I don’t wanna live forever

Ainda está escuro quando acordo, meio sonolenta e confusa. A janela aberta permite que o vento adentre o quarto, balançando as cortinas brancas, às quais ofuscam um pouco a luz do luar.

Bichinhos de pelúcia enfeitam o guarda-roupa branco, com detalhes em azul-bebê. Os posters dos Beatles e as fotos de fuscas coloridos decoram a parede do quarto. Guardado em caixas coloridas, estão os discos de vinil; os livros, espalhados pela cabeceira. Presentes de papai, ele amava ler e me incentivou a ter os mesmos hábitos. Subitamente, sentimentos de tristeza e saudade assolam a alma, as lágrimas já caindo no único quadro que tenho dele, ao qual durmo abraçada todas as noites. Seu sorriso é contagioso, diferente do último que ganhei. A aparência viril e bastante saudável foi aos poucos substituída pela imagem frágil: O rosto magro, com a barba por fazer, as olheiras  que evidenciam o cansaço e o riso amarelo são as únicas coisas restantes dele. Não há um macacão azul-escuro cobrindo o corpo esguio, somente seu pijama de carros, amenizando a situação deplorável do meu pai.

Mal tenho tempo de imaginar que horas são, pois barulhos de vidros quebrando chegam aos meus ouvidos, e sento na cama, os pés tocando o piso gelado. Preocupada, levanto, para ir em direção à porta, destrancando-a. Sinto o medo revirar o estômago, a respiração faltar, e arrasto as pernas, com as sombras tentando me impedir de continuar, grudadas em meus tornozelos como se tivessem unhas, talvez garras.

Meus dedos trêmulos tocam a parede, na qual meu corpo se apoia enquanto segue pelo corredor frio e extenso. Não há muitas luzes acesas, então hesitei em descer as escadas, apenas me agachando para enxergar entre os espaços do corrimão de madeira. Meus olhos, ainda pesados, esforçam-se para observar o casal brigando, bem no meio da sala. O homem, alto e robusto, aponta um dedo para a mulher, que veste somente uma camisola branca. Apesar de parecerem que estão gritando, não consigo ouvir nada, da mesma forma que não entendo quando a figura feminina pega a bolsa e o casaco, com a intenção de seguir para a porta. Porém, é impedida. Ela tenta se desvencilhar do aperto conforme diz, aos berros:

ㅡ Me solta! ㅡ Tenta reagir, medindo forças em vão.

Um desespero invade o peito, pois qualquer um que visse a cena saberia o que está próximo de acontecer, e um arrepio percorre os ossos. A atmosfera pesada se mistura com a escuridão, lembrando um filme de terror. Minha respiração está descompassada e meu coração acelerado, tanto que mal posso raciocinar, somente observar.   Cogito chamar ajuda, interferir… No entanto, não há muito que eu possa fazer. Observo, envolta do silêncio enquanto imploro para que alguém ajude, mesmo sabendo que essa é outra coisa inútil. Geralmente, nos filmes ou contos de fada, o herói sempre chega a tempo de salvar a mocinha. Então, quem virá salvá-la agora? Será que existe mesmo uma alma bondosa que tenha coragem o suficiente para ajudar? Não, ninguém nunca veio; ninguém nunca se importou com os inúmeros pedidos de socorro, pelo contrário, fingem não ouvir o choro. Enquanto alguns dormem tranquilos, outros passam a noite brincando de esconde-esconde, torcendo para que seu esconderijo não seja achado.

Gritos agudos ecoam pelo cômodo, e sinto-me covarde demais para assistir.

Despertei assustada, agora sentada no sofá, tentando recuperar o fôlego. Olho ao redor, à procura de alguma coisa. Suspiro pelo excesso de branco, diferente do meu antigo quarto. Às vezes, sinto falta das paredes amarelas, das fotos de fuscas e pôsteres das minhas bandas favoritas, dos bichinhos de pelúcias, decorando noventa por cento do cômodo, das caixas coloridas e dos discos de vinil, que eu colocava para tocar a tarde inteira. Hoje, não tenho mais nada disso. Na verdade, não preciso mais. Meus olhos se demoram na janela, nas estrelas que decoram o azul escuro do céu. Solto um suspiro, de novo. Odeio o fato de acordar e encontrar o mesmo cenário de quando fui dormir, pois parece que o tempo não passa; de que estou vivendo um loop. E, se for pra ser assim, não quero, nem um pouco, viver para sempre.

