Lágrimas já molhavam o meu rosto, deixando a minha visão embaçada e dificultando a minha saída rápida, à procura de qualquer lugar em que eu não precise encarar o sorriso debochado de Jeon Jungkook. Saio como um furacão, desesperada para ficar sozinha. Sim, deitei-me com mais caras do que posso contar, faço dietas que podem me matar, treino até não conseguir andar. Faço milhões de coisas consideradas inapropriadas, só para permanecer no topo e para ser amada, encaixar-me na sociedade.
É errado? Talvez.
Mas, é um problema meu.
Não posso dizer que não tive escolha, seria outra mentira que estaria contando a mim mesma. Minha escolha foi feita quando decidi seguir essa carreira, mesmo sabendo dos riscos. Meus pais, professores, amigos e inimigos. Todos eles avisaram que seria um caminho sem volta. Escolhi isso, tem razão, e estou satisfeita. Contudo, não consigo evitar de me sentir envergonhada, afetada pelas palavras cruéis e verdadeiras que foram jogadas agora há pouco, pois existe uma parte daquela jovem e esperançosa Daisy vivendo aqui dentro, nada orgulhosa da mulher que se transformou. Tinha princípios, ensinados por sua mãe e que vieram lhe protegendo por anos, mas ela os quebrou. Eu os quebrei… Fico pensando o que meu pai pensaria da própria filha se pudesse ver como sua margarida cresceu, saber a cantora de renome que se tornou e, principalmente, o que escolheu dar em troca para alcançar a fama.
Perdida em tantos pensamentos, acabo esbarrando em alguém. O impacto faz meus pés se moverem para trás, dando um passo em falso, e quase caio de costas. Respiro fundo ao recuperar o equilíbrio, o desespero aumentando cada vez que sinto as bochechas ficando molhadas, e engulo a seco, os músculos tensos. Não gosto da expressão confusa de Ji-soo, nem do seu silêncio, as sobrancelhas franzidas evidenciando a pergunta que domina sua mente. O desejo de me isolar torna-se necessidade.
ㅡ Sai da frente! ㅡ Digo, não fazendo questão de usar a educação que minha família me deu.
Nossos ombros se esbarram enquanto passo pela coreana, que permanece silenciosa, tentando adivinhar o que deixou a insuportável Daisy Kim abalada.
Perto de alguns novatos, avisto a sala de limpeza e entro, suspirando de alívio. O cheiro dos produtos não chega nem perto de agradável, pelo o contrário, meu nariz coça. Porém, no momento, é a melhor das opções. Escuto um barulho soar alto e mãos fortes me virando para si, os dedos brancos, devido à força usada. O maxilar travado, os olhos queimando de raiva e a bochecha vermelha já dizem o quanto Jeon está irritado, esperando que eu peça desculpas pelo tapa. Hahaha, só nos seus sonhos.
ㅡ Você enlouqueceu? ㅡ Ele, praticamente, rosnou. Com o rosto a centímetros de distância, seus lábios raspam nos meus e percebo sua respiração quente contra a minha pele.
Em outras situações, tal cena, de fato, teria me excitado. Todavia, estou tão brava quanto o moreno, exigindo, ao menos, uma explicação do surto. Não, nem preciso perguntar para descobrir o motivo exato de ter feito o que fez. Está mais que claro…. Nunca pensei que Jeon teria coragem de me machucar, mas o garoto não mediu esforços para tentar me afetar.
Jungkook costumava me chamar de preciosa flor, sempre cuidadoso. Dizia que deveria cuidar do que é delicado e bonito. O rockstar costumava secar as minhas lágrimas, contar piadas ruins para ganhar uma risada ou somente me abraçar. Hoje, o cantor pensa diferente.
ㅡ Satisfeito? ㅡ A voz vem áspera e quebrada, o ódio transbordando em um único olhar. Seu aperto, apesar de doloroso, é insignificante se comparado à raiva, a mesma que esquenta a minha face. Ambos estamos perdendo o controle, furiosos.
ㅡ Eu que deveria te perguntar isso. ㅡ riu, ácido feito ácido clorídrico. ㅡ O showzinho que você deu conseguiu atrair o foco do CEO. ㅡ Gelei, praguejando mentalmente, pois não há dúvidas de que àquele velho vai usar isso contra mim.
ㅡ Ah, o show virou meu, agora? ㅡ Imitei seu gesto, rindo sarcástica.ㅡ Você me humilhou, queria que acontecesse o quê depois?! ㅡ Ele suspira, mais calmo, e consigo me esquivar de seus toques.
ㅡ Não achei que fosse verdade.ㅡ Disse, decepcionado, mas não sei dizer exatamente com quem ou o quê.
ㅡ E não é.ㅡ Sou rápida em concordar, mentir para que Jeon Jungkook continue pensando assim.
ㅡ Então, por quê está tão afetada? ㅡ O nervosismo de não saber como responder apenas me deixa irritada com a sua insistência desnecessária.
