Coisas que as câmeras não podem capturar

Automaticamente, estou torcendo para que Christopher não perceba nada, que ele não veja através da maquiagem cara ou das joias douradas e, muito menos, através da minha arrogância. Meu estômago dói, refém da ansiedade que seu olhar desperta. Levo as unhas até o local, arranhando a pele. Por debaixo das roupas de grife, vermelhos e roxos pintam cada parte, os mais recentes escondidos com band-aids. Calma, ele não pode ver; ninguém consegue.ㅡ Repito a mim mesma. Contudo, não adianta. Continuo me sentindo despida aos seus olhos.

A respiração acelera, assim como as minhas batidas cardíacas, e acho melhor quebrar o contato visual.

ㅡ Tanto faz.ㅡ Resmungo, bufando enquanto encaro a janela, assistindo ao pôr-do-sol.

O céu inteiro parecia estar queimando, e achei o cenário a coisa mais linda ㅡ depois de mim, obviamente.ㅡ do universo inteiro.

ㅡ Olha…ㅡ Ajeitou-se melhor no sofá, com o cenho franzido e uma feição séria, enlaçando nossas mãos.ㅡ Só acho que os dois devem um pedido de desculpa.

Usando o indicador e o polegar, o produtor segura o meu queixo, cruzando nossos olhares de novo; eu engulo a seco, pois as íris castanhas encaram as minhas tão carinhosamente que não me sinto digna desse olhar.

ㅡ Aish! ㅡ Bufo, brava.

ㅡ Principalmente você, Daisy, que fez inúmeras merdas e ainda quer sair ganhando.ㅡ Respiro fundo, teimosa em aceitar seu ponto de vista, tanto que me livro do aperto imediatamente.

ㅡ É a segunda vez hoje que você apoia outra pessoa.ㅡ Faço bico. A reclamação tem fundamento, referente aos elogios que foram dados à Ji-soo.

ㅡ Ciumenta.ㅡ Ri, dando-me um beijo na bochecha e levantando do estofado, no intuito de seguir até a cozinha.

Volto a minha atenção à TV, onde o corredor de madeixas rosas exibe-se pela sua beleza e fala de mais uma das suas vitórias. Invejo-o, ele parece amar estar em frente às câmeras, mesmo jovem demais.

ㅡ Sukuna, você ficou, de novo, em primeiro lugar.ㅡ Um dos repórteres americanos exclama, impressionado. A camiseta branca dá destaque para o crachá preto e branco, enquanto alguns fios encontram-se grudados na testa.ㅡ Diga, você já esperava por isso?ㅡ A destra arruma o óculos, que cai toda hora; a esquerda segura o microfone, agora, direcionado à boca delicada e pequena do atleta.

ㅡ Obviamente, sim.ㅡ Dá de ombros, enxugando o suor e exibindo os dentinhos brancos, decorados por um aparelho com braquetes rosados.

ㅡ Por quê? ㅡ O homem pergunta, visivelmente confuso; surpreso.

ㅡ Simples! ㅡ Riu, vendo o entrevistador arquear uma das sobrancelhas.ㅡ Sou perfeito.ㅡ A confiança,  ou narcisismo, do menino desencadeia inúmeras risadas.

ㅡ Certo,certo.ㅡ A voz sai soprada, dando microfonia no final.ㅡ  Como alguém poderia alcançar a perfeição?ㅡ Após coçar a garganta, os questionamentos retornam.

ㅡ Nasça de novo.ㅡ  Olha para a plateia, parecendo procurar alguém. As íris parando em um ponto fixo; uma pessoa, talvez. Logo, Sukuna pisca e gritos femininos inundam a quadra, obrigando-me a abaixar o volume da televisão.

ㅡ Christopher, você possui um péssimo gosto.ㅡ Reclamo, desligando a TV.

Essa criança realmente não tem vergonha na cara… E, além disso, é um narcisista do caramba, que ama os holofotes.

ㅡ Olha, descobri o porquê gosto de você.ㅡ Chris ri e eu faço uma nova careta.

Quero ver quanto tempo isso vai durar…

No começo, eu também amava os holofotes; amava ter as pessoas olhando pra mim e dizendo o quão esplêndida sou. Adorava chegar nos bastidores para que os staffs pudessem cuidar da minha imagem. Acompanhava, entusiasmada, a staff maquiar o meu rosto; mudar cada partezinha dele, e gostava da transformação.  Era divertido.

