Sento na cama, e meus pés tocam o chão gelado do apartamento de Christopher Park.
Sinto seu olhar predatório queimando sob minha pele enquanto enrolo os lençóis verde-escuro em meu corpo, observando cada movimento que faço. Seus cabelos castanhos são curtos, as laterais raspadas e a franja pendendo para a esquerda. Apesar da barba por fazer, o homem de pele bronzeada ainda está em seus vinte e cinco anos e é dono de um físico magro, cuja ausência de músculos lhe faz parecer um garoto que acabara o colegial. Alguns fios de suas sobrancelhas castanho-claro estão desalinhados. Debaixo de seus olhos, negros como a escuridão, leves olheiras indicam as noites passadas em claro, e lembro que devo retocar a maquiagem antes de ir, escondendo toda e qualquer imperfeição porque todos esperam que Daisy Kim seja perfeita, a garota dos sonhos.
ㅡ Não entendo o porquê tem o trabalho de se cobrir.ㅡ A voz, nem tão aguda e nem tão grave, invade o quarto, desviando completamente a minha atenção, antes dirigida aos meus pensamentos, para si.ㅡ Eu já vi tudo.ㅡ Finaliza, as palavras acompanhadas de uma risada nasal.
Pelo canto do olho, vejo-o se sentar e esticar o braço até a cômoda ao lado, na intenção de pegar o maço de cigarro de chocolate e o isqueiro, deixados dentro da primeira gaveta. Após abrir a caixa, ele tira de lá uma cigarrilha e volta a fechá-la, jogando-a no colchão.
ㅡ Quer um? ㅡ Com um cigarro preso entre os dedos, ele me oferece um, a cabeça apoiada em uma das mãos, deixando sua axila visível.
ㅡ Não, sabe que odeio essa porcaria.ㅡ Nego de imediato, resmungando brava.ㅡ Deveria parar de fumar.ㅡ Chris apenas dá de ombros, colocando o fumo na boca para acendê-lo e tragando logo em seguida. Por fim, guarda o objeto preto naquele mesmo lugar de costume.
ㅡ Todos nós precisamos de um vício, Daisy.ㅡ Começa, as íris fixas nas diferentes tonalidades de verde que enfeitam o cômodo.ㅡ A vida já é difícil demais para suportar sozinho.ㅡ Escuto sua risada vir baixa, um reflexo de seu humor corrosivo.
O cheiro horrível e insuportável do tabaco embrulha o estômago, mas me esforço para não tossir ou sair correndo. Envolta à fumaça, a imagem grosseira de um rosto familiar toma a mente. Cabelos escuros, gotas de suor escorrendo pela testa e um sorriso malandro nos lábios, uma cigarrilha presa ao canto deles. A típica graxa sujando a face e o macacão azul, esse que cobre o seu corpo robusto, com os botões abertos expondo somente metade da camiseta branca, posta por debaixo dele.
ㅡ Papai, por quê o senhor fuma?ㅡ Não importava quantas vezes eu perguntasse, a resposta sempre era a mesma.
ㅡ Por quê cantas, Margarida? ㅡ Ele se inclina para mais perto, sustentando os cotovelos em seus joelhos e entrelaçando as mãos, sentado à mesa de jantar.
Sorrio pelo apelido que, também, é a tradução literal do meu nome e, ajoelhada no piso de madeira, ergo a postura, encarando-o confiante e bastante animada.
ㅡ Oras, porque me faz bem.ㅡ Sequer precisei pensar, achando uma pergunta fácil de responder e, novamente, observando-o sorrir largo.
Na época, nunca entendi como uma coisa pode fazer as pessoas felizes e, simultaneamente, matá-las. Hoje, sei exatamente o que isso quer dizer. São como pílulas da felicidade, às quais você toma para escapar da realidade, e jamais consegue voltar a vivê-la. Torna-se um vício.
Os devaneios desaparecem conforme Christopher beija a região dos meus ombros, seus beijos molhando a pele desnuda de uma forma menos repugnante que a do pai. Porém, ainda assim, nojenta e não apenas por causa do cigarro em suas mãos, poluindo seu paladar, segundos antes de me beijar bruscamente, com a ponta de seus dedos esbranquiçada pelo aperto em minha bochecha, de modo que o contato visual permaneça, e repito a mim mesma que não há nada para temer.
ㅡ Quero você de novo.ㅡ Escuto-o sussurrar contra os meus lábios, seu cheiro torturando cada parte do meu corpo, inclusive da minha mente.