Escuto outro grito, que não faz parte dos meus fragmentos de memória. Um sentimento de desespero subiu à bile, com meu coração acelerado. Corro até o som estridente, enxergando embaçado por causa das lágrimas que não param de cair. Toco a campainha, mas ninguém atende, então fecho a mão e bato cinco vezes na porta, todas com força, até que ela enfim abre, revelando um homem descabelado. A camisa social está aberta, a calça preta surrada; seus olhos cerrados tentando me intimidar.

Olho pra cima e nos encaramos; ele com 1,80 de altura, e eu com os meus 1,60. Ficando na ponta do pé, consigo uma pequena visão do espaço. Há vidros espalhados pelo chão, manchas de vinho pelo tapete felpudo da cor bege, um vaso branco quebrado e rosas despedaçadas. Encostada na parede, vejo uma mulher, abraçada ao próprio corpo; os lábios tremendo e o antebraço sangrando, aparentemente, pelos cortes superficiais. Os cabelos bagunçados, caídos sobre os ombros. Ela parecia desesperada, com a respiração descompassada. A cena toda é muito familiar.

ㅡ O que foi? ㅡ Estremeço ao escutar a voz grave.

Por um segundo, sinto medo, voltando a ser a Daisy de onze atrás. Quero sair, esconder-me, só voltar quando tudo estiver bem porque é isso que sei fazer: Fugir. Entretanto, cansei de dizer a mim mesma que tudo se resolverá, implorando para que alguém ajude. Determinada, estufo o peito enquanto minha mente lista as várias desculpas que posso usar. Barulho, reclama do barulho.

ㅡ Sabe que horas são? ㅡ Cruzo os braços, arqueando uma sobrancelha enquanto analiso a face à frente. Sua expressão de " foda-se" me irrita profundamente. ㅡ Três fucking horas da manhã. ㅡ Esbravejo.

ㅡ Quem, diabos, é você? ㅡ Seguro a vontade de agredi-lo, mas sem deixar de imaginar a marca da minha mão na cara bonita dele.

ㅡ Você tá brincando, não é? ㅡ Eu ri em escárnio, desacreditada, e ele nega, não muito interessado.ㅡ Daisy Kim!

ㅡ Era pra te conhecer? ㅡ A pergunta causou uma leve dor de cabeça e, se não existisse uma lei contra assassinatos, este idiota estaria morto agora.

No começo, não pretendia me sentir ofendida. Porém, explicar quem sou eu, Daisy Kim, realmente arruinou o meu humor, e, sinceramente, não sei o porquê continuo aqui, falando com pessoas que sequer merecem o meu tempo. Estou ocupada, poderia estar preparando algumas músicas do meu álbum, exercitando-me ou qualquer coisa útil. Contudo, estou aqui… Explicando algo que até crianças de dois anos saberiam.

Diante da expressão desatualizada dele, desisto de explicar, bufando.

ㅡ Whatever, apenas faça silêncio ou...ㅡ Sou interrompida bruscamente pelo idiota e seguro a vontade de estrangulá-lo.

ㅡ  Ou quê? ㅡ Levanta um dos supercílios, cometendo o erro de duvidar da minha capacidade.

ㅡ Ou chamarei a polícia.ㅡ Acostumada, não tenho dificuldades em não demonstrar fraqueza na hora de ameaçá-lo, ignorando minhas pernas, levemente, trêmulas.

Reprimo um sorriso ao ver que a ameaça, dessa vez, funciona. Ele estufa o peito, aperta a madeira, como se quisesse me assustar. Faço exatamente o contrário, encarando-o com superioridade. Aliás, sou Daisy Kim, um fenômeno mundial. Não vou abaixar a cabeça para ninguém e quero deixar claro que jamais serei amedrontada outra vez. Portanto, eu imito seus movimentos, peitando-o o máximo que consigo.

ㅡ Certo.ㅡ Resmungou, apressando-se em fechar a porta. Porém, impeço-o de continuar.ㅡ O que foi? ㅡ Bradou, impaciente e nervoso.

ㅡ Não está esquecendo de uma coisa? ㅡ Arqueei as sobrancelhas, quase rindo de sua expressão confusa.ㅡ Desculpas, peça desculpa pela grosseria.

