Encontro Ji-soo no caminho, segurando uma pilha de papéis. Por mais acostumada que estava com os saltos, ela mal conseguia se equilibrar. As mãos tremiam, provavelmente devido ao peso das folhas e seu cansaço era notável, tanto que não me surpreendo quando elas escapam de seus dedos, espalhando-se pelo piso. A coreana se agacha, recolhendo-as, e eu paro, encarando aquelas que caíram aos meus pés, pensando se eu deveria ajudá-la ou não. Nossos olhares se cruzam por um instante, sem muita importância.
Bufei, me agachando para pegar o que sobrara, vendo-a surpresa.
ㅡ Nossa, a Daisy Kim se abaixando para auxiliar uma mera mortal como eu? ㅡ Seu sarcasmo me faz rolar os olhos.ㅡ Que milagre! ㅡ Levantamos juntas e bufo.
ㅡ Não me provoca, mera mortal.ㅡ Rosno, dando-lhe um sorriso, repleto de escárnio.
Ela retribui o gesto e sai andando. Fico alguns segundos processando a informação, incrédula com a audácia da mulher, questionando-a:
ㅡ Ei, não vai me agradecer? ㅡ Levanto uma das sobrancelhas, mantendo um olhar superior, não muito diferente do dela.
Olha rapidamente para o canto superior direito, pensando ㅡ ou fingindo pensarㅡ na resposta. Suas expressões faciais são calmas e me irritam além da conta, só desconheço o motivo.
ㅡ Não.ㅡ Diz, simplista.
Minha boca se abre em um perfeito "o", e escuto sua risadinha estúpida. Sinto a língua umedecer os lábios, terminando por cutucar a parte interna da bochecha, enquanto assisto a empresária seguir para a sala do CEO. Respirei fundo, fechando as mãos, e o arrependimento de ter ajudado essa encalhada amarga o paladar. Bem, não é como se eu esperasse alguma educação ou gentileza, pelo menos, não de Ji-Soo. Em partes, entendo o porquê de sua grosseria. Aliás, estou longe de ser a pessoa mais querida daqui da empresa. Engraçado, pois sou tão amada quanto odiada. Talvez, seja inveja.
Veja, eu consegui tudo o que muitos sonham em conseguir, somente com vinte e cinco anos de idade. É, com certeza é inveja dos infinitos aplausos que eu recebo sempre que me vêem. Qualquer superastro não ficaria impressionado, pois o brilho se perde com o tempo; torna-se algo normal.
Nos shows, o coração não acelera tanto quanto antes, e até a música passa a não ter mais magia. De repente, as turnês não são empolgantes, mas cansativas. As madrugadas, solitárias. A ansiedade, agora diferente, era de imaginar os fãs cantando junto enquanto balançam as mãos e sorriem. Você não percebe, sequer consegue dizer o momento específico que seu sonho de viver para sempre virou pó.
Não, não, não comigo.
Estou satisfeita.
Balanço a cabeça, voltando à realidade e indo ao encontro de Christopher, que deve estar chateado; preocupado com a forma estranha que agi hoje. Então, caminho depressa para o estacionamento, deixando leves batidinhas no vidro, a fim de chamar a atenção dele. Funciona, pois não demora muito e já tenho seus olhos em mim, os dedos apertando um botão, logo destrancando a porta. Entro, acomodo-me no banco de couro, e o sono chega aos poucos.
Christopher, ainda assustadoramente quieto, desvia o olhar, girando a chave e dando partida. Suas mãos seguram o volante com força, evidenciado o quão irritado se encontra. Desde que nos conhecemos no exterior, ele nunca foi bom em esconder os próprios sentimentos. Todavia, por conhecer-me o suficiente, não ousa questionar, sequer opinar sobre determinados assuntos e, bem, o que faço com a minha carreira entra nessa categoria.
ㅡ Quer que te deixa em casa? ㅡ Finalmente, Chris quebra o silêncio, embora tenha sido por poucos segundos.
Queria dizer que não; pedir para ficar em seu lar, dormindo o que não pude dormir à noite. Só que sei que não irei conseguir na minha casa, acordando assustada com os menores barulhos. Entretanto, prefiro apenas confirmar, assentindo minimamente:
ㅡ Por favor.ㅡ Murmurei.
Encosto a testa na janela, sentindo os olhos pesarem, logo sucumbindo ao cansaço.
…
ㅡ Cheguei! ㅡ Falo, por força do hábito, retirando os sapatos para entrar.
