O girar das chaves para abrir a porta faz um barulho familiar, trazendo também o mesmo cheiro gostoso da comida de mamãe. Na janela, a luz natural ilumina a sala e,atrás do balcão, uma mulher canta Backstreet Boys enquanto cozinha o almoço.
Sigo reto e deixo a mochila azul em cima da mesa de madeira. Minhas mãos vão até a barriga, o estômago roncando alto. Não perco tempo, vou direto cumprimentar a senhora de cabelos presos, que veste roupas simples, mas que não anulam sua beleza. Dou-lhe um beijo cálido na bochecha suada e sento para comer, olhando-a cozinhar serenamente enquanto admiro seu sorriso. Olhos negros como carvão, acompanhados de cílios longos. Uma linha tênue marca os seus lábios que, apesar de fora do padrão coreano, para mim, não deixam de ser especiais e esbeltos. As covinhas, talvez um presente dos anjos, são os detalhes que a coreana mais ama em si mesma. Fico contente que puxei isso dela.
ㅡ Como foi o seu dia, querida ? ㅡ Pergunta, pegando o meu prato para colocar comida, pouco antes de me entregá-lo.
ㅡ Ótimo, mãe. ㅡ Uma enorme colherada vai de encontro com a boca, e ouço minha mãe rir ao me ver mastigando.
ㅡ Coma devagar, pra quê a pressa? ㅡ Vejo-a secar as mãos no pano de prato, ainda rindo e arrancando risadas minhas também.
É verdade, não estou na empresa, correndo contra o tempo para aprender a coreografia e a música o mais rápido possível. Estou em casa, de frente para a minha mãe e vendo-a sorrir. Sinto-me segura, sem precisar manter a máscara de sempre, que aprendi a usar para impedir que outros descubram as minhas fraquezas. Posso contar tudo. Todavia, problema algum ocupa a mente agora, como se todos tivessem desaparecido em questão de segundos. E, o silêncio que resta é confortável, comunicando-nos através de olhares, esses muito além de meras palavras.
ㅡ Mamãe, você não vai comer? ㅡ Reparo que não há outros pratos, senão o meu, e estranho.
ㅡ Não estou com fome.ㅡ Relaxei os ombros, a resposta reforçando que não existe motivo para preocupação.
ㅡ Okay.ㅡ Sorrimos.
A conversa continua, agora focada em decidir o presente de aniversário do papai. Consideramos comprar um tênis igualzinho o dele, embora eu ache impossível ele tirar aquele velho all-star dos pés.
O telefone toca, e paro de falar após minha mãe levantar para atendê-lo, apoiando o corpo na parede verde-claro. Pergunto-me se seria meu pai, ligando para desejar uma boa tarde e dizer, de novo, que a ama. Contudo, o sorriso, gradualmente, desaparecendo diz o contrário. Seus dedos soltam o objeto, e gritos escapam de minha boca quando o som inesperado chega aos meus ouvidos.
ㅡ Mãe? ㅡ Chamei-lhe, preocupada e engolindo a seco.
Minhas íris encontraram as delas, essas que pareciam congeladas.
ㅡ Daisy, escute com atenção. ㅡ Depois de tanto pensar, a asiática caminha para perto, acariciando meus cabelos.ㅡ Preciso sair, você pode me esperar aqui? ㅡ Assenti, não querendo contrariá-la, e recebo o seu singelo puxar de lábios, que não esboça felicidade alguma. ㅡ Amo você! ㅡ Ela beija a minha testa e faço de suas palavras as minhas.
Olho para trás, assistindo-a vestir o casaco, pegar a bolsa e, por fim, as chaves, dizendo que volta logo. Pisco, perdendo a mamãe de vista, com somente o bater da porta para alertar que estou sozinha.
Mexo as pálpebras, sentindo as lágrimas molharem minha pele, e acordo. Gemidos de dor escapam quando tento levantar, o corpo dolorido de tanto ensaiar. Olho ao redor, vendo a cor branca exagerar o vazio da cobertura. O mesmo sonho. Em meu coração, um vazio rotineiro, que aparece todas as manhãs para me lembrar do que, hoje, não passa de uma lembrança vaga. Mal consigo dormir, mas não faz diferença, pois meus sonhos se limitam a memórias tristes, sem fim e repetitivo, como um loop. Encolho-me, abraçando os joelhos enquanto coloco-os contra o peito, o queixo encostado ali. Desde pequena, tenho o hábito de adormecer no sofá, com o desenho de Tom & Jerry passando na televisão. Porém, ninguém está aqui para me colocar na cama.
É isso que significa virar adulta?
Suspiro, a coisa que mais faço ultimamente, e caminho até a cozinha, enchendo uma taça de vinho tinto. Antes, odiava qualquer bebida amarga; já, atualmente, nem ligo mais. Volto para a sala, na intenção de pegar o meu celular. Quatro da manhã…
ㅡ Maldita insônia. ㅡ Xinguei, coçando os olhos e, com o dispositivo em mãos, vou aproveitar minha cama kingsize.
