Capítulo 4. Aos Poucos

Mário entrou no recinto e foi até o balcão, onde uma sorridente Rachel o atendeu e lhe entregou um cardápio.

— Sente-se e escolha a vontade, já vou lhe atender.

Ele sentou-se na mesma mesa, próximo a vidraça que dava para fora. Fez seu pedido e ficou observando o corre-corre natalino das pessoas no shopping. Ainda faltava uma semana para o natal, o shopping ficaria aberto até tarde, para os que deixaram para a última hora, pudessem comprar seus presentes. O que não era o seu caso, pois trouxe tudo em sua bagagem.

O café chegou e ouviu a voz inconfundível de Lili. Se virou e viu-a colocando um lindo panetone enfeitado na vitrine do balcão. Chamou-a:

— Lili!

Ela levantou os olhos para verificar quem a chamou e viu que era ele e sua expressão se fechou, parecendo preocupada, olhou para dentro, falou algo com Rachel e foi até ele:

— Oi, Mário. Não posso ficar aqui, estou ocupada lá dentro.

— Desculpe, atrapalhar, mas queria muito que você tirasse um tempo para mim. Quando podemos nos encontrar?

— Está me convidando para um encontro? — perguntou ela, sorrindo.

— É mais que isso, querida. Temos muito que conversar sobre nós. — respondeu ele sério.

— Sobre nós, como assim? Não existe mais nós. — disse ela com a expressão, que a ele pareceu medo e isso foi muito estranho.

— Do que você tem medo, Lili? Eu nunca desfiz nosso laço, trabalhei cinco anos para poder voltar e casar com você e não mudei de ideia. — falou ele, com convicção.

— Mas…se passaram cinco anos e você nunca entrou em contato.

— Você não recebeu minhas cartas? Pensei que não respondia porque estava ocupada, minha mãe me contou que seu pai morreu e que você ficou internada por meses, cheguei a comprar a passagem para vir vê-la.

— E porquê não veio?

— Porque minha mãe disse que não era necessário eu deixar tudo, que estavam cuidando de você.

Uma lágrima escorreu do olho dela, que balançou a cabeça, se encolhendo, parecendo sentir uma dor muito grande.

— Desculpe Mário, mas não posso conversar contigo agora. Minha folga é amanhã. Me encontre às quatro horas no pier.

— Está bem. — ele nem soube se ela ouviu, pois já tinha ido para sua cozinha ou seja lá pra onde foi.

Logo, a pestinha da menina, mostrou sua cabecinha, escondida por trás do balcão, enfiou a mãozinha, pegou um biscoito em formato de estrela e correu para onde ele estava. Subiu em uma cadeira em sua frente e perguntou:

— Quem é você, tio?

— Eu? Porque você quer saber?

— Se eu não souber quem é você, minha mãe biga, que tô falando com estranho. — ela mordeu o biscoito e balançou os cachos loiros sedosos e brilhantes.

— Meu nome é Mário.

— Oi, Mário, meu nome é Mag e eu tenho assim ó — mostrou quatro dedos da mãozinha — quatro anos.

— Onde estão seus pais?

— Tenho pai não, minha mãe tá fazendo biscoitos, como esse — mostrou o biscoito que estava comendo — é muito bom, mas mamãe biga que como demais.

Ele não resistiu e riu, a pestinha era mal educada, mas muito fofa. Quatro aninhos, mais um pouco e podia ser sua filha. Observando ela assim, sentada e conversando, era bem lindinha.

— Mag! — gritou Rachel.

A menina pulou da cadeira e saiu correndo e gritou de longe:

— Tchau, tio.

Riu da sapequisse da menina e imaginou o trabalho que não devia dar para a mãe, que precisava levar ela para o trabalho. Lili era uma boa patroa, já que permitia que as funcionárias levassem seus filhos. Rachel foi até ele.

— Desculpe o atrevimento da Meg, ela gosta de interagir com as pessoas.

— Está tudo bem, até gostei de conversar com ela, das duas primeiras vezes que a encontrei, foi um esbarrão e um chute.

— Desculpe, ela é desse jeito, vive correndo e por mais que a gente fale, não adianta.

— Ela é muito nova, ainda, um dia aprende. Já terminei o meu café, preciso ir, obrigado. — disse ele, se levantando e pegando sua ficha para pagar no caixa.

Foi para casa e pretendia falar com sua mãe sobre as cartas e presentes que enviou para Lili. Avistou alguns conhecidos e acenou a distância, um dia teria que parar e conversar, mas deu graças a Deus por ser natal e todos estarem correndo. Pegou o carro e viu que estava bem frio e Lili marcou de se encontrarem no pier. Resolveu passar por lá no caminho para casa.

Foi então que viu a mudança no lugar. A orla estava muito linda, o prefeito havia se esmerado na reforma. Havia estacionamento, calçadão e ciclovia, que seguiam até o pier de madeira, sobre o quebra mar de pedras naturais, que formava uma enseada logo a seguir. Haviam quiosques com petiscos diversos, era um excelente lugar para se passear e haviam várias pessoas lá.

Depois de olhar tudo, chegou em casa e como sempre, sua mãe o recebeu.

— Oi, querido, como está a obra?

— Está ótima, mãe. Creio que depois do Natal poderei publicar o anúncio pedindo funcionários. — falou, pendurando o sobretudo no gancho próximo a porta de entrada.

— Que bom, filho. Quer tomar um chocolate quente?

— Não, já comi lá no shopping.

— Não me diga que foi atrás dela, novamente? — perguntou Elisa, aborrecida.

— Mãe, se a senhora tem algo contra ela, fala logo, mas não fica soltando indiretas. 

— Não, é que o pai dela morreu dizendo que ela era uma filha ingrata, uma vagabunda que dormia com qualquer um. Foi isso.

— E a senhora acreditou?

— Bem, é que ele deu uma surra tão grande nela, que foi por isso que ela ficou tanto tempo no hospital.

— Meu Deus! O que a senhora fez com as cartas que enviei para ela?

— Eu guardei. Ela estava em coma, não podia recebê-las mesmo. Mas pensei em entregar quando ela acordasse, mas demorou tanto que acabei esquecendo.

— Me dê as cartas, mãe! — pediu com ênfase.

— Por que desenterrar isso agora, filho, já faz tanto tempo?

— A senhora não entende mesmo, não é mãe? Lili foi meu primeiro e único amor, eu fiz ela mulher e prometi voltar assim que tivesse condições de casar.

Elisa se assustou com aquela informação e tampou a boca aberta de espanto, com as duas mãos. Em sua cabeça, perguntava:

 "Será?"

— Vou buscar a caixa para você. — ela preferiu não falar nada e saiu quieta, para buscar a caixa com as cartas que ele escreveu, anos atrás.

Podia ter cometido um grande engano e feito aquela jovem sofrer por muito tempo. Pelo menos, ela teve apoio de outras pessoas, se não, agora, estaria morrendo de remorsos.

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Comments

Marlene Souza

Marlene Souza

cobra, as cartas ela guardou, e os presentes, o que ela fez?

2024-09-06

1

Celia Chagas

Celia Chagas

Idiota preconceituosa poderia ter conhecido a neta 😏😤

2024-05-08

3

lucivania oliveira

lucivania oliveira

já vi que é uma bruxa

2023-12-04

2

Ver todos

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