Desvio o olhar, a mente repleta de palavras soltas, às quais uso para tentar formular uma frase qualquer. Porém, nenhuma faz sentido algum, e desisto, cansada. Quando volto a encará-lo, percebo que ainda espera por respostas. Dou de ombros, a língua cutucando a bochecha.
ㅡ Porque é ridículo, vergonhoso...ㅡ Começo, de braços cruzados e encarando o menino, que parece ouvir atentamente.ㅡ Eu me esforcei muito para conseguir ter tudo, e você invalidou todo esse esforço.
Não consigo adivinhar seus pensamentos, mas ele não aparenta estar tão bravo quanto estava antes. Passa a destra pelos fios negros de seu cabelo macio, suspirando logo em seguida. Vejo-o umedecer os lábios, voltando a me olhar com desdém.
ㅡ De quê forma invalidei os seus esforços? ㅡ Deu ênfase na quarta palavra, os olhos afiados como facas.
Sinto que falei algo de errado. Contudo, continuo mesmo assim.
ㅡ Porque você é bom em tudo, sempre foi…ㅡ Digo, lembrando de como ele aprendia as coisas facilmente e tirava as melhores notas.ㅡ Não precisou se esforçar tanto, sabe?
Um sorriso coberto de sarcasmo aparece em seus lábios, acompanhado de um riso soprado.
ㅡ Você realmente não me conhece, não é? ㅡ Seu tom de voz permanece o mesmo, mas sou incapaz de fitar a figura alta que agora bufa, com as mãos na cintura.ㅡ Nunca me conheceu.
Sem dizer mais nada, Jeon sai, batendo a porta atrás de si, e eu finalmente respiro. Manter a calma se torna impossível quando o peso de minhas palavras recai sobre mim, pois sei que elas não foram totalmente verdade. Desde que o conheci, não houve sequer um dia em que o menino não estava se esforçando para orgulhar os pais e professores, além de continuar impressionando os colegas. Sentia-se muito decepcionado, um verdadeiro inútil, quando falhava em ser motivo de orgulho para os outros. Suspiro, outra vez. Porém, agora é porque estou decepcionada comigo mesma. Passei anos ao lado dele, o suficiente para saber o quanto se esforça em, absolutamente, tudo o que faz, e, simplesmente, eu anulei todos os seus esforços também. No final, talvez Daisy Kim não o conheça tão bem como pensava conhecer.
Respiro fundo, reunindo a coragem que preciso. Levo as mãos trêmulas até a maçaneta, girando-a. Agradeço mentalmente, pois quando saio, não encontro muitas pessoas, nem os trainees que estavam aqui antes. Apresso o passo, seguindo em direção à sala do CEO. Meus olhos vasculham a sala inteira, encontrando Chris e o presidente sentados nos mesmos lugares de antes. Todavia, não vejo JungKook em lugar algum.
Ainda imóvel, minha mente viaja para o que houve minutos atrás: As provocações idiotas, os avisos, o tapa e a briga no almoxarifado. Tudo isso leva à conclusão de que Jeon realmente tinha todos os motivos para ir embora.
Uma parte minha se sente mal pelo ocorrido ㅡ não pelo tapa, é claro. Ele mereceu.ㅡ e quer fazer as pazes. A outra, muito orgulhosa de si mesma, simplesmente não liga. Pouco importa o fato de que Jeon Jungkook está magoado, bravo ou qualquer outro sentimento estúpido que venha sentir por causa da discussão. Na verdade, talvez eu não esteja ligando tanto porque sempre foi assim. Quando brigávamos ㅡ o que raramente acontecia.ㅡ, o jovem fazia tempestade em copo d'água. Sinceramente, nem sei o motivo de haver um pedaço de mim que se preocupa ㅡ pelo menos, um pouco.ㅡ com o moreno, que não deixou de ser menos infantil.
Enfim, de qualquer modo, não devo me preocupar com o drama dele, mas com o quão furioso o meu chefe está. Tremo só de ver suas sobrancelhas franzidas, juntamente de seu olhar distante e, através do batuque constante de seus dedos na mesa, deduzo que deixei-o bravo o bastante para atrasar o meu comeback por anos. Já presenciei muitas dessas cenas; nenhuma terminou bem.
Estremeço quando sua voz chega aos meus ouvidos, totalmente cínica:
ㅡ Daisy, como foi o passeio? ㅡ Riu, zombando das circunstâncias. Não respondo e faço menção de me juntar à Chris, mas Baek interrompe, balançando as mãos no ar.ㅡ Não precisa se sentar, a reunião já acabou.
Arregalo os olhos ao vê-lo se levantar, pronto para sair por esta porta e abandonar impiedosamente o meu comeback; investir em outro, como costuma fazer com àqueles que lhe desapontam ou vão contra às suas ideias.
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Atualizado até capítulo 42
Comments
Sadako
Vamos lá, autora! Não nos deixe na mão!🤞
2023-07-29
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Daisy
Simplesmente maravilhoso, a autora tem um dom incrível para escrever.
2023-07-29
1