Embora minha conta no Instagram tenha milhões de seguidores, quase bilhões, e tantos comentários que mal consigo responder, não há ninguém me ligando para perguntar como foi o meu dia. Entretanto, chego tão cansada de encarar a multidão que ter pessoas para conversar não faz muita diferença. Pelo contrário, contemplo o silêncio que me recebe no fim da tarde, sem aqueles gritos ensurdecedores ou as diversas mãos tentando tocar em mim a cada segundo que passa.
Não sinto o cheiro delicioso, no qual faz meu estômago roncar. A cozinha está sempre vazia, o fogão limpo e a mesa do jeito que deixo de manhã. Tudo, aparentemente, normal.
Levo a mão à cômoda ao lado, abrindo a primeira gaveta para pegar o fone Bluetooth, que ganhei por deixar que usassem minha imagem, a fim de divulgá-lo. Meus dedos alisam a superfície lisa, limpando a poeira.
Eu costumava temer ser como as outras pessoas são, ocupadas demais para fazer o que gostam; ouvir suas playlists favoritas. Achei que, se virasse cantora, nunca me cansaria de trabalhar com música e que só o meu amor por ela importaria. Contudo, não é bem assim.
Eles procuram crianças apaixonadas, sonhadoras e prometem que vão torná-las estrelas globais. Todas as indústrias fazem a promessa de realizar o sonho dessa gente. Alguns se realizam; outros não têm tanta sorte. Todavia, todos pagam um preço, sem exceção.
Para que te aceitem, você deve estar nos padrões. Enquanto os seus ossos não aparecerem, você continua fazendo uma refeição ao dia, às vezes, comendo somente gelo. Escuta o ronco do seu estômago e pensa qual alimento estaria comendo agora. Carne? De jeito nenhum, muitas calorias. Arroz? Não, também vai atrasar a perda de peso. Frutas? Muito açúcar, não. Então, usa o treino de distração, tentando enganar o seu organismo para esquecer da fome.
Passa horas no estúdio porque não foi tão rápida em aprender a coreografia igual às trainees, vendo uma por uma se despedir e ir para a casa, até ficar completamente sozinha.
O desespero próximo ao peito, as pernas bambas de cansaço e gotas de suor molhando a pele. Você quer descansar, recuperar o sono que o estresse lhe tirou. Pensa em parar, mas algo lhe diz que não foi o suficiente, que não está se esforçando. Determinada ㅡ ou cega pelos próprios sonhos.ㅡ, obriga a si mesma a continuar, arrastando os pés doloridos para não perder o ritmo da batida.
Vinte e quatro horas se passam. Ainda que os beliscões doessem, era impossível raciocinar. As letras dançando nas folhas impressas, a sala girando, a professora de canto chamando a sua atenção. Caos. Sabe que não deve deixá-la esperando, e sim, pedir desculpas o mais depressa possível. Abre a boca diversas vezes, confusa com o piscar da luz, ouvindo as vozes se afastando aos poucos, e, logo, imersa na escuridão.
Quatro dias depois. Dor de cabeça, vertigens, ambas tornam-se suas principais companheiras. Olheiras debaixo dos olhos, uma sensação de leveza sob seu corpo e sono, muito sono. Tudo só aumenta o seu mau humor, devido ao fato de estar faminta. Você sequer lembra o gosto dos alimentos, ou quando foi a última boa noite de sono que teve, longe das três horinhas que, hoje, considera o bastante.
Após sete dias, a fadiga dá espaço para uma gripe, geralmente acompanhada de febre. Uma, duas, três vezes… Às idas ao hospital tornaram-se frequentes. O médico cansou de avisar que, caso continue desse jeito, morrerá de desnutrição aguda. Você não quer morrer. Tenta comer, o estômago rejeitando a comida, agora tão estranha. Aprecie sua refeição. A culpa lhe impede de saborear aquilo que sentiu falta, movendo a colher com desânimo e receio. Quantas gramas vou ganhar? Falta pouco para chegar no peso ideal, valendo a pena tamanho esforço que fizera. Temendo engordar, você divide metade de todas as refeições com o vaso sanitário.
Catorze dias. Olhos fixos na balança, sua pior inimiga; as mãos trêmulas em perceber a fila andando rapidamente. As meninas comemoram por cada quilo perdido. Seus pés tocam o objeto liso e gelado. Assistindo os números subindo, o frio na barriga retorna. Alívio, quarenta e sete quilogramas. Recebe um parabéns das trainees, e, como elas, você fica feliz, cega demais para ver que estão te parabenizando por fazer algo que, um dia, vai matá-la. Embora a balança tenha se tornado sua amiga, o espelho continua sendo um inimigo. A diferença? Você não reconhece a figura esquelética defronte para si.
Suspiro, dando play na minha música preferida. Lonely, Justin Bieber. Sempre amei muito as músicas dele, que agitavam meu coração de um modo único.
E se você tivesse tudo
Mas ninguém para ligar?
Talvez então você me conheceria
Porque eu tenho tudo
Mas ninguém está ouvindo
e isso é só solitário.
Estou tão sozinho.
Sozinho
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Atualizado até capítulo 42
Comments
YueYue
Já estou sofrendo de abstinência dessa história! 😵
2023-07-29
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Hairunisa Sabila
A autora(a) tem muito talento, essa história é viciante!
2023-07-29
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