ Como estão as coisas por aí?

_ Aqui tudo bem! Só que parece que as pessoas estão enlouquecendo por aí! Você está vendo o...

_ É sobre isso que quero te falar! Não estamos indo para uma comemoração esse fim de semana. Estamos indo para um lugar seguro, até que isso tudo que está acontecendo seja amenizado e resolvido.

_ Você quer dizer que acredita nessas notícias?

_ Não são notícias falsas. No hospital tiveram alguns dos primeiros pacientes, todos apresentaram os mesmo sintomas. Uma enfermeira foi mordida e em poucas horas veio a óbito. O problema é que ela voltou como um desses mordedores.

_ Não pode ser ver...

_ Mas é! Não temos tempo para brincadeiras na área da saúde. Venha para cá, iremos seguir com o plano e se Deus quiser teremos um lugar seguro para nos proteger.

_ Vou arrumar minhas coisas aqui e já falo com você. Até logo!

    Júlia permanece sentada a observar a televisão e quanto mais notícias consome, menos quer acreditar.

 

    Roberto senta na sala da mãe com o peito explodindo de ansiedade. Aguarda que ela arrume seus pertences e as vezes a ajuda afim de apressa-la. Ele manda mensagem para Marina perguntando se está tudo bem e fica vigiando o celular em busca de respostas.

 

    Marina recebe as notificações mas permanece em choque. Olha para janela com a esperança que tudo isso seja algo isolado. Algo dentro dela não acredita que isso possa ser o começo de um possível fim dos tempos. Não agora que seus filhos estão ainda começando suas vidas, suas aspirações ainda são tantas que não as vê se esvaindo com um mundo de carniças canibais. Ela finalmente olha para o celular, lê as mensagens de Roberto e resolve ligar.

_ Oi amor! Já está vindo?

_ Estou quase saindo. Mamãe já juntou os pertences. E vocês aí, como estão?

_ Estamos bem! Só aguardando que cheguem, e na verdade isso está me consumindo. Espero que todos cheguem logo ou posso cair dura aqui mesmo.

_ Calma! Estamos quase saindo daqui. O resto do pessoal também estão todos avisados?

_ Eu acabei de falar com sua irmã e ela está ciente de tudo! Mesmo que com muita contradição, resolvi seguir o coração, contei a verdade para Natália, ela parece bem na medida do possível. Acho que está sabendo administrar a situação melhor que eu. De cara ela ficou com medo, mas depois entendeu.

_ Ela é forte! Puxou você. Em breve estarei aí, deixe tudo arrumado, assim que der sete horas saímos! Um beijo! Deixa eu apressar minha mãe logo. Tá demorando muito, você sabe!

_ Combinado! Até logo!

    Natália sequer pisca ao olhar seu celular. As notícias afirmam o aumento de áreas infectadas e seu bairro é próximo a uma dessas áreas de maiores incidências, segundo atualizações. Na televisão a programação de costume deu vez as reportagens urgentes. O governo emite uma nota, pedindo para não se preocuparem, que o exército está agindo mesmo sem haver um plano de contingência específico para tal ocorrência. Para Natália, suas palavras são irrelevantes devido notório grau de nervosismo do repórter. Sua atenção é chamada para rua, onde um de seus vizinhos arranca os pneus no asfalto mostrando que ele confia no comunicado tanto quanto ela.

_ Mãe!

    Ela corre até a cozinha.

_ O Pai precisa chegar logo! Vamos deixar as bolsas no carro, vamos separar roupas com manga longa, calças em tecidos grossos. Temos que prender nossos cabelos! No caminho não saberemos o que vamos encontrar. Separe água em quantidade, não esqueça de manter uma bolsa de alimentos frescos junto ao acento traseiro. Falei com as crianças, vou voltar e deixar eles arrumados. Você precisa fazer sanduíches com o que encontrar na geladeira e tem que ser agora mãe!

_ Sim filha você tem razão!

    Natália percebeu que sua mãe poderia cair em esquecimento em seus próprios pensamentos assim como ela mesma. Foi a fagulha que precisava para tomar posse de sua personalidade protetora e sua percepção fugaz em solução de problemas.

_ Maria e Gustavo! Vamos nos vestir e preciso que vocês me ajudem a escolher uma roupa.

_ Há não! Muito chato isso!

_ Gustavo? Você precisa me ajudar com a Maria! A mãe está ocupada na cozinha pelo seu aniversário lembra? Então precisamos ajudar também, não seja egoísta.

    Gustavo pensa um pouco e demonstra mudar de ideia.

_ Tá certo então!

_ Eu quero assistir desenho!

_ Maria! Quando terminarmos tudo, prometo que coloco mais um pouco. Agora vamos!

    Marina escuta tudo próximo a porta da cozinha. Ela agradece profundamente por esse momento, apenas sente o enorme poder que esse simples diálogo chega em sua existência. Como mãe, sabe que fará qualquer coisa para mantê-los a salvo. Ela pega o celular e envia para  os outros do pequeno grupo a seguinte mensagem:

_ Estou em casa aguardando que chegue. Aqui estamos bem, não esqueça que precisamos estar juntos pelo menos uma hora antes da partida para criação de um plano seguro.

 

    Uma hora e meia depois Natália estava pronta com seus irmãos impecáveis. Marina está terminando de se vestir, seu trabalho na cozinha a manteve ocupada, um pouco menos pensativa. Tudo faz sentido agora, sua consciência diz que foco no bem estar de si própria e em todos que estão a sua volta será sagrado. Não haverá vez para lamentações e conflitos para desvia-la.

_ Que lindo ver todos arrumados e quietinhos. Estamos parecendo aquelas famílias de comercial de planos de saúde.

    Natália esboça um sorriso que da vez a um ar de preocupação.

_ Só falta o pai chegar!

_ Ele vai chegar.

    A campainha toca. Pela janela Marina consegue ver Paula chegando. Ela se anima um pouco e corre para atender a porta.

_ Oi! Fugi do hospital! Me sinto culpada, mas o medo era maior do que eu pude lidar! Por isso cheguei mais cedo! Aquilo lá está uma loucura. Juro! 

Elas se abraçam. Depois de anos trabalhando juntas, ambas se amam como duas irmãs e chegam a dizer que se conheceram em outras vidas.

_ Você está bem?

    Pergunta Marina.

_ Fora o medo de virar um cadáver, ficar me expondo de baixo de Sol e chuva querendo morder os outros o tempo todo. Estou ótima! É que eu tive que correr! Não deveria ter abandonado o hospital, será que essa culpa que estou sentindo vai me consumir?

_ Não acho que deva se preocupar com isso agora. Vai por mim!

_ E você?

_ Fora o nível de preocupação que ainda não  explodiu, estou ótima! Mentira! Quem eu quero enganar com essa cara! Me sinto tão desesperada que as vezes sinto literalmente minhas pernas bambeando. Vamos pra cozinha.

    Paula entra, cumprimenta as crianças e segue para cozinha com Marina.

_ Onde está o Roberto?

_ Foi buscar dona Eliana. Ele deve estar parado em algum lugar!

_ Ela mora em Botafogo?

_ Isso!

_ Tenho um amigo em Laranjeiras que me disse não demorar menos que cinco horas pelo Rebouças! Área de muitos hospitais. Fala pra ele vir pelo Aterro do Flamengo! Será melhor, ainda que demorado.

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Comments

pauliane belga

pauliane belga

cadê o Roberto que não chega...Dona Eliana demora muito

2023-12-24

1

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