Gostava do frio que atingia a barriga, pensando nas milhares de pessoas que compraram os ingressos, somente para assistir ao show da Daisy Kim. Dava pulinhos por saber que estava na hora de experimentar as roupas, pois não era, nem um pouco, cansativo naquela época. Porém, não gosto mais.

Não gosto das luzes ofuscantes, dos flashes, dos gritos ensurdecedores, do calor ou do  suor escorrendo, da exaustão e fraqueza. Odeio ver os ossos serem camuflados com cosméticos. Agora, as roupas, antes apertadas, são incrivelmente largas, e não tenho prazer nenhum em observar o estilista apertá-las sempre que preciso trocar de look. A mesma ansiedade gostosinha revira o estômago vazio; as pernas, trêmulas de tanto dançar. A voz ameaça falhar, e sou obrigada a beber água para amenizar os efeitos. Contudo, sei que, no dia seguinte, ela vai estar morta.

Encaro a multidão, sorrindo. Aliás, minha face estará na galeria de todos esses  estranhos. Depois, nas redes sociais. E, todo mundo sabe que elas não perdoam. Então, continuo ignorando a tontura, os joelhos fracos ou o nó, preso à garganta.

Infelizmente, a plateia não ignora nada: A microfonia, os lábios trêmulos, os olhos arregalados, a súbita pausa da música e, sequer, o corpo, envolto à escuridão.

Escuto passos apressados, talvez desesperados e preocupados com o meu bem-estar. Logo, uma figura masculina se põe à minha frente, borrada por causa das lágrimas quentes. Sinto a primeira lágrima molhar a bochecha direita; o canto dos meus lábios repuxam-se, seguido de suspiros, que expressam um breve alívio.

Os cabelos negros, repartidos, deixam a testa à mostra. O olhar soturno encara o meu, e noto o coração acelerar. O terno vermelho reflete as luzes coloridas; sou obrigada a piscar várias vezes, incomodada com a claridade.

Mãos seguram os meus braços, ajudando-me a ficar de pé; minhas unhas agarram o tecido macio do traje elegante, um claro sinal de angústia e medo.

ㅡ Jungkook? ㅡ Seu nome saiu baixinho, um miado tímido e fraco.

ㅡ O quê? ㅡ A exclamação esboça confusão, assim como o cenho franzido; a voz baixa também. Porém, firme.

Assisto os fragmentos de memórias se afastarem, dando espaço para uma nova memória; uma real. De repente, o alívio escorre pelo ralo; resta apenas a vergonha e a dor.

ㅡ Desculpe, cometi um engano.ㅡ Quebrei o contato visual, coçando a garganta.

Pelas vestimentas, deduzo que o coreano é um dos meus dançarinos, que veio presenciar a minha desgraça de perto.

ㅡ Está tudo bem? ㅡ Pergunta, calmo.

ㅡ Sim.ㅡ Respondi, ansiosa para mudar de assunto e esquecer o acontecido. Entretanto, há outras pessoas  preocupadas, ou curiosas demais, que esperam por alguma explicação. ㅡ  Não se preocupem com o tombo, deve ter sido vento.ㅡ Esforço-me para sorrir, escutando os risos dos fãs, que parecem aliviados.

ㅡ Que vento forte, ein.ㅡ O dançarino sussurra, próximo à minha orelha; não consigo reprimir o riso sincero.

ㅡ É, ele faz academia.ㅡ Devolvo a piada, ganhando uma risada gostosa do garoto, cuja boca tem formato de coração.

ㅡ Daisy?! ㅡ Conforme escuto Christopher gritar, meus devaneios vão se perdendo, e sobra somente a sensação de leveza que àquela noite deixou.

ㅡ Oi? ㅡ digo, dessa vez, prestando atenção.

ㅡ Até que enfim! ㅡ Exclama, sorrindo.ㅡ Achei que estivesse em Nárnia.ㅡ Zomba enquanto volta a cozinhar, e mostro-lhe a língua.ㅡ Quer ficar para o almoço?ㅡ Estremeço com a pergunta, procurando uma desculpa palpável; uma que eu ainda não tenha usado.ㅡ Está quase pronto.ㅡ Anuncia.

