Observo os diferentes cenários ao longo da caminhada, que ajudam a esquecer o cansaço. Analiso a floricultura à minha frente; o cheiro das flores invadem os pulmões, pintadas com uma vasta paleta de cores exorbitantes, exóticas. Dentre todas elas, um buquê de rosas se destaca; o vermelho-sangue vibrando, implorando para comprá-lo. Sorrio e compro-o de imediato, animada só de imaginar a reação da mamãe e do papai.
ㅡ Ah, que cesta linda! ㅡ A moça, ao notar os objetos em mãos, comenta, recolhendo o dinheiro e me entregando a compra.
ㅡ Obrigada! ㅡ Agradeço, toda sorridente.ㅡ Eu ganhei uma competição de canto hoje, esse foi o prêmio. ㅡ Levantei-o, vendo a mulher sorrir também, provavelmente, surpresa.
ㅡ Parabéns! ㅡ Disse, e agradeço novamente, correndo para o meu lar.
Após destrancar, abro a porta, adentrando a moradia rústica, bastante simples. Estranho a escuridão, as cortinas fechadas e, confusa, uni as sobrancelhas, não ouvindo um cantarolar feminino. Cogito a ideia de terem descoberto os meus planos, querendo surpreender-me igualmente. Ansiosa, com um nó prendendo o estômago, sigo para o quarto, onde a voz de minha mãe ecoou baixinho e instável. Acelero o passo, eliminando quaisquer dúvidas sobre, certa de que eles estão esperando para parabenizar a filha deles. Levo os dedos até a maçaneta, girando-a vagarosamente. Entretanto, a cena que vejo faz meu mundo desabar; um rosto masculino e familiar assombrando a memória, com as lembranças todas bagunçadas. Flashbacks, que mais parecem furacões, me cercam; sem escapatória nenhuma. E, de novo, estou sentada no sofá da sala, enforcada com o cheiro da nicotina.
ㅡ Ela traiu o seu pai, abandonou-o.ㅡ Recordo o conselho de vovó, que me foi dado um ano depois do ocorrido.ㅡ Uma hora, você será a próxima.
Não! ㅡ Escuto o subconsciente gritar, teimosa. Entretanto, não discordo.
O sentimento de não conhecer a própria família me corrói, e fico com medo, perdida na escuridão, somente ouvindo gritos agudos ecoarem, fragmentos confusos, como as peças dos quebra-cabeças que eu costumava jogar.
Com clareza, vejo um corpo delicado debruçado sob o piso gelado. Os cabelos longos e negros cobrem parte dos ombros, os quais encontram-se expostos pela camisola de seda fina. As vozes, antes distorcidas, começam a formar palavras; elas, por si só, formam frases:
ㅡ Você quer ir embora? Vá! ㅡ O homem grita, soando familiar.ㅡ Apenas saiba que sua filha é sua responsabilidade.ㅡ Rosna, bravo e indignado.ㅡ Nem pense em deixá-la pra trás, caso contrário, irei expulsá-la.
ㅡ Eu não quero viver pra sempre com um problema! ㅡ Ela grita, reunindo forças o suficiente para confessar. Porém, o rosto alheio continua inexpressivo, duro.
Falta ar em meus pulmões, minhas mãos tremem e a confusão dá espaço para uma intensa dor de cabeça. Logo, tudo fica escuro; estranhamente silencioso.
Segurando as malas, chamo pela coreana, que não saía do quarto há dias. A resposta vem fraca, desprovida de amor ou carinho. Sentindo as lágrimas caírem, prendo a respiração e tomo coragem para dizer:
ㅡ Estou saindo.
