A entrada da empresa não estava tão caótica quanto ontem, na verdade, achei bem tranquila. No corredor, vejo Ji-soo e seu terninho ridículo se aproximando, um sinal para preparar o meu psicológico. Sobrancelhas franzidas, dentes à mostra, passos pesados e punho fechado, coisas que indicam o quão furiosa está. Por um momento, pensei que a coreana iria me socar, se bem que, vontade não falta.
ㅡ Está atrasada.ㅡ Diz, esboçando uma careta feia, mas posso jurar que ouvi um rosnado de sua parte.
ㅡ Bom dia pra você também! ㅡ O sorriso cínico que molda meus lábios consegue, facilmente, irritá-la, e tenho de segurar uma risada.
Continuo andando, com a Park atrás. A mistura do barulho dos nossos saltos batendo contra o piso cinza e de cerâmica não abafa as reclamações da gestora. Ainda assim, consigo ignorar, pelo menos, metade.
ㅡ Daisy Kim, o fato de você ser uma artista não lhe dá o direito de chegar atrasada.ㅡ As unhas longas, pintadas com esmalte preto, agarram meu ombro, coberto pelo casaco vermelho-sangue.
ㅡ Dá um tempo.ㅡ Bufando, reviro os olhos, chateada porque os seres humanos não vêm acompanhados de botões de desligar.
Não encontro problemas em desvencilhar-me de seus toques, mas sim, de tirá-la da minha cola. Mulher chata.
ㅡ Já te disseram que você se veste igual a uma puta? ㅡ Refere-se às minhas pernas de fora, o shorts escondido, debaixo do sobretudo de mangas compridas.
ㅡ Obrigada.ㅡ Apesar da intenção, não encaro como uma ofensa e, novamente, eu sorrio ao vê-la brava.
ㅡ Baek quer assassiná-la.ㅡ A Park reclama. ㅡ Sabe que ele não gosta de esperar, por quê faz isso, hein?! ㅡ Sua franja falsa sobe quando ela bufa.
ㅡ Nem sempre, na vida, fazemos aquilo que gostamos.ㅡ Usando as palavras de meus pais, respondo-lhe com tons de sarcasmo e recebo um olhar mortal, cujo qual, somente me faz rir.
ㅡ Você é inacreditável.ㅡ Balança a cabeça, negando minhas ações.
ㅡ Diga algo que não sei.ㅡ Dou uma piscadela, entrando no cômodo branco e preto, que me lembra a personagem Cruella.
Avisto o velho sentado na poltrona, vestindo o seu típico terno chique enquanto fuma um cigarro. O cheiro de embrulhar o estômago, e engulo a seco, torcendo o nariz.
ㅡ Finalmente.ㅡ Diz, tossindo ao soltar a fumaça.
Permanecendo calada, caminho até a cadeira mais próxima. Antes de me sentar, escuto-o falar outra vez:
ㅡ Cumprimente JungKook.ㅡ Minhas íris castanhas foram parar no coreano à minha esquerda, que não vejo faz anos.
Ele mudou… É difícil enxergar o garotinho tímido e fofo que roubava um beijo meu, somente para pegar a pipoca. Devo admitir… está muito mais sexy do que recordo. As tatuagens quase cobrem o seu braço direito, um sonho que tinha desde jovem, embora muitos não aprovassem. Subo o olhar para o peitoral, imaginando o quão forte se tornou. Nunca foi miudinho, pois praticava taekwondo durante a infância e o fundamental. As veias em seu pescoço são estranhamente atraentes, assim como as da mão. Será que...? Não, acho que não. Meus lábios ficam secos, e passo a língua entre eles, contemplando a boca que, um dia, costumava beijar a minha.
