Encosto a cabeça no banco de couro, levando os meus olhos caramelos às ruas movimentadas de Seul. Um suspiro escapou por minha boca assim que avistei o telefone público no mesmo lugar de doze anos atrás. Muita coisa mudou desde então. A cor vermelha, não mais vibrante como me recordo, está desbotada. Não há filas gigantescas ao redor, esperando para fazer ligações. Homens, mulheres, pais, avós, tios, filhos, amigos e muitos outros costumavam ficar horas na fila, não importava o horário, tão pouco o clima. Alguns mandavam recados, contavam fofocas, faziam declarações amorosas ou pediam desculpas. Contudo, uma tristeza invade o peito, vendo o quão esquecido se tornou. Impressionante, algo que, um dia, costumava ser a preferência de todos, hoje é só um mero objeto, no qual as mesmas pessoas, muitas delas que antes lhe adoravam, passam reto, como se ele não significasse nada.
Tudo é substituível.
Faz anos, mas lembro claramente de usá-lo para avisar papai de que voltaria tarde. O Sol escaldante, os pés doloridos, o suor escorrendo pela testa e a barriga roncando. A ansiedade por ver, lentamente, a fila andando. Eu contava e recontava as moedas, evitando olhar para o relógio azul, preso ao pulso. Parecia uma eternidade. Alívio e felicidade arrancavam sorrisos meus logo que chegara a minha vez. O metal gelado em contraste com as pontas dos dedos, esses que perambulavam pelos botões redondos, discando o número do serviço de meu pai. O telefone na orelha enquanto barulhos baixos da linha de espera ajudavam na minha falta de paciência.
ㅡ Alô? ㅡ Ouço a voz grave dizer e fica impossível não sorrir diante da imagem sorridente que se forma em minha mente.
Manchas de graxa no rosto jovial, pele dourada, íris cor de mel, exatamente iguais às minhas. Cabelos negros e escorridos, cobrindo boa parte das orelhas. Vestido com o seu típico macacão azul-escuro, junto de um boné simples. O tênis vermelho, apesar de velho e surrado, continuava sendo o preferido dele.
Parece que foi ontem.
Gritos aparecem, levando as lembranças embora, e arregalei os olhos diante da multidão que cerca a empresa. Cartazes coloridos, com as mais variadas cores, destacam o meu nome. Outra vez, respiro fundo.
ㅡ Daisy, já chegamosㅡ Alerta uma das funcionárias, os olhos à procura de uma falha na minha máscara.
ㅡ Percebiㅡ Essa única palavra foi o suficiente para que ela entendesse, abrindo a porta em seguida.
O prédio alto e reluzente, uma parte escondida atrás das nuvens. Um medo avassalador arrepia a pele e, novamente nesse dia, suspiro. Coloco os pés para fora, acenando e sorrindo, enquanto ignoro as batidas de meu coração, acelerando pouco a pouco. Achei que fosse me acostumar depois de um tempo, mas continuo a mesma garotinha assustada de dez ou onze anos atrás. Àquela mesma adolescente que deseja, desesperadamente, voltar para a casa e passar à tarde lendo sua trilogia preferida, como uma pessoa normal faria. Todavia, Daisy Kim não é comum, mas sim, uma artista, famosa mundialmente. Era isso o que eu queria, estou contente.
Entrei ao lado dos funcionários, os seguranças barrando aquele mar de gente, uns tentando entrar, outros somente gritando até ficarem roucos.
Sinto-me segura outra vez, longe de todos aqueles olhos que julgam. Aprendi desde cedo que as celebridades passam o resto de suas vidas sendo observadas e que cada uma de suas ações possui consequência. O preço da fama.
Vejo a secretária Ji-Soo vindo ao meu encontro, o barulho do salto alto anunciando sua chegada. As roupas pretas e sociais estavam justas em seu corpo curvilíneo. Não consigo deixar de reparar no corte Chanel que enfeita a face maquiada, com uma franja para cobrir a testa.
ㅡ O CEO quer vê-la imediatamente.ㅡ Desgosto da forma que sua frase saiu carregada de desdém e superioridade.
ㅡ Diga-me algo que eu não sei.ㅡ Uma careta molda o meu rosto, as sobrancelhas arqueando-se dentro de segundos.
ㅡ Você é uma filha da puta, mas acho que já sabe disso, não é?ㅡ Deu um sorriso sarcástico e retribuí o gesto.
ㅡ E você é uma encalhada.ㅡ Diante do comentário, intencionalmente, ofensivo, Ji-soo bufa e sai na frente, pisando pesado.
A cena me faz rir.
Ainda que Park Ji-soo tenha motivos para me odiar, prefiro pensar que ela é apenas uma mulher infeliz, com seus vinte e nove anos de idade, pelo fato de que dificilmente encontrará um marido, ou que nunca ganhará a quantia que eu recebo.
ㅡ Boa sorte.ㅡ Resmungou, abrindo as portas de vidro.
ㅡ Não preciso de sorte.ㅡ Dei-lhe uma piscadela, fazendo-a revirar os olhos.
Engulo a seco assim que fico sozinha na sala luxuosa de meu chefe. Números de um até dez ocupam a mente, sem pressa alguma. Desvio a atenção para o piso bonito de cerâmica, os quadros de Delacroix pendurados nas paredes pretas e brancas ou nos vários discos de seus artistas, todos um sucesso atrás do outro. Queria evitar pensar no velho idiota com quem terei de forçar uma risada ao ouvir piadas ruins, redirecionar suas mãos bobas, mas de forma doce e gentil.
ㅡ Não é lindo? ㅡ Ouço o tom masculino soar atrás de mim, a figura esguia vestindo um terno e de mãos cruzadas.ㅡ O desespero, a brutalidade… tudo é tão magnífico!ㅡ O sorriso medonho que brota em seus lábios causa calafrios por toda a minha pele, e não sei como responder.