Diferente dos meses passados, mamãe não diz que estaria esperando por mim, sequer demonstra interesse se vou voltar. Provavelmente, minha mãe acha que estou indo para a empresa, somente seguindo a rotina. Contudo, a face dela apenas permanece intacta em minhas recordações por causa do espelho, que reflete uma figura igualzinha a asiática. Porém, jovem demais para acreditar que todos nós somos egoístas. Cada um escolhe o que é melhor pra si e é assim que o mundo funciona, à base de mentiras, manipulação e traição. No final, ao invés de ser abandonada, escolhi abandonar. Eu traí. Afinal, sempre me disseram que sou a cópia da minha mãe, e ela mostrou-se muito boa nisso.
ㅡ Daisy! ㅡ Acordo com Ji-soo me chamando, normalmente estressada.
Dessa vez, dou falta das risadas, estranhando a seriedade repentina de Christopher. Todavia, quando meus olhos seguem a sombra, noto o velho empresário escorado na entrada, furioso.
ㅡ O que está fazendo aí? ㅡ Bradou, impaciente.
Observo Christopher Park engolir a seco enquanto encolhe os ombros, de cabeça baixa. As unhas arranham o tecido do jeans, descontando a ansiedade e o medo que lhe assombram desde muito cedo. A respiração acelerada me lembra a de uma criança assustada, escondendo-se dos pais para não levar bronca ou apanhar. Compartilho da do sentimento, apavorada, desejando correr para algum lugar escuro, desconhecido e inacessível, onde ninguém jamais poderia me machucar.
ㅡ Estou falando contigo, Sra.Kim! ㅡ O presidente, vendo que não obteve resposta alguma, tentou novamente, especificando.
ㅡ Sr.Baek! ㅡ Arregalei os olhos, surpresa e desesperada.ㅡ Desculpe, estava distraída.
ㅡ Percebi.ㅡ resmunga, com os braços cruzados e as sobrancelhas franzidas.ㅡ O quê está fazendo aqui?! ㅡ Repete, e fico confusa.
ㅡ Produzindo o meu álbum.ㅡ Nessa hora, gelei, mas consigo disfarçar, ajeitando as pernas e encarando os sapatos de grife.
ㅡ Uhum, então suponho que Jeon Jungkook assinou o contrato.ㅡ Ele finge interesse, sorrindo de forma maldosa.
ㅡ Não.ㅡ Nego, quase tremendo de medo, incerta por suas reações.
ㅡ Pois bem, faça-o assinar o contrato imediatamente, ou não terá um álbum para produzir.ㅡ As palavras são dirigidas friamente, recheadas de rispidez.
ㅡ Farei isso.ㅡ A minha mente encontra centenas de palavrões, uma mistura de inglês e coreano. Contudo, a garganta vibra somente com uma frase educada.
ㅡ Senhor, Daisy.ㅡ Esbraveja, e reviro, disfarçadamente, o olhar.ㅡ Por Deus, seja mais educada.
Bufei, irritada.
Se o presidente está enchendo o meu saco porque Jungkook não assinou o contrato, fazê-lo assinar é realmente uma prioridade, pois não quero ter um velho chato pegando no meu pé. Já basta Ji-Soo, que vive chamando a minha atenção. Aposto que ela fica contando os segundos só pra mencionar o meu atraso.
ㅡ Desculpe, senhor.ㅡ Querendo evitar brigas, dei-me por vencida.ㅡ Farei isso, senhor. ㅡ Ele, não satisfeito, encarou a minha face até ouvir sua ordem sendo acatada, provavelmente, sentindo-se poderoso.
ㅡ Uhum, assim está melhor.ㅡ Resmungou, prepotente.ㅡ Christopher? ㅡ Chamou o garoto, rude feito um cavalo, apresentando uma postura séria.
ㅡ Sim, senhor! ㅡ O jovem levanta às pressas, ainda encarando o chão.
Baek olha o filho dos pés à cabeça, e, por um minuto, eu pensei ter visto-o menosprezar o menino de cabelos curtos e humor duvidoso.
ㅡ Ótima escolha.ㅡ Elogia, sem muitas formalidades ou coisa do tipo, e seguro uma risada sarcástica.