O homem sorri desacreditado, parecia estar zombando comigo. Desvia o olhar do meu, como se o pedido fosse a pior ofensa que já ouviu em toda a sua vida. Cruzo os braços, disposta a esperar o dia inteiro, caso seja preciso. Ainda que o ar gelado me cause calafrio e deixe a ponta do nariz gelado, não permito transparecer nenhuma fragilidade, sempre encarando-o superior. Batuco os dedos sobre a pele, contando os segundos necessários para, finalmente, ouvir somente uma única e simples palavrinha:

ㅡ Desculpe.ㅡ O sussurro vem grotesco, os lábios recusam-se a abrir, tanto que mal escuto o que foi pronunciado com tamanho desgosto.

ㅡ Ah, qual é.ㅡ Zombo, sorrindo sarcástica.ㅡ Toda essa demora pra dizer só isso? ㅡ Tombei a cabeça, rindo da aparente raiva em suas entrelinhas.ㅡ Vamos, você pode fazer melhor. ㅡ Instigo, querendo que o coreano diga algo além de "desculpas".

Capítulos
1 My Time
2 Um roqueiro rude, mas muito quente
3 Meras mentiras de jovens otários
4 Lonely
5 Nomes nunca antes tão amargos e estranhos
6 O preço da fama
7 Nem tudo é a prova d'água
8 Happy Pills
9 Quem avisa, amigo é
10 Uma margarida que não floresceu
11 Mentiras solitárias que parecem suportáveis
12 Você está satisfeita?
13 I don’t wanna live forever
14 Nenhum castigo faz Daisy Kim implorar
15 Um caminho que nunca tem fim
16 Brincar com a loucura pode realmente enlouquecer alguém
17 Às vezes, um choque de realidade pode ajudar!
18 Parabéns, Daisy
19 O glamour é como uma máscara.
20 Coisas que as câmeras não podem capturar
21 Era apenas um jogo, mas ele se escondeu para sempre
22 Se quer tanto, implore
23 Velhos hábitos sempre falam mais alto
24 O que acontece quando se esquece: limites e dignidade?
25 Deve ter sido o vento
26 Parabéns, Daisy
27 Ela é uma bagunça em meio a tanto nada
28 Às vezes, até respirar dói.
29 De doces a risadas amargas
30 Pedidos sinceros e ligações inesperadas
31 Onze minutos para a solidão
32 Alguém para chamar o seu nome
33 Dez anos com palavras entaladas na garganta
34 Quinta. É quinta-feira ainda.
35 Ele vai sorrir.
36 Canção de Ninar
37 Cruel Demais
38 É muito tempo...
39 Parece estupidez...
40 Muitas Desculpas Para Um Dia Só
41 Stay Alive
42 Ainda
Capítulos

Atualizado até capítulo 42

1
My Time
2
Um roqueiro rude, mas muito quente
3
Meras mentiras de jovens otários
4
Lonely
5
Nomes nunca antes tão amargos e estranhos
6
O preço da fama
7
Nem tudo é a prova d'água
8
Happy Pills
9
Quem avisa, amigo é
10
Uma margarida que não floresceu
11
Mentiras solitárias que parecem suportáveis
12
Você está satisfeita?
13
I don’t wanna live forever
14
Nenhum castigo faz Daisy Kim implorar
15
Um caminho que nunca tem fim
16
Brincar com a loucura pode realmente enlouquecer alguém
17
Às vezes, um choque de realidade pode ajudar!
18
Parabéns, Daisy
19
O glamour é como uma máscara.
20
Coisas que as câmeras não podem capturar
21
Era apenas um jogo, mas ele se escondeu para sempre
22
Se quer tanto, implore
23
Velhos hábitos sempre falam mais alto
24
O que acontece quando se esquece: limites e dignidade?
25
Deve ter sido o vento
26
Parabéns, Daisy
27
Ela é uma bagunça em meio a tanto nada
28
Às vezes, até respirar dói.
29
De doces a risadas amargas
30
Pedidos sinceros e ligações inesperadas
31
Onze minutos para a solidão
32
Alguém para chamar o seu nome
33
Dez anos com palavras entaladas na garganta
34
Quinta. É quinta-feira ainda.
35
Ele vai sorrir.
36
Canção de Ninar
37
Cruel Demais
38
É muito tempo...
39
Parece estupidez...
40
Muitas Desculpas Para Um Dia Só
41
Stay Alive
42
Ainda

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