Christopher Park abre a panela, aspira o aroma e elogia a si mesmo pelo trabalho bem feito, na tentativa de me convencer a dizer "sim".

ㅡ O cheiro parece ótimo, mas preciso resolver as coisas com Jungkook.ㅡ Levanto e caminho em direção ao asiático, pronta para me despedir.

ㅡ Não pode ser depois? ㅡ Faz bico, com as mãos na cintura. Todavia, não recusa o abraço e o beijo singelo, que marca sua bochecha de batom vermelho-sangue.

ㅡ Não, o mundo já é difícil demais com somente vinte quatro horas.ㅡ Brinco, risonha.ㅡ Qualquer segundo faz diferença. ㅡ Caminho até a saída, pegando a minha bolsa Chanel, deixada na mesa de estar, junto com o casaco vermelho-carmesim.

Capítulos
1 My Time
2 Um roqueiro rude, mas muito quente
3 Meras mentiras de jovens otários
4 Lonely
5 Nomes nunca antes tão amargos e estranhos
6 O preço da fama
7 Nem tudo é a prova d'água
8 Happy Pills
9 Quem avisa, amigo é
10 Uma margarida que não floresceu
11 Mentiras solitárias que parecem suportáveis
12 Você está satisfeita?
13 I don’t wanna live forever
14 Nenhum castigo faz Daisy Kim implorar
15 Um caminho que nunca tem fim
16 Brincar com a loucura pode realmente enlouquecer alguém
17 Às vezes, um choque de realidade pode ajudar!
18 Parabéns, Daisy
19 O glamour é como uma máscara.
20 Coisas que as câmeras não podem capturar
21 Era apenas um jogo, mas ele se escondeu para sempre
22 Se quer tanto, implore
23 Velhos hábitos sempre falam mais alto
24 O que acontece quando se esquece: limites e dignidade?
25 Deve ter sido o vento
26 Parabéns, Daisy
27 Ela é uma bagunça em meio a tanto nada
28 Às vezes, até respirar dói.
29 De doces a risadas amargas
30 Pedidos sinceros e ligações inesperadas
31 Onze minutos para a solidão
32 Alguém para chamar o seu nome
33 Dez anos com palavras entaladas na garganta
34 Quinta. É quinta-feira ainda.
35 Ele vai sorrir.
36 Canção de Ninar
37 Cruel Demais
38 É muito tempo...
39 Parece estupidez...
40 Muitas Desculpas Para Um Dia Só
41 Stay Alive
42 Ainda
Capítulos

Atualizado até capítulo 42

1
My Time
2
Um roqueiro rude, mas muito quente
3
Meras mentiras de jovens otários
4
Lonely
5
Nomes nunca antes tão amargos e estranhos
6
O preço da fama
7
Nem tudo é a prova d'água
8
Happy Pills
9
Quem avisa, amigo é
10
Uma margarida que não floresceu
11
Mentiras solitárias que parecem suportáveis
12
Você está satisfeita?
13
I don’t wanna live forever
14
Nenhum castigo faz Daisy Kim implorar
15
Um caminho que nunca tem fim
16
Brincar com a loucura pode realmente enlouquecer alguém
17
Às vezes, um choque de realidade pode ajudar!
18
Parabéns, Daisy
19
O glamour é como uma máscara.
20
Coisas que as câmeras não podem capturar
21
Era apenas um jogo, mas ele se escondeu para sempre
22
Se quer tanto, implore
23
Velhos hábitos sempre falam mais alto
24
O que acontece quando se esquece: limites e dignidade?
25
Deve ter sido o vento
26
Parabéns, Daisy
27
Ela é uma bagunça em meio a tanto nada
28
Às vezes, até respirar dói.
29
De doces a risadas amargas
30
Pedidos sinceros e ligações inesperadas
31
Onze minutos para a solidão
32
Alguém para chamar o seu nome
33
Dez anos com palavras entaladas na garganta
34
Quinta. É quinta-feira ainda.
35
Ele vai sorrir.
36
Canção de Ninar
37
Cruel Demais
38
É muito tempo...
39
Parece estupidez...
40
Muitas Desculpas Para Um Dia Só
41
Stay Alive
42
Ainda

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