Nossas íris se cruzam, trazendo à tona o mesmo momento de quando terminamos. Contudo, dessa vez, não encontro raiva, tristeza, e nem amor. Não encontro sentimento algum, para falar a verdade. Não, não sinto falta das noites em que dormíamos abraçados ou das enrascadas divertidas que costumávamos entrar. No início, carregava a culpa por ter quebrado o seu coração. Porém, nós dois conseguimos o que queríamos, não há porque me culpar.
ㅡ Olá, JungKook.ㅡ O nome sai amargo, igual ao sorriso que recebo, e estico a mão para cumprimentá-lo.
ㅡ Olá, Daisy Kim.ㅡ Calafrios sobem à espinha, perante o contato suave de seus dedos acariciando a minha pele.ㅡ Você é bem famosinha na Internet, deve estar feliz.ㅡ Riu, parafraseando a própria frase, usada para se despedir durante o término.
Jeon possui o dom de me atormentar, seja com palavras amorosas, grosseiras ou com lembranças que almejo esquecer. Fiz uma escolha e não irei me arrepender dela, nem por você, Jungkook.
ㅡ Sim, como nunca estive antes.ㅡ Um músculo de sua bochecha salta, evidenciando que tive sucesso em atingir seu ódio e ego.
Orgulho-me do feito e descanso no assento confortável, sem abandonar a postura defensiva que carrego comigo ao sair de casa. Apesar das tentativas, falhei em manter meus olhos longe do coreano, principalmente das coxas, aparentemente, suculentas. Sei que ele percebeu, a julgar pelo sorrisinho convencido que esbanja nos lábios.
ㅡ Imagino quanta gente te diz "eu te amo".ㅡ Cruzando os braços, suas palavras saem como facas afiadas, e obrigo-me a manter o contato visual.
Amar. Nós dois sabemos que é impossível quando se tem milhões de fãs malucos e que, muitas vezes, não entendem que artistas também são humanos. Não discordo de seu comentário, existe verdade nele. Assistida por muitos, amada por muitos. E, ainda assim, sozinha. Não estou reclamando, devo agradecer pelo carinho que recebo.
ㅡ Então...ㅡ Encaro meu chefe, que parecia de mau humor por não estar sendo o centro das atenções. ㅡ A Coreia ama muito você, Jeon JungKook.ㅡ Afirma, inclinando o corpo na poltrona para alcançar o cinzeiro na mesa e apagar o cigarro em mãos.
Observo outro sorriso ladino a crescer no rosto de Jeon, provavelmente orgulhoso de si mesmo. Nas minhas poucas lembranças, a vontade de se exibir vinha como companhia em nossas brincadeiras, mas não é somente isso que está fazendo. Não, tem algo a mais.
Através dos elogios do CEO, o asiático quer, de todos os jeitos, reforçar a ideia de que eu não fiz diferença em sua vida. Infantil de sua parte, e okay, nunca esperei menos dele. Entendo tamanho rancor que sente, compreensível.
Troquei os planos que fizemos desde o casamento até o dia de nossa morte, onde morreríamos de mãos dadas. Contudo, não pude evitar trocá-lo por uma chance de segurar o microfone dourado. Sou atraída pelo brilho, no fim das contas. E, hoje, outros se atraem por mim. Parece uma teia infinita; um puxando o outro. Puxando é muito grosseiro, melhor inspirando.
Quantas pessoas estão fazendo as coisas que faço ou que fiz porque se inspiram nas minhas músicas e em quem pareço ser? Não tenho direito de julgá-las, sequer posso diferenciar inspiração de cópia. Novamente, estranho o nome Daisy Kim, que acho cada vez mais estranho. O que, realmente, restou dela?
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Choi Ara
Aaaah ksksksk eu entendo… Eu usaria esses mesmos emojis se eu tivesse que mostrar tudo o que senti ao escrever este livro.
2023-07-30
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wtf_pj
Ansiosa pela continuação! 😍
2023-07-29
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Max >w<
Essa história me inspirou a nunca desistir dos meus sonhos.
2023-07-29
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