De início, Chris parece não acreditar que ganhou um elogio do pai. Acostumado a escutar comentários negativos, faz a mente procurar por problemas nos mínimos detalhes. Pensa nas regras estúpidas, às quais ele segue porque quer agradar o padrasto, provar que pode dar-lhe orgulho, mesmo não sendo um parente biológico.
ㅡ Obrigado, senhor! ㅡ Finalmente, agradece, curvando-se para demonstrar educação.
Pela voz, noto que o idiota do Christopher Park encontra-se próximo de chorar, emocionado.
Após o seu típico show, o empresário decide retornar a sua sala. Entretanto, esquece de levar o clima desconfortável junto e, agora, Chris parece avoado demais para pensar em uma boa piada. Portanto, buscando ter delicadeza, envolvo uma das mãos trêmulas do coreano, tirando-o do transe. Logo, àquele de madeixas claras repousa no estofado.
Suspiro, indignada com a hipocrisia do presidente. Como alguém pode cobrar um comportamento cortês somente do lado alheio? A ironia de tudo é que Christopher admira este babaca e procura tornar-se igual. As pessoas de fora não vêem cabimento nas ações ríspidas do dono da empresa. Porém, com o produtor, uma única e simples palavrinha pode definir o restante do seu dia.
Apesar de me irritar profundamente ao vê-lo se esforçando por alguém que, sequer merece, consigo entender bem o porquê disso. Outro fato que me faz odiá-lo: Somos parecidos, apenas tomamos rumos diferentes, e eu escolhi o pior, pensando que seria o mais fácil. Hoje, não quero viver pra sempre.
Suspiro, tomando coragem e levantando, determinada a resolver todos os assuntos de uma vez por todas. Os olhares daqueles ao redor pairam sobre mim, confusos.
ㅡ Onde encontro Jeon Jungkook? ㅡ A pergunta vem súbita. Contudo, explica boa parte da minha reação espontânea e rápida.
ㅡ Deve estar treinando novas coreografias.ㅡ A Staff loira diz, apoiada na parede branca.ㅡ Ele ama dançar.ㅡ Comenta, e, pela décima vez, reviro os olhos.
ㅡ Informação desnecessária, mas obrigada!ㅡ Sorri, fingindo gratidão e sigo em direção ao estúdio de dança, caminhando depressa para alcançá-lo.
Há cinco ou dez passos da porta, uma música incrivelmente tocante e fascinante adentra os meus ouvidos, e aproximo-me mais, abrindo-a com cuidado. Jungkook estava lá, exatamente como a garota falou. Seu corpo, pingando de suor, mexia-se com habilidade por todo o piso, observando os movimentos pelo reflexo do espelho. Interessada, apoio-me na batente, contemplando-o às escondidas. A camiseta preta sobe quando o garoto pula e um abdômen definido é revelado, do tipo que deve deixar as mulheres em êxtase, animadas apenas por conseguir uma fresta desses músculos. Seus dedos agarram os cabelos escuros e os joelhos dobram propositadamente.
Assusta-me, ao mesmo tempo em que me cativa, o jeito que Jeon interpreta a letra da música, feito estivesse realmente enlouquecido.
Baby, baby, eu me sinto louco
Acordado a noite toda, a noite toda e todos os dias.
Me dê algo, oh, mas você não diz nada.
O que está acontecendo comigo?
Eu não quero viver para sempre, porque eu sei que estarei vivendo em vão.
E eu não quero caber em qualquer lugar.
Eu só quero continuar chamando seu nome até você voltar para casa.
Estou sentado de olhos bem abertos, e tenho uma coisa presa em minha mente.
Querendo saber se eu me esquivei de uma bala ou apenas perdi o amor da minha vida, oh
O som para de repente, e volto para a realidade, com um moreno debochado, parado ao lado da mesa.
ㅡ O que veio fazer aqui, Daisy? ㅡ Riu, deixando o celular em cima da madeira e pegando a toalha de rosto, que usa para secar a pele.
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Atualizado até capítulo 42
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