ㅡ Estou cansada, Chris.ㅡ Eu murmuro, a voz saindo mais baixa do que o planejado.ㅡ Você não foi o único que precisei ver hoje, sabe disso.ㅡ As palavras deixam-no visivelmente irritado e ele se distancia, resmungando.
Aproveito para levantar, enrolada nos lençóis enquanto recolho minhas roupas, por fim, caminhando para o banheiro luxuoso. Ladrilhos brancos e brilhantes decoram as quatro paredes, igualmente para o piso. Do lado esquerdo, uma banheira redonda presa ao chão e, no oposto, um box feito de vidro, bastante espaçoso. Deixo os panos na tampa do vaso sanitário e me posiciono em frente ao espelho, observando o lençol cair, lentamente, aos meus pés. Não reconheço a figura magra, com as pupilas dilatadas fixas às minhas. Marcas roxas descem pelo pescoço e vão até as coxas, outra lembrança de todos que já passaram por aqui no presente, passado e, provavelmente, futuro. Isso, é claro, se o desejo de prevalecer em primeiro lugar na Billboard Hot 100 continue sendo a minha prioridade.
Cabelos pretos e longos escorrem pelas minhas curvas, cobrindo os seios e as laterais da cintura. Embora ninguém esteja comigo, posso sentir os diversos dedos calejados passeando dos ombros à barriga, e, automaticamente, estremeço quando as mesmas risadas altas voltam a ecoar. Elas vêm e vão à hora que querem, tornando-se minha principal companhia no momento em que estou sozinha. Cansei de lutar para impedi-las de aparecer, pois não importa o quanto eu tente, não há como esquecer algo que faz parte de você. Não posso esquecer. Posto isto, respiro fundo para me recompor e erguer o rosto. Encho os pulmões de ar, soltando, logo em seguida, pela boca e começo a me vestir.
Ao retornar para o quarto, encontro Christopher de pé, subindo o zíper da calça jeans, o peitoral ainda desnudo.
Meus olhos vasculham o cômodo, buscando a bolsa de couro que carrego ao sair. Assim que encontro, caminho na direção do objeto e, após pegá-lo, refaço o percurso, parando defronte para o mesmo vidro. Meus dedos se encarregam de encobrir todas as imperfeições da minha face e as sardas não são uma exceção. O pó translúcido esconde as olheiras e dá um pouco de volume às bochechas, o blush devolvendo o rosa natural que elas tinham, mas que se perderam com o passar dos anos. A sombra em tons nudes disfarça minhas noites mal dormidas enquanto o rímel alonga os meus cílios. Uso um lápis preto para desenhar as sobrancelhas, uma de cada vez. Em meus lábios, antes pálidos e rachados, há agora o costumeiro batom vermelho-sangue, e a tristeza não se encontra mais aparente. Tudo à prova d'água, menos eu.
Suspiro, cogitando a opção de uma vida boêmia, longe dos problemas que lhe atingem quando está disposta a qualquer coisa, somente para se encaixar na sociedade que ㅡ com sorte ou azar.ㅡ vai te substituir e esquecer tudo aquilo que fez. É, não é justo. Nada é.
ㅡ Vamos? ㅡ Escuto Christopher chamar e vou ao seu encontro, encontrando-o já arrumado e perfumado.
Vestia roupas confortáveis, mas não baratas. Um moletom cinza e uma jaqueta jeans por cima. Tênis preto da lacoste, cujo preço talvez ultrapasse três mil dólares. Meus olhos pararam no Roulette prata que enfeita o seu pulso direito, marcando, baixinho, as horas.
ㅡ Por quê sempre carrega um relógio, sendo que nunca usa? ㅡ Pergunto, abusando da voz brincalhona, e sigo até a saída.
ㅡ Gosto dele.ㅡ Assisto-o dar de ombros, vagando pela sala de estar à procura das chaves do carro.ㅡ É caro.ㅡ Um sorriso ladino molda o rosto bonito, e eu apenas reviro os olhos, bufando ao sair primeiro.
***Faça o download do NovelToon para desfrutar de uma experiência de leitura melhor!***
Atualizado até capítulo 42
Comments
Choi Ara
Aaaah, eu vou atualizar rapidinho assim que eu tiver tempo. Os próximos capítulos já estão prontos, só preciso revisar e postar! Obrigada por me acompanhar!
2023-07-30
3
Radin P. R.
Inspirador! ✨
2023-07-29
1
Arisu75
Não consigo parar de pensar no que vai acontecer! Atualiza logo!
2023-07-29
1