O quadro retrata o momento exato em que os turcos invadiram as terras dos gregos, matando homens, abusando mulheres e crianças. São muitos sentimentos, menos o de beleza. Todavia, Baek não gosta de ser contrariado.
ㅡ Sim, uma obra de arte.ㅡ Comento, deixando-o satisfeito.
De certo modo, não menti, nem concordei com sua idiotice. "O Massacre de Quios" tem grande valor nos leilões. Sendo assim, considerada uma obra de arte.
O terno escuro passa uma imagem de educado, mas todos que trabalham com Baek sabem perfeitamente bem que não há nada de polidez neste velho. Os sapatos polidos deixam explícito o quanto ama estar elegante, sempre na moda. Pelo menos, concordamos em uma única coisa.
ㅡ Então, vamos direto ao ponto.ㅡ Sento na poltrona de couro, cruzando as pernas.
ㅡ Está mais atrevida do que me recordo, Daisy.ㅡ A silhueta caminha lentamente, sorrindo ladino, e observo-o sentar no sofá à frente, já que roubei seu lugar.
ㅡ Aprendi muito no exterior.ㅡ Retribuo o sorriso, confiante o bastante para encará-lo sem medo.
Timidez e vergonha não combinam com Nova Iorque. Digamos que as pessoas de lá eram bastante competitivas, e tive que lutar pelo meu espaço, ou morrer tentando. Os fortes se aproveitam dos fracos.ㅡ Era literalmente isso que acontecia naquela cidade, onde nossos sonhos viram realidade. É, o meu virou. Porém, ainda sou a mesma Daisy que atravessou o oceano para cantar?
ㅡ Estou vendo.ㅡ Riu. ㅡ Para onde foi a garotinha tímida que chorava por tudo? ㅡ Tranco o maxilar e respiro fundo, levantando a cabeça para manter a compostura.
Odeio lembrar de quem eu era, insegura, medrosa, inocente demais. E, o CEO sabe disso, torturando-me sempre que tem a chance. Ele sabe toda a minha história...
Na época de trainee, a indústria musical coreana já me considerava velha para entrar na empresa. Não tinha a flexibilidade dos outros trainees menores e era difícil aprender as coreografias, pois nunca frequentei uma aula de dança. Professores, alunos e muitos outros me humilhavam porque eu não estava nos padrões enquanto minha boca permanecia fechada.
Não, hoje não.
ㅡ Pro túmulo.ㅡ Respondo.ㅡ Morta e enterrada.ㅡ Analiso as feições do rosto enrugado que, assim como qualquer outra pessoa, procura uma brecha na minha confiança.
É desta forma que vivo, rodeada de pessoas procurando falhas nas minhas palavras, nas minhas emoções, na minha carreira e até nos meus relacionamentos. Basta somente um trinco para acabar com o que conquistei, sendo que passei anos tentando realizar os meus sonhos. Injusto, não? É incrível a forma que uma única ação ou palavra pode te arruinar. Eles colocam quem os obedece em pedestais e os tiram quando são contrariados, para logo depois, colocar outro. Então, alguém que era especial cai no esquecimento. Pergunto-me se, como aquele telefone vermelho, serei substituída e esquecida algum dia.
Provavelmente, sim.
ㅡ Quais são suas ideias para o álbum?ㅡ Pergunta, inclinando um pouco para alcançar a garrafa de vinho na mesa.
ㅡ Queria fazer algo mais… impactante.ㅡ Aceito a taça, levando-a em direção à boca e apreciando o gosto doce.
ㅡ Exemplo? ㅡ Arqueia as sobrancelhas, interessado.
ㅡ The Boss.ㅡ O sotaque americano combina perfeitamente com a minha voz.
Anseio pela ideia de mostrar do que sou capaz, brilhar no topo da billboard HOT 100. Construir um castelo em que posso, realmente, reinar.
Luzes brilhantes, roupas de gala, um tapete vermelho e infinitos aplausos para Daisy.
ㅡ Chefe? ㅡ Tento não rir da expressão confusa.ㅡ Do quê? ㅡ Pergunta.
ㅡ A questão não é o quê, e sim, quem.ㅡ Corrijo, esperando que pergunte novamente.
ㅡ Pois bem.ㅡ Sigo os gestos de suas mãos, pedindo para que eu continue.
ㅡ De todos.ㅡ Respondo, sem rodeios.
Nunca achei que fosse entender os vilões das histórias. Contudo, estou tão faminta por poder quanto eles. Pretendo me tornar uma deusa, dominar o mundo. Cleópatra? Nefertiti? Serei mais poderosa do que elas.
ㅡ Quando se tornou intensa, ambiciosa? ㅡ O riso soprado esconde um sentimento de satisfação.
De repente, um estrondo ronda o local, e percebo a porta ser aberta com força.
ㅡ Mas que... porra!ㅡ Um moreno alto entra, xingando enquanto esmurra a parede. Seus olhos em um tom intenso, quase pretos, e estranhamente, familiares encontram os meus em um segundo.
Jaqueta de couro, calça preta, justa nas coxas fartas. Piercing na sobrancelha esquerda, longhair. Tudo indicava apenas uma coisa: Roqueiro.
Minha imaginação fértil faz meu corpo queimar, e me pego mordendo o lábio.
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Choi Ara
Aaaaaah, fico muito contente que você gostou. A minha diversão é ficar imaginando os personagens e descrevendo cada pedacinho deles ksksks Obrigada por ler!
2023-07-30
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rofik 1234
Adorei! ❤️
2023-07-29
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ella ellie
Adorei a forma como a autora descreve os personagens.
2023-07-29
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