Astin ainda tentava se recuperar do seu deslize. Por algumas horas teve seu amor platônico tão perto, pôde sentir o seu cheiro, um cheiro como o orvalho da manhã, suave como a menta, tão suave que ela desejava sentir em seus lábios.
Como ela conseguiria evitar? O desejo falou mais alto, o medo falou mais alto e o seu descuido foi fatal para acabar com o momento que estava apenas começando. Sua cabeça estava nas nuvens ou talvez estivesse nas lembranças que buscavam a todo momento detalhes e movimentos do corpo do filho do Conde, como seus lábios se movendo enquanto ele falava ou a forma do cabelo ao vento, cada detalhe religiosamente observado e gravado por ela.
Porém, num contraste catastrófico, Drianne apareceu e parecia disposta a acabar com tal utopia criada em sua fábula particular regada à sonhos e falsas esperanças.
— Senhorita Boulevard. Como a senhorita bem sabe, sou a empregada mais antiga daqui. Servi aos seus falecidos pais e a pedido deles, diante de um juramento feito no leito de morte de sua mãe, jurei cuidar de você e protegê-la. Por muito tempo eu tive a certeza que a última pessoa que precisaria de ajuda seria a senhorita. Mas estranhamente a senhorita mudou. Faz alguns dias que eu notei isso, bem… não somente eu que notei.
— Drianne, eu sei. Fiquei sabendo que fui o tema das conversas subalternas, mas ainda não consegui entender onde quer chegar com essa conversa?
— Isso que estou falando. Sua estranha mudança. A senhorita nunca nos deixou falar de seus pais sem proibir ou ameaçar. Pois esse assunto sempre lhe deixou triste. E acabei de tocar nesse assunto e a senhorita mal reagiu. Diria até que fez pouco caso. Sua mudança da água para o vinho tem me deixado curiosa.
Astin sentiu a boca do seu estômago formigar. Drianne era muito calada e observadora. Ela sempre estava em todos os lugares, parecia se multiplicar. Ela era a única que até o momento havia reparado em tudo. A jovem não duvidava que se havia alguém que pudesse desvendar seu segredo, esse alguém seria Drianne.
Era perigoso, a jovem sabia que não podia deixar a empregada com mais questionamentos, assim ela nunca iria precisar ir atrás das respostas. Era hora de atacar, mesmo que timidamente, era o momento de agir como a verdadeira Astin Boulevard.
— Com todo respeito, Drianne. Mas como você mesmo disse, você prometeu me proteger e não parece isso que está fazendo nesse momento. Isso mais me parece com acusações.
— Oh! Me desculpe, jovem senhorita. Não foi essa a minha intenção. Na verdade eu falei tudo isso com o intuito de protegê-la ou melhor, avisá-la. Cuidado em quem confia e principalmente tenha cuidado com seus atos. Pode não parecer, mas há muitos olhos espalhados nesse casarão para o bem e para o mal.
— Obrigada pelo aviso, Drianne.
— Posso não falar muito, mas sempre estou observando e como prometi à sua mãe, continuarei cuidando de você até que você me demita.
— Por que eu demitiria você, Drianne?
— Oras! Por você ser a Astin Boulevard e também. Sua fama diz por si só, sua fama lhe antecede.
— Lhe agradeço pelo aviso, mas sei me cuidar muito bem sozinha.
— Isso é o que a velha senhorita Boulevard diria.
Drianne sorriu rapidamente e piscou disfarçadamente para Astin e depois voltou ao seu semblante normal, fechado e sério. A jovem pensou em agradecer, mas antes que pudesse dizer alguma coisa a mulher foi embora, deixando a jovem senhorita surpresa.
"O que será que ela quis dizer com aquilo tudo?"
Enquanto Astin se dirigia para seu quarto ela começou a olhar para todos os lados, se o que Drianne disse fosse verdade, qualquer um poderia ser um traidor ou traidora. De repente, cada funcionário da casa começou a ser um suspeito em potencial.
Mas uma outra pergunta era mais necessária naquele momento.
"O que ganhariam traindo a mim?"
A jovem não conseguia encontrar nenhum motivo além de dinheiro. Sempre foi assim desde o início dos tempos, por que seria diferente agora?
No entanto, para o azar de Astin, não existia uma traidora na história original. Era mais uma mudança irônica do destino. O mesmo destino que a expurgou da realidade lhe jogando aos leões do reino de Éferos.
Quando chegou em seu quarto, Astin achou sua cama convidativa. Mas antes que pudesse ceder, o espelho chamou sua atenção. E essa sensação era engraçada. Desde que acordou nesse mundo do livro, o espelho foi o primeiro lugar que lhe mostrou a nova realidade que estava e invariavelmente é onde ia toda vez que precisava de um choque de realidade.
Seu reflexo era o paralelo entre a realidade e a lembrança do que um dia ela imaginou ao ler pela primeira vez a sua história preferida.
Por mais que Astin olhasse para seu novo rosto toda manhã, por mais que ela tentasse se acostumar com o conformismo da falta de respostas e com os problemas encontrados, com tudo isso e por isso, Astin não conseguia se acostumar. Aqueles cabelos dourados perfeitos eram a penitência do que ela nunca foi e sempre sonhou ser. A garota perfeita, a princesa de contos de fadas, a Condessa de Wisdow.
Agora ela era tudo isso ou quase tudo isso. O livro que era apaixonada agora era sua prisão. A história que ela tanto se sentia presa e dentro, agora estava à mercê e perdida. E ali se olhando no espelho ela via um espectro do que achava ser, afinal quem era ela de verdade?
Astin colocou as duas mãos sobre o rosto, talvez no intuito de simular as asas de anjos querubins lhe abençoando e trazendo sua real alegria perdida. Talvez fosse isso ou apenas desespero de uma alma que se achava forte, mas que estava se descobrindo fraca, então assim que tirou as mais, viu pelo reflexo do espelho uma pessoa.
Tomando um susto e dando um pulo para o lado, Astin percebeu que no lugar da cama, antes vazia, havia uma pessoa sentada e quando seus olhos perceberam quem era, ela não pôde acreditar.
— Imaginei que você ficaria surpresa em me ver aqui!
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Atualizado até capítulo 90
Comments
Maria Silva
sempre no final do capítulo nossos autores deixa a gente assim +++++++++
2023-06-24
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Luciana 🥰
Será que é a Cleavens 🤔🤔🤔🤔🤔??????
2023-05-10
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Luciana 🥰
Caramba Thiago isso não se faz..... posta maisssssssssss
2023-05-10
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