Déia deixou Mag dormindo e foi até a cozinha, preparou duas canecas de chá e foi para a sala, onde Lili estava assistindo um filme de natal na televisão. Entregou-lhe uma caneca e sentou-se, cobrindo as pernas com a outra ponta do edredom que cobria as pernas de Lili.
— O que foi que aconteceu, dessa vez?
— Não sei o que é exatamente, mas alguma coisa não encaixa na contrariedade do irmão de Mário contra mim e Mag.
— Ele é irmão, deve estar preocupado com o irmão.
— Não é só isso. Mário mencionou que ele ficou arrependido pelo que me fez no natal, ao ver a foto em que revelei Mag como filha de Mário. Então o que fez ele continuar duvidando.
— Só uma coisa causa tal virada, fofoca, querida, fofoca.
— Nessas alturas da história, não consigo imaginar quem fomentaria esse assunto.
— Então, deixe ele se entender com a família. Você nunca me contou o que realmente aconteceu naquela época, poderia contar agora?
— Não tem muito o que acrescentar ao que você já sabe, nos conhecemos e nos apaixonamos, quando eu era adolescentes. Ele é cinco anos mais velho do que eu e quando nos conhecemos eu tinha só 14. Na véspera da partida dele para trabalhar na cidade, eu fiz 16 anos e de presente de aniversário, ele me deu a nossa união, que gerou Mag, prometendo voltar assim que tivesse condições, para nos casarmos.
— Mas não voltou e nem deu notícias?
— Sabe que você me lembrou de uma coisa, ele deu notícias sim, escreveu várias cartas, mas a mãe dele não me entregou. Eu acho que você sabe o restante, meu pai descobriu que eu estava grávida antes de mim, me deu uma surra daquelas e quase perdi o bebê e fiquei em coma por cinco meses. Eu estava com dois meses de gestação quando comecei a passar mal e meu pai percebeu. — concluiu Lili, pensativa.
— E as cartas, onde estão?
— Vou pegar, ainda não abri nenhuma.
Lili se levantou e foi até o quarto voltando com a caixa que Mário lhe deu, contendo as cartas. Sentou-se ao lado de Déia, novamente, abriu a caixa e começou a olhar as cartas.
— Procure a mais antiga, que seria a que ele enviou primeiro. — Sugeriu Déia.
— Me ajude, então, são muitas.
As duas foram abrindo e verificando as datas dos carimbos das cartas, que tinham sido enviadas pelo correio, para o endereço dos pais dele. Depois de as organizarem por ordem, prestaram atenção nas datas e viram que a primeira carta chegou no primeiro mês que ele estava fora.
— Veja, Lili, essa carta chegou quando você ainda não estava no hospital. Nessa época ninguém desconfiava que você estava grávida, eles poderiam ter entregue a carta a você. Por que será que não o fizeram?
— Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Por que será que a família dele não me entregou a carta, será que eles não sabiam onde eu morava?
— Talvez fosse isso, se ele enviou as cartas para a mãe, no endereço em que ele morava, era porque não sabia qual era o seu endereço. — justificou Déia.
— Nós não morávamos muito distantes, sendo que eu morava na parte pobre do bairro e eles moravam nas mansões.
— Você já os conhecia?
— Mário chegou a me levar na casa dele umas duas vezes, se não me engano, também era Natal.
— Então, a família dele conhecia você e podia ter te procurado.
— Esta é uma questão que vai ficar sem resposta, pois eu também não quero ficar pensando nisso.
— Que tal você pegar estas cartas de amor e ir lá para o quarto ler uma por uma, toda paixão que Mário sentiu por você, durante todo esse tempo está aí.
— Você me deu uma boa ideia, pois se ele veio casar comigo para cumprir a promessa que fez e me diz que me ama muito, essas cartas, com certeza, sepultarão todas as dúvidas.
Se despediram com um boa noite e Lili foi para o quarto começar a ler as cartas de Mário. Não eram cartas muito longas, narravam um pouco do cotidiano dele e da imensa saudade que sentia. Uma após outra falavam do profundo amor que ele sentia e de como estava lutando para fazer uma renda que possibilitasse ele voltar bem e formar um lar para eles.
Uma das cartas chamou a atenção de Lili, foi quando ele disse que seu irmão esteve visitando-o na cidade e perguntou a ele se havia namorado com alguém. Na carta, Mário contava que estranhou a pergunta do irmão, que lhe contou que Lili não estava perdendo tempo e já tinha trocado ele por outro. Mário dizia também, que um amigo dele, tinha lhe dito que não via Lili a muito tempo e que seu pai tinha morrido. Depois desta carta, ele diminuiu a frequência, até parar de escrever.
Se o irmão dele foi lá e falou isso para ele, sabia onde ela estava ou conhecia alguém que sabia e podiam ter, sim, entregado as cartas para ela. Não quando ela estava em coma, mas antes ou depois dela sair do hospital. Estava confirmada a discriminação ou perseguição, qualquer que fosse o nome que se desse, ao que o irmão dele estava sentindo e fazendo. Não tinha desculpa, pois ele estava completamente equivocado em tudo que sabia e sair acusando uma pessoa sem ter provas, era um crime.
Ela queria deixar esse assunto de lado, mas só poderia ter uma comunhão em família, se essa situação fosse resolvida. Mário sempre teve uma família muito unida e gostava de estar junto com eles, como poderiam viver tendo uma rusga entre os irmãos? Ela se virou na cama, se aconchegou e resolveu deixar aquele assunto de lado, tentando dormir. Demorou um pouco, mas lembrou do rostinho de Mag, tão feliz, correndo pela casa e isto tranquilizou sua mente e o sono chegou.
No dia seguinte, levantou-se uma hora mais cedo e depois de se arrumar, saiu sem se despedir de Mag, que ainda dormia e foi para o trabalho. Chegou lá mais cedo e começou a preparar panetones e tranças recheadas, encomendadas para o ano novo. Iniciava o mesmo corre-corre do natal, as máquinas ajudavam com a massa e logo a equipe chegou para completar o trabalho.
Os panetones de ano novo teriam uma decoração e alguns sabores diferentes. Ela havia pesquisado durante o ano e feito algumas experiências de panetone com champanhe e cidra. Eles ficaram ótimos e ela havia distribuído amostras para os seus fregueses experimentarem e encomendarem para o ano novo. Recebeu uma grande encomenda para um dos grandes hotéis da cidade, não era um cinco estrelas, mas era um dos melhores e sempre fazia festas de réveillon memoráveis.
Foi um dia duro, e quando Mário chegou, ela havia terminado e estava exausta. Tomaram um café, mas não se aprofundaram em nenhum assunto mais preocupante. Ele percebeu que ela estava muito cansada e não quis tratar do assunto que precisava, seria por demais doloroso para ela, um segredo que foi guardado durante muito tempo e que precisava vir à tona. Precisou forçar o irmão, para conseguir arrancar dele o motivo de tanto revés e no final, a história não era nada bonita.
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Atualizado até capítulo 28
Comments
jaqueline conceição
Está confirmado,essa autora gosta de um suspense e matar as leitoras de espera kkk
2024-04-05
6
Maria Izabel
nossa qual será o mistério 🤔
2023-11-02
2
Márcia Jungken
que segredo será que é esse 🤔🤔
2023-10-30
1