Aos poucos a jovem foi se adaptando com a rotina e conforme os dias passavam a ideia do casamento foi se tornando menos terrível. Ter feito amizade com a jovem empregada Lys foi uma válvula de escape. Toda vez que ela se sentia sozinha ou aflita, corria conversar com a empregada e não demorou muito para ela acabar sendo sua confidente.
Mas havia ainda uma enorme barreira e para quebrar ainda levaria muito tempo. Astin muitas vezes se perguntava se devia esquecer de vez a história de como veio parar, mesmo que Lys quisesse acreditar como ela explicaria para uma jovem empregada que a verdade era uma só, ela não existia, ela era apenas uma personagem de um livro.
Era totalmente insano pensar, imagine tentar explicar algo que nem ela mesmo sabia por onde começar. Astin resolveu mudar suas prioridades, ao invés de se lamentar, seu foco era encontrar o diário.
Com ele em mãos, não estaria perdida nos planos feitos pela senhorita Boulevard e conseguiria ter controle, pelo menos na sua versão de personagem de livro. Era péssimo saber que até na sua vida fantasiosa, não conseguia ter controle de nada e que outras pessoas controlavam seu destino.
Todo dia antes de dormir, Astin começou a criar pequenos planos, além de encontrar o diário, era essencial poder controlar o Conde de Wisdow, seu tio, e estar atenta às investidas de Cleavens que certamente não a deixaria em paz.
Não demorou muito e Astin já tinha total controle de sua casa e havia conseguido algumas informações com Lys. Ela descobriu que como parte da herança de seus pais, até que ela se casasse, não poderia usufruir totalmente da herança e que seu tio, o Duque de Faraday, controlaria todos os bens, exceto o casarão Boulevard, que seria cedido imediatamente a ela.
Dessa forma, Astin começou a entender algumas coisas que estavam em jogo. Ela tinha o motivo da senhorita Boulevard querer casar, o motivo do tio querer mais riquezas, mas ainda faltavam alguns pontos que precisavam ser atados. O mais importante deles, qual a ligação com Cleavens.
Pouco a pouco os empregados foram acostumando com o novo jeito da senhoria do casarão. E a fofoca e as apostas sobre a bondade da senhorita Boulevard que afirmaram que não duraria muito, foi se diluindo e se tornando raras e um ar de paz foi tomando conta do casarão.
Até outros empregados que outrora fugiam de Astin, faziam questão de tratá-la bem e cordialmente. Sorrisos largos enfeitavam os rostos de todos na casa, todos, exceto Drianne.
A empregada que tinha mais tempo na casa e que provavelmente a que mais conhecia a senhorita Boulevard. Quando Astin descobriu isso, tentava de muitas maneiras se aproximar da mulher que sempre mantinha sua cara fechada e sem sorriso. Um rosto sem expressões ou emoções.
Diversas vezes Astin ria sozinha e em uma dessas vezes, Lys, que passara próximo do corredor, quis saber o motivo de Astin estar rindo sozinha.
— Do que está rindo? Ou de quem está rindo?
— De ninguém. Só lembrei de uma coisa engraçada.
— Quem você quer enganar? Vai. Me diz. Você não disse que somos amigas?
— Tá bom. Mas não precisa apelar, né Lys? Eu estava rindo da Drianne. Não necessariamente dela, mas do jeito estranho dela.
— Qual jeito estranho?
— Vai me dizer que você nunca reparou?
— Você está dizendo o fato dela ser calada?
— Ser calada é uma coisa. O rosto dela não tem expressão alguma. Nada, nada. Já fiquei observando várias vezes. Ela não sorria, não mexe um único músculo no rosto. Até parece um robô. — Astin começa a rir novamente após falar.
— O que seria isso? Robô?
— Sim. Um robô! Nunca viu um?
— Não. De que reino ele é? É um tipo de animal?
— Reino?! Como assim, animal?
Finalmente Astin se atentou que Lys nunca saberia o que é um robô e obviamente nunca tinha visto um, então ela teria de contornar a situação e afastar questionamentos os quais ela não saberia responder.
— Eu nunca ouvi falar nisso. É um animal, não é?
— Sim. — Sorriu gentilmente para a jovem empregada. — É de um reino distante. Muito, muito distante.
— A senhorita deve ter viajado por toda Éferos. Imagino que há muitas belezas e mistérios espalhadas por toda essa terra.
— Sim. Apesar de não conhecer tanto assim.
— Conte-me uma história. Eu gostaria de ouvir.
— Não quero ocupar seu tempo. Deve ter um monte de coisas para fazer.
— Na verdade, não. Já fiz todas as tarefas. Tenho alguns minutos livres.
— Não vai comer algo? Tomar um chá?
— Estou sem fome. Prefiro ouvir sobre uma de suas viagens. Esse animal robô pareceu ser muito estranho. Nunca fui para muito longe. Conheço pouco sobre Éferos.
Astin sabia que não conseguiria se livrar da jovem empregada tão facilmente, mas sua mentira havia lhe colocado numa saia justa. Como contar histórias de um lugar onde ela mal conhecia.
As próprias páginas do livro lidas pela jovem não traziam tantos detalhes sobre Éferos. Era uma história de um romance clichê, uma disputa amorosa entre a senhorita Boulevard e a senhorita Le Louvre. Como contar sobre viagens nunca feitas?
Astin sabia que até para as suas mentiras bobas havia um limite e para seu desespero o limite era pequeno, o limite era um animal chamado robô de um reino distante, tão distante que nem ao menos sabia o caminho para voltar.
Enquanto a jovem empregada estava parada com seus grandes olhos, que lembravam duas amêndoas, olhando para ela com grande fulgor e expectativa, Astin teve vontade de contar toda a verdade, desabafar e soltar tudo aquilo que guardava dentro de si. Porém, foi quando teve uma ideia.
Tomada em seus pensamentos, ela falou para si, como se tentasse convencer a própria consciência representada na figura abóbada da jovem à sua frente.
"Por que não contar uma fábula ? Ela não saberia a diferença."
— Tá bom! Vou te contar uma história. Mas antes vamos sair do meio do corredor.
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Atualizado até capítulo 90
Comments
Maria Silva
vai Astin, começa a entrosar com lis para conseguir algo que procura
2023-06-23
2
Coisas que eu sei
Iuupii, amando a cada capítulo ficando mais interessante.
2023-04-30
1
Luciana 🥰
Cada dia mais interessante 😃🤔☺️
2023-04-27
1