Acendo as luzes e olho ao redor, sendo recebida pelo vazio das paredes brancas, às quais fazem os cômodos parecerem maiores do que já são.
Suspiro, de novo.
Nenhum cheiro ㅡ Comida, flores ou qualquer outra coisa.ㅡ invade os meus pulmões. Engulo a seco, certa de que algo está faltando, mas sem saber exatamente o quê, e noto uma tristeza súbita invadir o peito. O silêncio ㅡ na maioria das vezes, confortável.ㅡ aparenta estranho, como se fosse errado. Mesmo tentando, não encontro um motivo que justifique tal sentimento. Contudo, ele não é novo. Desistindo da solução, tranco a minha moradia, procuro o celular dentro da bolsa e, após encontrá-lo, deixo-a em cima da mesa, que está incrivelmente limpa. Com a garganta seca, sigo até a cozinha, abrindo a geladeira para pegar uma garrafa d'água. Dou longos goles, sentindo o estômago ㅡ que, antes, roncava.ㅡ estufar. Não demora muito e a garrafa está totalmente vazia. Encho-a novamente, guardando no mesmo local em que peguei.
Meus pés, automaticamente, dirigem-se até o quarto, enquanto eu soluço o caminho inteiro. E, parada em frente ao espelho do guarda-roupa, comecei a tirar as peças que cobriam o meu corpo. Abro as portas rapidamente, pegando um moletom verde e uma calça cinza para vestir, ambos confortáveis. Com essas roupas, os ossos não aparecem. Na verdade, aparento pesar mais. Lembro de ouvir um fã meu dizer exatamente igual, e talvez, seja esse o motivo pelo qual parei de usar tal estilo.
Volto à sala, sento-me no sofá e ligo a TV, trocando várias vezes de canal, pois todos falam sobre culinária. Esqueci que esse horário não tem nada melhor para assistir. Os alimentos coloridos, os pratos bonitos, praticamente, o cenário inteiro desperta uma vontade de provar este cardápio, e minha mente divaga, tentando adivinhar qual seria o gosto ou o cheiro deste prato. Quando foi a última vez que eu fiz uma refeição decente? A resposta não muda, sempre: Não me lembro. Receosa, desbloqueio o aparelho móvel e abro o Ifood, maravilhada com as mais variadas comidas.
Kimchi!
Uhum, Tteokbokki parece bom.
Kimbap também…
Existem tantos doces e salgados deliciosos que mal posso resistir, o indicador preparado, prestes a clicar em comprar a qualquer momento. Entretanto, começo a pensar em quantas calorias vou ganhar.
* Kimchi:*** baixo teor calórico; 38 calorias e pobre em proteínas.
Transformando em quilos, ficaria 0,038.
*Tteokbokki:** alto teor calórico; 500 calorias. *
0,5.
*Kimbap:** baixo teor calórico; 140 calorias. *
0.14
Reconsidero, pensando se seria difícil perder 0,678 quilos. Porém, a ideia de ganhar peso é desesperadora, e desisto.
Novamente, meu histórico fica repleto de perguntas, a maioria relacionada à calorias.
O reality show faz meu estômago doer, implorando para receber algo além de gelo e água.
Suspiro, cansada, desligando a televisão, a fim de evitar alguma besteira. Deito-me logo em seguida, fazendo um breve tour pelo lugar, ainda que não houvesse muito o que olhar, pois, diferente da minha casa antiga, a decoração é toda branca, sem um único quadro enfeitando as paredes. Não vejo posters dos Beatles, do Nirvana e nem as fotos de fuscas coloridos, encontrados em ruas aleatórias.
Nenhuma música da banda Backstreet Boys ecoa da cozinha, assim como não há ninguém me chamando para almoçar ou perguntando se já coloquei a mesa. Eu odiava fazer isso porque papai costumava fumar lá, e o cheiro era insuportável. Mas, olhando cautelosamente, não encontro resquícios de cigarro nela, sequer o odor. Não ouço mamãe brigar, dizendo que estragava a madeira, muito menos a resposta de meu pai, que dava um sorriso safado, antes de dizer: "Se estragar, compramos uma nova."
Não escuto a mulher bufar, controlando-se para não esmurrar a cara bonita do marido, e não rio, pois ele não me lança uma piscadela. Agora, seu olhar é triste e solitário, como se perguntasse:
ㅡ Você está satisfeita?
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Atualizado até capítulo 42
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