Olhando do topo do monte árido, Ava esquadrinhava cada canto do deserto quente, muito quente, ao ponto da terra vermelha parecer lava escaldante. Ninguém ousaria passar por aquele lugar, naquela hora específica, quando o sol estava a pino e não havia uma sombra sequer por milhas de distância. Era com isso que contavam os algozes das vidas escravizadas no interior da montanha. Mas ela conseguiu e desde que descobriu sua força, a centenas de anos atrás, fazia plantão ali, para ajudar os que conseguiam sair.
Aquele era o melhor momento, a hora do banho quinzenal, quando todos passavam pela área mais propícia de sair. Atenta, ela viu duas coisinhas miúdas, saindo por um buraco, cegadas pela luz solar, não conseguiam enxergar nada, pelo contraste entre a escuridão onde estavam e a luz extrema onde saíram. Teve pena deles e se jogou. Suas imensas asas brancas se abriram, reluzentes e limpas e planou até chegar neles.
Nem parou, apenas os abraçou, um em cada braço e falou baixinho:
— Não tenham medo, vou levá-los a um lugar seguro. Agarrem em mim.
Subiu e voou rápido, com os pequenos braços agarrando onde conseguiam, em seu corpo. Voou sobre a terra quente, que formavam imagens enganosas com as ondas de calor que subiam do solo. Ultrapassou o deserto e chegou a montanha verde, como chamava a cadeia de elevações, cobertas de florestas tropicais, que contrastavam totalmente, com a montanha árida de onde vieram.
Desceu devagar por entre as árvores, desviando dos galhos, até pousar ao lado de um riacho d'água fresca, que brotava da terra, no alto da montanha. Mais acima, esse mesmo riacho, formava várias cachoeiras, lindas e frescas, que alimentavam os animais e plantas do lugar. Pousou as crianças na beira do riacho e os empurrou para a água. Deu um assobio e alguns jovens surgiram e foram ajudar os pequenos em seu primeiro banho fora da prisão.
Um deles se virou para sua salvadora e falou:
— Fatou Trash. — disse o menino, que não tinha mais que quatro anos.
— Tem mais um?
— Sim — respondeu a menina, que parecia sua gêmea.
— Só ele?
— Sim.
Ela bebeu um pouco d'água do riacho e levantou vôo novamente. Dessa vez subiu mais alto e voou mais rápido, não queria perder nem uma vida mais. Foram muitos que perdeu até aquele momento. Avistou o garoto de longe, ele já havia descido a montanha e começava a correr na terra ardentes. Ela deu uma rasante e agarrou-o por trás, erguendo-o do chão. O jovem franzino começou a se debater.
— Vou levá-lo até os pequenos, fique quieto.
Ele se aquietou e se deixou levar. Os braços dela estavam cansados e ela pediu que ele se virasse e a segurasse com pernas e braços e assim ele fez.
— Você salva os fugitivos? — falava alto, tentando vencer o vento.
— Sempre que os encontro.
— Ajudei outros, será que conseguiram?
— Verá quando chegarmos, poderá procurar.
Mais uma vez ela desceu e pousou ao lado do riacho e o empurrou para a água. Os pequenos não estavam mais ali, mas dois jovens esperavam. Ajudaram o jovem, que devia ter uns 18 anos a se limpar e vestir. Eles chegavam muito fracos e debilitados, demoravam a se acostumar a andar erguidos e tinham dificuldade com a claridade. Por isso precisavam de ajuda.
Ava olhou para o alto, admirando a majestade das árvores imponentes, que ocultavam e protegiam aquele lugar. Subiu pela trilha do riacho e chegou nas cachoeiras e entrou debaixo da queda mais alta e se refrescou por um bom tempo, deixando a água gelada descer por sua cabeça e corpo, aliviando a tenção e massageando os músculos, suas pesadas asas, mais pesadas ficaram, mas ela aguentou até sair e sacudi-las, tirando o excesso e depois terminou de secar ao sol.
Sentiu seu coração palpitar forte e a sua carne tremer, ele a chamava. Mas enquanto estivesse acorrentado profundamente dentro da montanha, ela estaria segura. Durante muitos anos, seu sangue, como o de muitas crianças, o alimentou, mas desde que ela conseguiu fugir, sentia seu chamado. Não podia se deixar amedrontar pelo chamado, mas permanecer confiante de que ele não conseguiria fugir.
Depois de seca, foi em direção às precárias construções em que habitavam. Eram feitas na encosta do morro, na área externa das cavernas existentes ali. Eram uma junção de troncos e folhagens, atados com cipós finos e verdes, que quando secavam, endureciam e firmavam. Naquela terra, tudo era precário, viviam em uma época pós apocalipse e tudo que tinham de valor eram a si mesmos, a natureza e escombros.
Quando ela chegou e entrou em uma das cavernas, foi uma festa, crianças de vários tamanhos e jovens vieram abraçá-la pelas pernas, braços e asas e ela se viu cercada de carinho e amor. Depois, todos voltaram aos seus lugares, que eram mesas e bancos, também precários, esperando para fazerem a refeição. Ficou observando tudo e lembrando de quando era só uma criança e precisou enfrentar tudo sozinha.
Da época que fugiu até o momento presente, se passaram séculos. As crianças que conseguiram fugir depois dela, já haviam crescido e formado suas famílias. Os humanos, morreram com a idade e os sobrenaturais, continuavam comandando suas famílias e conforme cresceram, se apartaram do núcleo de Ava e formaram seus próprios núcleos familiares, não tão distantes, mas em outras cavernas ou construindo suas próprias cabanas em meio a floresta.
Desta forma, ficavam com Ava, só seus auxiliares diretos e os resgatados mais recentes. Os auxiliares também tinham seus filhotes, mas por serem mais novos, não tinham necessidade de outra moradia, sendo a caverna, tão grande. Trash também ficou curioso com todas aquelas crianças e com a organização. Identificou objetos que nunca havia visto na vida, como os recipientes onde eram feitas as refeições quentes, que mais tarde soube serem panelas.
— Está admirado com tanta coisa que nunca viu? — perguntou Ava.
— Leu meu pensamento?
— Quase isso, li suas expressões.
— De onde vem tudo isso?
— Tive muito tempo depois que fugi e minhas asas apareceram, para conhecer o mundo e trouxe várias coisas dos escombros do antigo mundo. Algumas crianças sobrenaturais, hoje adultos, lembravam das coisas e nos disseram o que era e para quê serviam, como as panelas pratos e talheres.
— Acho que tenho muito a aprender.
— Sim, teremos muitas conversas, Trash. Eu estava esperando por uma pessoa como você. Vejo seu interesse genuíno por tudo e seu esforço para salvar vários dos que estão aqui. Essa qualidade será muito útil para nós.
Ele sorriu, ao observar algumas crianças que sequer lembravam dele, mas que estavam ali, salvas.
— Você fica lá na montanha, vigiando todos os dias?
— Não, só nos dias de banho e limpeza.
— Você é esperta…
— Foi como fugi.
— Você também foi escrava? — perguntou Trash, olhando para ela admirado, sem acreditar que um ser tão maravilhoso, pudesse ter sido escravo naquele lugar miserável.
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Atualizado até capítulo 47
Comments
Łí-§øøji~
♡..
2024-03-25
0
Łí-§øøji~
♡♡
2024-02-27
1
Łí-§øøji~
.n..
2024-02-17
1